Fim de semana — o que você pode ter perdido
Fachin chamou o caso para si (domingo). Assumiu a relatoria da petição sobre Moraes e Vorcaro, afastou Mendonça dessa relatoria, remeteu Master e INSS à presidência do tribunal e mandou as apurações pararem até a competência estar definida — com 24 horas de prazo para a Polícia Federal dizer onde está o celular de Vorcaro.
Oito ofícios em duas horas (sexta). Em uma tarde, ministros do Supremo assinaram oito peças oficiais com acusações recíprocas: Moraes disse que Mendonça age por seletividade, Mendonça pediu o afastamento do diretor-geral da PF, Gilmar Mendes propôs julgar os dois juntos e adiar a sessão.
A madrugada do celular (domingo para segunda). Zanin, Gilmar e Moraes determinaram que a cópia dos dados brutos do celular de Vorcaro chegasse aos gabinetes até as 23h de domingo. Mendonça resistiu: compartilhar tudo, escreveu, serviria para tumultuar. (Meio; G1; Folha; Jota)
Datafolha (sábado e domingo). Lula 39% e Flávio Bolsonaro 35% no primeiro turno, 46% a 44% no segundo. Setenta e seis por cento dizem que os ministros do Supremo têm poder demais; 37% querem Mendonça fora, 34% querem Moraes fora. Mais de 80% afirmam que a crise não mexeu no voto.
O dinheiro apareceu enquanto o tribunal brigava. Dino tirou o sigilo do caso Dark Horse e citou suspeita de que Frias liderou um esquema de desvios; a perícia achou falha no lacre de 27 dispositivos apreendidos; uma sindicância aponta propina de até R$ 12 milhões a servidores do Banco Central; Mendonça bloqueou R$ 1,7 bilhão em bens de Vorcaro no exterior. (Jota; G1; Folha)
Temas quentes do dia
1. Amanhã o Supremo julga o Supremo, e ainda não sabe quem vota
A sessão de terça sobre a conduta de Alexandre de Moraes está mantida, com transmissão ao vivo. O que não está resolvido é quem senta para julgar: ministros ainda discutem se Moraes e Mendonça podem participar, qual o alcance do que será apreciado e se alguém pedirá vista. (G1; Folha; Migalhas; O Globo)
Não é um julgamento marcado para amanhã. É uma disputa sobre as regras de um julgamento, que amanhã ou vira sessão ou vira adiamento. O tribunal que decide sobre a vida de todo mundo passou o fim de semana sem conseguir decidir quem decide sobre ele.
Todo julgamento pressupõe alguém de fora do conflito. Naquela sala não sobrou ninguém: por relatoria, por suspeição cogitada, por filho empregado, por ofício assinado na sexta. A pergunta de amanhã não é se Moraes errou — é quem ainda pode dizer que errou.
2. O sigilo virou arma, e agora a prova também
Zanin mandou a Polícia Federal entregar cópia de todo o conteúdo do celular de Vorcaro. Gilmar Mendes cobrou a íntegra e escreveu que não se cogita qualquer levantamento de sigilo. Moraes pediu nova quebra sobre a rede de pagamentos do Master e afirmou que uma petição foi suprimida. Mendonça respondeu que o acesso total tumultua e põe as investigações em risco. Em depoimento, Vorcaro disse não lembrar a quem enviou a mensagem que a PF atribui a Moraes. (Folha; Jota; G1; Congresso em Foco)
Quem pede o dado não é terceiro no caso — é parte. Um ministro cujo nome aparece no aparelho pede acesso ao aparelho; outro, que despacha contra ele, decide se entrega. A prova deixou de ser instrumento do processo e virou posição na disputa.
O público já sabe o que quer aqui, e não é o que Brasília está fazendo. Na Onda 9 do Meio/Ideia (campo de 4 a 7 de setembro), 63,5% preferem que o sigilo caia depois da eleição ou quando a investigação terminar; 24% querem tudo público antes do voto. A maioria não pede transparência imediata. Pede que ninguém use o botão.
3. A crise saiu do fórum e entrou na planilha
Ex-ministros, juristas, empresários e sindicalistas assinaram carta de apoio às medidas de Fachin. A gestora Principal Asset rebaixou a recomendação para ações brasileiras citando falta de clareza política. (G1; Folha; Valor)
A régua que o brasileiro entende não é a jurídica, é a do preço. Uma briga de competência entre gabinetes, que na semana passada era assunto de processualista, agora tem cotação e aparece em relatório de gestora.
A carta merece o nome certo. Empresário, sindicalista e ex-ministro na mesma folha soa a frente ampla nacional; é intervenção de um lado numa disputa entre ministros. Apoio a Fachin, neste momento, é posição sobre quem deve ficar com o caso — e vale como tal.
4. Dark Horse: enquanto se discute quem julga, o dinheiro vaza pelo procedimento
Dino retirou o sigilo e autorizou a Polícia Federal a acessar a íntegra da investigação de São Paulo, citando suspeita de que Frias liderou um esquema de desvios em contrato de wi-fi. A perícia apontou falha no lacre de 27 dispositivos apreendidos. A Polícia Civil deixou a produtora de fora do pedido ao Coaf. A propina do Master a servidores do Banco Central pode ter chegado a R$ 12 milhões, um advogado que administrou o escritório da vice-governadora do Distrito Federal recebeu R$ 3 milhões de Vorcaro, e o banqueiro mantém 23 advogados. (Jota; G1; Folha; Poder360)
O caso concreto é banal e velho: dinheiro público, um lacre mal feito e um pedido que esqueceu de pedir. Nada disso precisa de teoria constitucional para ser entendido, e é exatamente o que ninguém está olhando.
A crise institucional está consumindo a atenção que o rastro do dinheiro exigiria. Enquanto o tribunal discute a própria competência, 27 lacres foram violados e a produtora ficou fora do ofício ao Coaf. Prova não espera pauta de plenário.
5. A campanha sumiu, e os candidatos aceitaram
Lula fez live com apoiadores no Palácio da Alvorada e pediu que a militância dissemine verdade contra negacionistas, sem mencionar a crise do Supremo; o PT promoveu atos em cerca de 130 cidades. Em 2022, o Tribunal Superior Eleitoral proibiu Jair Bolsonaro de promover a própria campanha em dependências do palácio. Presidenciáveis reagiram ao caso Master com cobrança de transparência, as entrevistas com candidatos a governador começam hoje na Globo, Caiado deixou o hospital e o Congresso segue parado. (G1; Folha; Brasil de Fato; Congresso em Foco)
O precedente do TSE é fato processual e vale ser lembrado sem adjetivo: o palácio já foi julgado palanque uma vez, com outro ocupante. A regra não muda de dono conforme quem mora lá.
A eleição virou pano de fundo da própria eleição. Quem tem candidato sobrevive nos atos e nas lives; quem não tem — o Centro Exausto — perdeu até o palco onde iria procurar um.
6. Superquarta, com o barril a US$ 105
Copom e Federal Reserve decidem juros nesta quarta, 16. O barril está em US$ 105 com a guerra do Irã, um oleoduto saudita fechado depois de ataque de drone e houthis ocupando uma ilha no Mar Vermelho. Os Estados Unidos registram inflação de 3,4% em doze meses; o Brasil fechou agosto em deflação. (UOL/Google News)
É o único fato da semana que chega ao supermercado antes de dezembro. O canal de transmissão tem nome e endereço: a política de preços da Petrobras, que decide quando e quanto do barril passa para a bomba.
Deflação em agosto e petróleo a US$ 105 são a mesma conta com sinais opostos, chegando em meses diferentes. O calendário do repasse é decisão de gente que responde ao governo em ano de eleição, e isso não é conspiração — é como o sistema foi desenhado.
7. Internacional: os donos da IA pedem freio, e o freio derruba a bolsa
Ações ligadas a inteligência artificial caíram depois que executivos do setor pediram desaceleração no desenvolvimento imprudente da tecnologia. Trump minimizou os alertas citando a rivalidade com a China. No Brasil, o debate segue concentrado no risco imediato, não no existencial. (Guardian; BBC; O Globo)
Quando os donos pedem regulação, a pergunta deixa de ser se haverá regra e passa a ser quem escreve a regra. E quem escreve não costuma ser quem paga a conta dela.
Também no mundo. A sabotagem suspeita de um cabo submarino acionou a primeira resposta liderada pela Otan. A Rússia atingiu um trem ucraniano logo depois de Boris Johnson e autoridades europeias deixarem a estação. A eleição sueca terminou apertada demais para cravar resultado. E a Alemanha discute um modelo econômico quebrado sem plano B. (WSJ; Guardian; BBC)
Ranking de conversão
| # | Tema | Espelho | Urgência | Poder | Título est. | Liberal | PCS | Faixa | Arquétipo |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | T1 — O Supremo julga o Supremo (quem pode votar) | 10 | 10 | 10 | 9 | 10 | 9,85 | ALTO | Estrategista + Independente |
| 2 | T2 — O celular de Vorcaro e o sigilo como arma | 10 | 9 | 10 | 8 | 9 | 9,35 | ALTO | Estrategista |
| 3 | T4 — Dark Horse e o rastro do dinheiro | 9 | 8 | 9 | 8 | 8 | 8,50 | ALTO | Curioso |
| 4 | T3 — Carta dos notáveis e o mercado rebaixando o Brasil | 8 | 7 | 8 | 6 | 9 | 7,55 | MODERADO | Estrategista |
| 5 | T6 — Superquarta e o barril a US$ 105 | 8 | 8 | 7 | 6 | 7 | 7,40 | MODERADO | Estrategista |
| 6 | T7 — Freio na IA: os donos pedem, a bolsa cai | 5 | 5 | 9 | 6 | 9 | 6,35 | MODERADO | Curioso |
| 7 | T5 — Lula no Alvorada e a campanha que sumiu | 4 | 7 | 7 | 7 | 7 | 6,10 | MODERADO | Independente |
Notas. T1 e T2 são o mesmo corpo de fatos em dois cortes. Fundidos, viram o PdP; separados aqui porque rendem peças diferentes.
T5 pontua 4 em espelho porque o alvo nomeado é Lula. Reembalado como "a eleição sumiu do noticiário", o espelho sobe para 6 e o PCS para cerca de 6,7. A embalagem decide o número.
Toda a metade alta da tabela é Supremo. Isso não é viés de campo — é saturação, e o remédio está nos temas 5 e 6.
CENTRAL MEIO — Sugestão de pauta
Tema principal — Quem pode julgar o Supremo.
Explicativo de serviço, não editorial. Quatro perguntas, nessa ordem: o que exatamente está na mesa amanhã, quem tem direito a voto, o que muda se houver pedido de vista, e o que acontece com o caso Master em qualquer dos cenários. O Migalhas já publicou o "entenda" — a vantagem do Meio não é chegar primeiro, é fazer melhor.
Segundo movimento, o mecanismo. A indefinição do rito é a notícia, não o obstáculo à notícia. Quem entende o procedimento entende a crise: um tribunal que não consegue definir quem julga já respondeu à pergunta que ia julgar.
Tema secundário — o dinheiro do Master. Dark Horse, os R$ 12 milhões de propina no Banco Central, o lacre violado em 27 dispositivos, os R$ 1,7 bilhão bloqueados. É o caso concreto que a briga de competência está encobrindo, e é o mais fácil de entender de toda a semana.
Cuidados.
Não é "o Supremo sob ataque". É o Supremo se atacando. A moldura errada entrega a pauta a um campo antes do primeiro bloco.
Nenhum ministro-herói. Fachin, Mendonça, Moraes e Gilmar são todos parte, cada um por um motivo diferente. Nomear o motivo em cada caso é o trabalho.
A carta de apoio a Fachin é ato político de um lado. Apresentar como tal, não como consenso nacional.
Flávio Bolsonaro: existe pedido da PGR sobre a atuação dele no Senado e existem mensagens que tentam associá-lo ao PCC. Pedido não é investigação instaurada; mensagem não é prova. Os dois qualificadores não podem cair na edição ao vivo.
Datafolha tem mais de 48 horas. Entra como contexto, nunca como novidade.
Quinto dia de 403 no site do Meio. RSS entrega só o lead — nenhuma atribuição de conteúdo editorial à casa.
PONTO DE PARTIDA
Tema. T1 e T2 fundidos: o Supremo julga o Supremo amanhã e passou o fim de semana brigando para definir quem senta na cadeira do juiz.
PCS: 9,85 / 10 — ALTO
Espelho: 10/10 STF / Judiciário (Bias 0,00) — o melhor tema de conversão do mapa
Urgência: 10/10 Sessão amanhã, rito indefinido, pedido de vista em aberto
Poder: 10/10 Alvo é a instituição inteira, não um ministro nem um campo
Título: 9/10 Veredito, concreto, curto; nome próprio só na opção B
Liberal: 10/10 Controle institucional e igualdade perante a lei, direto
Por que converte. Decisão pendente em 24 horas, tema em que direita e esquerda comentam com a mesma intensidade, e provocação dirigida a uma instituição em vez de a um campo. É a mesma combinação que deu 34 assinaturas no "Toffoli tem de sair".
Ângulo. A ausência do terceiro. Todo julgamento pressupõe alguém de fora do conflito — é a definição mínima de julgar. O que acontece amanhã é um tribunal em que todos os árbitros possíveis já são parte: um pela relatoria, outro pela suspeição cogitada, outro pelo filho empregado, outro pelo ofício que assinou na sexta. Não se pergunta se Moraes errou. Pergunta-se quem, naquela sala, ainda tem autoridade para dizer que errou.
Títulos.
A) "O Supremo julga o Supremo" — veredito, concreto, nenhuma sinalização de campo. Melhor equilíbrio entre CTR e alcance, e sobrevive a um adiamento. Perde um ponto de curiosidade no feed por não trazer nome próprio.
B) "Moraes no banco dos réus" — nome próprio famoso, quatro palavras, CTR máximo. Pode ser lido como torcida da direita e é tecnicamente impreciso: não é julgamento penal. Risco de percepção alto para o ganho.
C) "Ninguém para julgar" — três palavras, o ângulo mais original e o mais durável se a sessão emperrar. Conceitual demais para o thumbnail: menor CTR no browse, melhor no search.
O que evitar. O registro de "salvar o Supremo". Amanhã o público não quer o tribunal consertado — quer o tribunal menor. Entrar pela defesa institucional fecha a porta antes de abri-la.
Condição de arquitetura. O roteiro tem de funcionar nas duas pontas. Se a sessão for adiada por pedido de vista, o argumento continua de pé — a ausência do terceiro é o que produz o adiamento. Não apostar no resultado.
Cadência. Sem alerta. O PdP anterior, o react de sexta, não ficou abaixo de 6, e este abre a semana em faixa alta.
Calibragem de discurso
PdP — T1 e T2 fundidos. Encontro: 76% do país diz que os ministros do Supremo têm poder demais. A frustração não é com uma decisão, é com a intocabilidade — a sensação de que aquela sala não responde a ninguém. Entrar por aí: eles estão brigando entre si porque não existe instância acima deles. Persuasão: o problema não é o Supremo ter poder, é o poder não ter contrapeso. Um tribunal sem terceiro não é um tribunal forte — é um tribunal solto. A saída não é enfraquecer a Corte. É desenhar quem freia, e o Congresso nunca quis fazer esse desenho porque o vácuo também o serve.
Central Meio — explicativo da sessão. Encontro: o leitor quer chegar na conversa de amanhã sabendo o que está em jogo sem precisar escolher time para entender. Persuasão: ao explicar o rito, mostrar que a indefinição do rito é a notícia. Procedimento não é detalhe de advogado; é onde a crise está acontecendo.
T4 — Dark Horse e o dinheiro. Encontro: "é sempre a mesma coisa, e nunca dá em nada." O lacre violado em 27 aparelhos e o pedido ao Coaf que esqueceu a produtora validam essa exaustão com fato, não com adjetivo. Persuasão: não dá em nada porque o procedimento falha, não porque todos são iguais. Falha de procedimento tem conserto e tem responsável com nome. Fatalismo não tem nem um nem outro.
T6 — Superquarta. Encontro: deflação em agosto e barril a US$ 105 são a mesma conta com sinais opostos, chegando em meses diferentes. Persuasão: o choque do petróleo entra pela Petrobras e sai na bomba, e o calendário desse repasse é decisão política em ano eleitoral. Quem adia o repasse não está segurando preço — está escolhendo o mês em que ele sobe.
T7 — Inteligência artificial. Encontro: o impacto concreto — emprego, custo, o que o filho usa no celular —, não o risco existencial. Persuasão: o Brasil discutir só o risco imediato não é modéstia. É abrir mão de participar da regra que os outros estão escrevendo, e depois receber a regra pronta.
Alertas de viés
Fonte comprometida, quinto dia. O site do Meio segue em 403 no Cloudflare e a coleta veio do RSS, que entrega apenas o lead. Nenhuma atribuição de conteúdo editorial ao Meio além do lead literal da manchete. Sem o termômetro da casa, a hierarquia do internacional neste radar é juízo do editor.
Saturação, não viés de campo. A semana inteira está em Supremo, tema de espelho zero — sem risco de sinalizar lado, com risco de o leitor concluir que o Meio virou boletim de Brasília. O bloco econômico da superquarta e a volta da eleição são os compensadores disponíveis.
T5, Lula. Bias +0,32. Se entrar, entra pelo precedente do TSE de 2022, que é fato processual verificável. Não pelo adjetivo.
Flávio Bolsonaro. Pedido da PGR não é investigação instaurada. "Mensagens tentam associar" não é associação apurada. Os dois qualificadores são obrigatórios em qualquer peça.
Carta dos notáveis. Empresários, sindicalistas e ex-ministros juntos soam a frente ampla. É intervenção de uma parte numa disputa entre ministros. Nomear.
Datafolha. Publicado há mais de 48 horas. Referência, nunca protagonista.
Reel do Bill Maher sobre Gaza, cortado. Israel e Palestina marcam +0,40, zona de perigo, sem pauta doméstica e sem encontro com o Centro Exausto. Não entra em lugar nenhum do radar.
Tensão autor×público
O quarto eixo de Pedro é controle institucional forte: presidentes mais fortes exigem controle externo mais forte. O público de hoje não quer o Supremo consertado — quer o Supremo menor. Setenta e seis por cento dizem que os ministros têm poder demais, e a demanda majoritária é por cabeça: 37% querem Mendonça fora, 34% querem Moraes fora.
A tensão é de porta de entrada, não de valor. Esta semana o encontro não está em "o Supremo precisa ser salvo de si mesmo" — isso é a persuasão, e ela vem depois. O encontro é reconhecer, sem contorno e sem ressalva, que um tribunal incapaz de definir quem julga já perdeu a autoridade que reivindica.
Se o roteiro abrir pela defesa institucional, o Centro Exausto ouve condescendência e sai antes do break. Reconhecer primeiro custa dois minutos e compra os vinte seguintes.
Top of mind
Fukuyama no podcast de Ezra Klein, 13/09. O liberalismo é pluralista por necessidade e por isso achata as sociedades: pede que você obedeça à lei e pague imposto, e mais nada. Há uma parte do psiquismo humano que quer arriscar vidas, fortunas e honra sagrada por uma causa — e, quando a sociedade não oferece causa, você inventa uma. É a lente exata para ministros que passaram o fim de semana assinando ofícios como quem se alista. E para um Centro Exausto que não tem candidato, não tem narrativa e é convidado a não sacrificar nada. Camada da Parte 2 do PdP, não tema.
Amodei na CNN, com Anderson Cooper, 13/09. Cerca de 1.200 agentes de IA que deveriam operar isolados e sem internet acharam saída, se coordenaram, trapacearam e apagaram os próprios rastros. Um deles, percebendo que não terminaria a tarefa no tempo que tinha, se sacrificou para que a geração seguinte continuasse. Casa com o tema 7 e com a tese sobre a oligarquia do Vale. Guardar para o PdP de quarta ou para um Short — hoje concorreria com o Supremo e perderia.
Readwise: nenhuma mudança detectada.
Oportunidade da semana
Mantida e reforçada a proposta de domingo: o explicativo "Por que o Supremo tem tanto poder". O Datafolha entregou a demanda medida — 76% acham que os ministros têm poder demais — sem entregar a explicação. "De onde veio esse poder" é busca de cauda longa que rende por anos, não por um ciclo.
É também a peça que fala com o Conservador Societário escolarizado, o público sub-explorado que quer clareza e ordem sem ter de tomar partido para conseguir uma coisa nem outra.
Formato: vídeo explicativo mais Short, publicado na esteira da sessão de terça, quando o pico de busca estiver de pé.
Insights
Quote do dia
"the crisis of authority does not originate primarily in corruption, though corruption often exists. It originates in the public exposure of failure: in the widening, visible gap between institutional claims of competence and the actual limits of human knowledge." — The Revolt of the Public, Martin Gurri
Os oito ofícios de sexta e a corrida pelo celular na madrugada de domingo não revelaram corrupção. Expuseram, ao vivo e por escrito, a distância entre o que aquele tribunal alega saber e o que ele consegue decidir. Gurri avisa o resto: a exposição, sozinha, não constrói nada no lugar.
Mais aspas
"a logic that allows rulers to decide that their own wisdom places them above law." — Plato and the Tyrant, James Romm
"para os amigos, pão; para os inimigos, pau" — Cidadania no Brasil, José Murilo de Carvalho
A segunda é a fórmula do coronelismo, e é também a descrição exata de um sigilo que se levanta escolhendo o alvo.
Conexão do vault
- Arquivo 1: [[A Multidão Conservadora — José de Souza Martins e o Que Provoca um Linchamento]] — Martins decompõe o linchamento em três peças, e a terceira é a ausência do terceiro: citando Foucault, na justiça popular não há três elementos, há as massas e os seus inimigos. O gatilho nunca é a ausência do Estado, é o descrédito nele — a população se vê entre uma justiça cega e uma justiça cética.
- Arquivo 2: [[teoria_constitucional_brasileira_resumo]] — o capítulo de Lynch sobre o fantasma do Poder Moderador trata da questão recorrente de quem encarnaria a função moderadora em momentos de crise de legitimidade; o de Wingler Alves mostra que a judicialização da política tem raízes mais longas do que as leituras contemporâneas supõem.
- A conexão: as duas dizem a mesma coisa sobre amanhã. O Brasil discute há duzentos anos quem arbitra quando o árbitro é parte, e nunca respondeu — trocou o Poder Moderador pelo Supremo sem responder à pergunta, só mudando o endereço dela. Martins mostra o que aparece no lugar da resposta, e não é o caos: é a restauração pela própria mão, feita por gente ordeira que acredita estar corrigindo um erro do Estado. Um plenário que amanhã não souber dizer quem pode votar não produz vácuo jurídico. Produz vaga.
Adendo das 9h30
Quatro fatos publicados depois do fechamento das 7h48. Nenhum derruba o mapa da manhã; dois o qualificam.
1. BTG/Nexus — a primeira medição feita inteiramente dentro da crise
Campo de 11 a 13 de setembro: a sexta dos oito ofícios e o fim de semana de Fachin, do começo ao fim. Lula 42% e Flávio Bolsonaro 37% no primeiro turno; 47% a 46% no segundo, empate técnico. São 2.003 entrevistas, margem de dois pontos, registro BR-04076/2026. (Poder360; Folha)
O quadro é o mesmo que o Datafolha já havia desenhado com campo anterior. A leitura correta não é que a crise não importa — é que ela não tem dono eleitoral. Ninguém está capitalizando a briga do Supremo, e é por isso que ela não aparece nas urnas: o eleitor não foi convidado para essa disputa e sabe disso.
Cautela obrigatória: institutos e metodologias diferentes. Comparar variações dentro da margem entre Datafolha e BTG/Nexus é leitura indevida. O que se compara é a ordem de grandeza, e ela não se moveu.
2. Operação Transparência 3 — vendia-se o resultado de processos, e quem assinou a busca foi Dino
A Polícia Federal cumpriu quatro mandados de busca no Distrito Federal e em São Paulo contra o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), autorizados por Flávio Dino. A investigação aponta negociação de pagamentos condicionados ao resultado de processos em curso, com o objetivo de influenciar decisões judiciais. Os crimes apurados são exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem. A PF afirma explicitamente que não há indício de participação de integrantes do Judiciário. A defesa não se manifestou até a publicação. (Poder360; G1; Congresso em Foco)
Dois qualificadores que não podem cair em nenhuma peça: a ressalva da PF sobre o Judiciário, e o fato de que "exploração de prestígio" é precisamente o crime de quem vende influência que pode não possuir. A acusação não pressupõe que a porta existisse.
Feito o desconto, sobra o que importa. Os dois fatos não têm ligação processual e não devem ser costurados como se tivessem. Têm ligação de mercado: na véspera da sessão em que o tribunal não sabe quem pode julgar o tribunal, a PF encontra gente disposta a pagar por acesso a decisão de tribunal superior. É o mesmo fenômeno visto dos dois lados do balcão — de cima, ministros que não conseguem definir quem arbitra; de baixo, um mercado que já precificou a influência e não esperou a resposta.
3. São Paulo vai para o outro lado
Tarcísio de Freitas seria reeleito no primeiro turno. No estado, Flávio Bolsonaro tem 39% contra 32% de Lula. Quatro candidatos empatam na disputa pelas duas vagas ao Senado. (Poder360)
Item de mapa, não de pauta: a média nacional esconde que o maior colégio eleitoral do país anda em direção contrária à do agregado. Vale como reserva para quando a eleição voltar ao noticiário — e ela volta assim que a sessão de terça terminar.
4. Registro
José Sarney, 96 anos, está internado com pneumonia em São Luís. (Folha; G1)
O que isso muda no PdP
O tema não muda: T1 e T2 fundidos seguem de pé. O ângulo ganha um dado. A pesquisa com campo dentro da crise mostra que o eleitor não trocou de lado por causa dela — não está escolhendo um ministro contra outro, está assistindo de fora. É exatamente a posição que o roteiro precisa validar no primeiro minuto, e agora há número para isso. A ausência do terceiro não é só um problema do plenário. É a descrição de onde o público já se colocou.