Radar · Edição do Dia

16.09.26

Quarta-feira Edição nº 170

O empate que diz tudo

§ 01

Temas quentes do dia

Sétimo dia de HTTP 403 no site do Meio, e o g1 também bloqueou a leitura. A coleta ficou só nas manchetes do RSS. Tudo o que segue sobre a sessão do STF vem de manchete: não há voto nominal, fala nem placar detalhado sem conferir a íntegra do Poder360.

T1 — O Supremo empatou sobre si mesmo

A sessão de ontem sobre a Pet 16.662 terminou sem decisão. Os ministros anteciparam votos e empataram. Flávio Dino pediu vista e pode ficar com o processo por até 90 dias. Alexandre de Moraes votou no processo que discute se ele próprio será investigado. (Jota; G1; Folha; O Globo)

Nem se discutia o mérito. O plenário votava uma preliminar: se duas petições do caso Master seriam julgadas juntas ou separadas. Nem essa saiu. Cármen Lúcia votou para julgar em separado as mensagens entre Moraes e Vorcaro.

O empate é o próprio resultado. Um tribunal rachado ao meio sobre investigar um dos seus mostrou que não consegue julgar a si mesmo.

O que fica aberto: segundo a Folha, o regimento prevê voto de desempate de Edson Fachin, mas há dúvida sobre como se aplica. Manchetes falam num "julgamento do dia 23", sem objeto claro. O G1 diz que a análise da condução de André Mendonça no caso Master pode ser adiada. A Folha escreve que um grupo pró-Moraes, liderado por Dino, "tenta ganhar tempo e mira Fachin". O Jota resumiu: o julgamento era sobre Moraes, mas o foco virou Fachin. Lá fora, a imprensa internacional falou em "luta feroz" e em consequências imprevisíveis para a eleição.

Subtema: o Supremo nos dois palanques. Flávio Bolsonaro associa Lula a Moraes. Lula tenta se afastar do STF e de Moraes e usa no horário eleitoral a investigação contra o senador. A campanha de Flávio quer impedir que Moraes assuma a presidência do STF e está dividida sobre como fazer isso. (G1; Folha) As duas manchetes só entram juntas.

T2 — O código de conduta morreu no bate-boca

Antes da sessão, Gilmar Mendes mandou a Kassio Nunes Marques, por WhatsApp: "assumam que estão ferrados". Kassio o bloqueou. A manchete do G1 traz também um "Me respeite, Gilmar". Cármen Lúcia disse sentir "tristeza e consternação" e que estava "envergonhada". A Folha descreveu a sessão assim: "Cármen atônita, Mendonça em oração e gargalhadas na sala de lanches". (G1; Folha)

Pela Folha, a crise deve inviabilizar o código de conduta proposto por Fachin. O G1 diz que ministros veem risco para o código e possível mudança na correlação de forças do caso Master.

A regra de ética morreu justo no dia em que o tribunal mais mostrou precisar dela. O problema não é a briga. É que ninguém de fora tem como impor compostura.

Trava: o vídeo "Show dos horrores", da Folha, e a análise do Brasil de Fato sobre Mendonça são opinião, não fato.

T3 — Metade do dinheiro público de campanha vai para 7% dos candidatos

Metade do dinheiro público de campanha para deputado federal está concentrada em 7% dos candidatos. Entre as doações de pessoas físicas, o "Rei do Gás" lidera, com repasses para candidatos de direita e de centro. (Folha)

O dinheiro público escolhe o eleito antes do eleitor. A crítica vale para os dois lados, porque a planilha é de todos os partidos.

Ressalva: a informação é só de manchete. Precisa de apuração antes de virar peça.

T4 — A eleição do medo

Só 12,5% dizem não ter medo de nenhum resultado. Em setembro de 2022 eram 22%. O medo está dividido quase igual: 35,5% temem apenas a volta dos Bolsonaro, 34,7% apenas a continuidade de Lula, e 9,4% temem os dois (eram 6%). Somados os que temem os dois, dá 44,9% com medo da volta dos Bolsonaro e 44,1% com medo da continuidade de Lula. (CNT/MDA, 170ª rodada)

Quase ninguém vota a favor de alguém. Vota contra o medo do outro. Os dois palanques vendem o mesmo produto.

T5 — Três institutos, o mesmo campo, três distâncias

A CNT/MDA, com campo de 9 a 13 de setembro, dá Lula 47,3 a 40,0 sobre Flávio no segundo turno. O Nexus, de 11 a 13, dava 47 a 46. A Quaest, de 10 a 13, dava Flávio 42 a 40. O voto definitivo chegou a 79,8% (era 64,9% em abril). Na pergunta espontânea, os indecisos caíram de 39% para 21%. (CNT/MDA; Nexus; Quaest)

São três medições feitas ao mesmo tempo, com Lula à frente por 7, por 1 e atrás por 2. Não cabe escolher uma nem tirar média. O ponto em que as três concordam é que o voto está se fixando.

Cury: entre quem o conhece, tem o maior potencial de voto (55,5%), mas marca 6% na estimulada. Muita gente toparia votar nele; pouca gente vota.

T6 — Superquarta

A expectativa é de que o Copom corte a Selic pela quinta vez seguida, para 13,75%, e de que o Fed suba os juros no mesmo dia. O governo projeta safra recorde em 2026/27, com alta de 1,4%. (G1; O Globo)

Brasil e Estados Unidos mexem nos juros em direções opostas no mesmo dia. Para o leitor, o que importa é o efeito no crédito e no dólar.

T7 — Internacional: Trump chama de "hoax" o risco da IA

No All-In Summit, em Los Angeles, Donald Trump ligou para Jensen Huang, da Nvidia, e a ligação foi posta no viva-voz no palco. Trump disse que o risco da IA é "hoax", que "the robots will not be taking over", que desacelerar ajuda a China, que data centers são "the oil of the next 20, 25 years" e que "whoever wins AI wins". Huang disse que as previsões de fim da humanidade não têm base científica, mas que uma empresa deve desacelerar se achar que seu sistema está saindo de controle. Dias antes, Dario Amodei, Sam Altman e Elon Musk tinham defendido salvaguardas mais fortes. No Brasil, foi sancionada a lei de incentivo a data centers. (Senado; @evolving.ai)

Ainda no noticiário internacional: navios voltam a passar por Suez apesar dos riscos no Mar Vermelho, e a China compra ouro pelo 22º mês seguido. (Poder360)

Se data center é o petróleo, o Brasil acaba de se oferecer para a extração sem ter lugar na mesa em que se escreve a regra. É o mesmo tema de ontem, quando a China propôs uma zona conjunta de IA nos Brics. A entrada é pelo Brasil, não por Trump.


§ 02

Ranking de conversão (PCS)

3 itens
# Tema Espelho Urgência Poder Título est. Liberal PCS Faixa Arquétipo
1 T1 — O Supremo empatou sobre si mesmo 10 10 10 8 10 9,70 ALTO Estrategista + Independente
2 T2 — O código morreu no bate-boca 10 8 10 8 10 9,20 ALTO Curioso + Apoiador
3 T3 — Fundo eleitoral: metade para 7% 8 5 10 6 9 7,45 MODERADO Estrategista
4 T4 — A eleição do medo 6 8 7 8 10 7,40 MODERADO Independente + Curioso
5 T6 — Superquarta 7 8 7 6 8 7,20 MODERADO Estrategista
6 STF como peça de campanha (subtema) 6 8 7 6 9 7,00 MODERADO Estrategista
7 T5 — Terceira medição, voto cristalizado 6 8 5 6 8 6,50 MODERADO Estrategista
8 T7 — Trump, "hoax" e data centers 4 5 9 6 10 6,15 MODERADO Curioso

Notas do ranking

  • T1 e T2 são o mesmo assunto: um traz o fato, o outro a cena. Juntos, fazem o Ponto de Partida.
  • T4 marca 6 de espelho porque a tabela pontua "eleição". Mas o dado divide o medo igualmente entre os dois lados. Com uma embalagem sem nome próprio ("os dois vendem medo"), o espelho real fica perto de 8 e o PCS perto de 8,0. É a embalagem que define o número.
  • É o terceiro dia seguido com a metade de cima do ranking toda em Supremo. Isso é o noticiário, não viés. T4 e T6 servem para equilibrar.

§ 03

CENTRAL MEIO — Sugestão de pauta

3 itens

Tema principal — O empate que diz tudo.

A pauta cabe em três perguntas, nesta ordem:

  1. O que aconteceu. Empate numa preliminar, pedido de vista de Dino e nenhuma decisão sobre investigar.
  2. O que vem. Prazo de até 90 dias, dúvida sobre o desempate de Fachin, o "dia 23" e a análise de Mendonça, que pode ser adiada.
  3. O que morreu no caminho. O código de conduta.

O segundo movimento é a virada: o empate não é falta de resposta, é a resposta. Um tribunal que racha ao meio para decidir se investiga um dos seus mostrou que não consegue fazer isso. Ninguém de fora tem como obrigá-lo, e a regra interna morreu no mesmo dia.

Por que vence hoje: a decisão está pendente, com prazos e dúvidas abertos. O espelho é 0,00, porque o alvo é a instituição inteira. E é o único tema do dia que direita e esquerda comentam com a mesma intensidade.

Cuidados

  • Nada de placar de torcida. "Ala pró-Moraes contra ala anti-Moraes" é a moldura errada; a moldura certa é o tribunal.
  • Dino foi ministro de Lula. Chamá-lo de "líder do grupo pró-Moraes" sem contrapeso sinaliza lado. Ele entra como ala do tribunal, nunca como governo.
  • As mensagens de celular são cena, não tese. Nada de fofoca de corredor.
  • "Empurrou para depois da eleição" é inferência. O fato é o prazo de até 90 dias.
  • As manchetes de Flávio e de Lula só entram juntas.
  • Sétimo dia de 403 no Meio: nada do site da casa entra.

Tema secundário: a Superquarta. A Selic cai e os juros americanos sobem no mesmo dia; o que isso muda no crédito e no dólar.

Reserva: a eleição do medo (CNT/MDA). Rende numa live com vários participantes.


§ 04

PONTO DE PARTIDA

3 itens

Tema: o Supremo não conseguiu decidir se pode investigar um dos seus, e a regra de ética morreu no mesmo dia (T1 e T2 juntos).

PCS: 9,70 / 10 — ALTO
Espelho: 10/10  STF / Judiciário (Bias 0,00)
Urgência: 10/10 Vista aberta (até 90 dias), desempate regimental em dúvida, "dia 23", caso Mendonça pendente
Poder: 10/10    Alvo é a instituição, não um ministro nem um campo
Título: 8/10    Opção A: veredito + curto + provocativo + concreto; nome próprio só na B
Liberal: 10/10  Controles institucionais (eixo 4), igualdade perante a lei

Por que converte. A decisão está pendente e tem desdobramentos marcados. Direita e esquerda comentam o tema com a mesma intensidade. A crítica mira o sistema, não um campo. É a mesma combinação que fez funcionar o "Toffoli tem de sair". Há ainda o momento emocional: Cármen Lúcia dizendo que se sente envergonhada. É esse pico que conquista o Apoiador e o Curioso.

Ângulo. O radar de segunda enquadrou a sessão como "a ausência do terceiro". Ontem, isso se confirmou em sessão aberta.

A abertura é a cena, nas palavras da Folha: Cármen atônita, Mendonça em oração, gargalhadas na sala de lanches e ministros brigando pelo celular antes de entrar no plenário. A cena entra inteira ou não entra; nenhum pedaço dela vai sozinho.

A segunda parte é o argumento. Nenhum tribunal do mundo consegue ser juiz de si mesmo, e isso não é defeito de caráter, é desenho institucional. O Supremo brasileiro não tem ninguém de fora que o controle, e o próprio código interno acabou de morrer.

A persuasão: discutir controle externo não é atacar a Corte. É a única saída que devolve autoridade a ela.

Títulos

  • A) "O Supremo não se julga." Quatro palavras, tom de veredito, sem sinal de lado. Continua válido aconteça o que acontecer até o dia 23. Perde cliques por não ter nome próprio.
  • B) "A vergonha de Cármen." Nome de uma ministra que nenhum lado reivindica por inteiro; é emocional e concreto, e deve ter o melhor CTR na vitrine do YouTube. O risco é personalizar demais ou soar como fofoca se a abertura não sustentar o título.
  • C) "Assumam que estão ferrados." A frase do decano desperta curiosidade máxima. O risco é alto: sem contexto, soa como torcida e amplifica a frase de uma das partes. Só funciona com uma thumbnail que deixe claro quem disse a quem.

Evitar: "Moraes" no título; Fachin como herói e Dino como vilão; "salvar o Supremo" como porta de entrada. O público quer primeiro ver o tribunal sob controle; a defesa da instituição vem depois do break. Também não apostar no resultado do dia 23.

Cadência. Segunda também foi STF, com a véspera do julgamento. Dois PdPs seguidos no mesmo tema, ambos com PCS alto, não disparam o alerta, mas há saturação; o que muda hoje é que o fato é o resultado. Se Pedro quiser variar, a alternativa é "A eleição do medo" (PCS entre 7,4 e 8,0). A semana já tem um ALTO na segunda, então a troca não quebra a regra.


§ 05

Calibragem de discurso

PdP e Central Meio — STF Encontro: "eles se protegem entre si, e ontem fizeram isso ao vivo". A vergonha de Cármen é a vergonha do leitor. Entrar por aí, sem ressalva. Persuasão: o empate não prova que o tribunal é podre. Prova que nenhuma instituição consegue auditar a si mesma. A saída é controle de fora, não um tribunal menor. Sem esse controle, a conta será cobrada na rua, por gente que não tem compromisso nenhum com a Corte.

T4 — O medo Encontro: "não voto em ninguém, voto contra alguém". Só 12,5% não têm medo. Persuasão: o medo move os dois palanques porque dispensa proposta. Quem teme os dois lados (9,4%) não é indeciso: é quem ainda exige que alguém diga o que vai fazer. Hoje, nenhuma campanha fala com esse medo.

T3 — O fundo eleitoral Encontro: "o dinheiro é meu, e quem decide para onde ele vai são os caciques". Persuasão: a renovação que o eleitor pede é barrada antes da urna, na planilha do partido. É uma regra, e regra se muda. Ela tem nome e tem responsável.

T6 — Superquarta Encontro: o crédito está caro há anos, e hoje o juro deve cair pela quinta vez. Persuasão: com a Selic ainda em 13,75%, o corte ainda não chega ao bolso. O freio é fiscal; não é culpa do Banco Central.

T7 — IA e data centers Encontro: data center gasta energia e água, emprega pouca gente, e a conta chega na tarifa de luz. Persuasão: o presidente dos Estados Unidos chama o risco de "hoax", e o próprio vendedor dos chips discorda. Um país que só oferece o terreno aceita a regra feita pelos outros e ainda paga a conta.


§ 06

Alertas de viés

10 itens
  • Fonte comprometida, sétimo dia. Meio em 403 e g1 bloqueado. A sessão do STF só é conhecida por manchete: nada de voto nominal, fala ou placar detalhado sem conferir a íntegra no Poder360.
  • Saturação, não viés. Terceiro dia com a metade de cima do ranking toda em Supremo.
  • As duas cenas entram juntas, ou nenhuma entra. Dino como líder de ala, sem contrapeso, puxa o espelho para a direita. Mendonça "em oração" como caricatura puxa para a esquerda.
  • Duas campanhas, uma pauta. "Flávio liga Lula a Moraes" e "Lula explora investigação contra o senador" só entram juntas.
  • Escolher pesquisa é viés. CNT (Lula +7), Nexus (+1) e Quaest (−2) foram a campo ao mesmo tempo, e a diferença entre elas passa da margem. Não tirar média nem eleger uma. A CNT é presencial e declara que não faz ponderação: registrar isso sem desqualificar a pesquisa.
  • Validade. Nexus e Quaest saíram em 14 de setembro e estão no limite das 48 horas. Hoje são referência, não protagonistas.
  • Opinião não é fato. O Brasil de Fato sobre Mendonça escreve de um lado; "Show dos horrores" é opinião.
  • "Dia 23". Não se sabe o que será julgado. Não afirmar nada.
  • T7. A entrada é pelos data centers brasileiros, não por Trump, que tem espelho de 0,21.
  • Carolina Delboni. O carrossel toca um tema delicado, a crise dos meninos e homens jovens. A fórmula é obrigatória: o problema é real, a esquerda o ignora e a direita o explora.

§ 07

Tensão autor × público

Na CNT/MDA, o eleitor diplomado prefere Flávio no segundo turno: 49 a 38 entre quem tem ensino superior e 50 a 39 entre quem ganha mais de cinco salários mínimos. No superior, 63% desaprovam Lula e 55% avaliam mal o governo.

O risco está aí. Se Pedro tratar o medo da volta dos Bolsonaro como o medo legítimo e o outro como um medo menor, perde exatamente essa fatia do público.

A saída é ficar nos números, que são simétricos: 44,9 contra 44,1. Nenhum dos dois medos vale mais que o outro. O programa descreve os dois medos e não diz qual deles o eleitor deve ter.


§ 08

Pesquisas novas

11 itens

CNT/MDA, 170ª rodada. Campo de 9 a 13 de setembro; 2.002 entrevistas presenciais; margem de 2,2 pontos; sem ponderação.

  • O medo tomou a eleição. Os que dizem não ter medo caíram de 22% (2022) para 12,5%. O medo da volta dos Bolsonaro, e só dela, subiu de 30% para 35,5%. O medo da continuidade de Lula, e só dela, foi de 36% para 34,7%. O medo dos dois subiu de 6% para 9,4%.
    • Esses 9,4% ficam perto do grupo anti-ambos do Nexus (8%) e do núcleo mapeado pelo projeto (5% a 6,5%). É a terceira fonte a encontrar o mesmo grupo, e ele se define pelo que recusa.
  • Os institutos discordam justo sobre o diplomado. Na CNT, o eleitor com superior prefere Flávio (49 a 38), assim como quem ganha mais de cinco salários mínimos (50 a 39). No Nexus, os mesmos recortes favorecem Lula: 39 a 38 no superior e 42 a 39 acima de cinco salários.
    • Cabe reportar a divergência, não resolvê-la. A CNT reforça o alerta que o projeto já registrava: na Onda 1, Flávio liderava o núcleo com 40%.
  • O diplomado critica o governo. No superior, 55% avaliam mal o governo e 63% desaprovam Lula; acima de cinco salários, a desaprovação é de 61%. Isso confirma o que o projeto já registrava: em janeiro, 74,4% do núcleo desaprovavam.
  • O voto se fixou nos polos. 79,8% dizem que o voto é definitivo (no Nexus, 83%). Na espontânea, os indecisos caíram de 39% para 21%.
    • A certeza é alta entre os eleitores de Lula (87%) e de Flávio (86%), e baixa na centro-direita: Cury 63%, Caiado 53%, Renan 44%, Zema 40%. O centro existe, mas não segura o voto.
  • Cury é aceito, mas não é escolhido. O potencial de voto subiu de 21% para 35,2%, e o desconhecimento caiu de 56% para 37%. Entre quem o conhece, o potencial é de 55,5%, o maior de todos. Contra Lula no segundo turno, a vantagem encolheu de 49 a 28 (junho) para 45 a 38.
    • Na estimulada, porém, Cury tem 6%. O medo empurra o eleitor para o voto útil e esvazia o centro que ele até aceitaria. É o "Centro Exausto sem candidato", agora com número.
  • A barreira feminina contra Flávio continua. No segundo turno, os homens dão 45 a 43 para Flávio; as mulheres, 51 a 35 para Lula. Entre elas, 27% estão indecisas na espontânea.
    • Nesse ponto, a CNT concorda com o Nexus, não com a Quaest. Também confirma o que o projeto já dizia: a mulher diplomada de centro é o maior potencial.
  • Jovens são o grupo menos decidido. Entre 16 e 24 anos, 23% escolhem "outros" na estimulada; no segundo turno, Lula lidera por 50 a 38.
  • Religião. Evangélicos preferem Flávio (50 a 38); católicos, Lula (50 a 37).
  • A TV perdeu 12 pontos. Só 51,8% viram o horário eleitoral, contra 64% em 2022. Isso reforça o YouTube como o canal de conversão. Entre quem assistiu, o melhor programa foi o de Lula (38,9%), seguido pelos de Flávio (23,9%) e Cury (9,2%).
  • Em casa, ninguém ouve o outro lado. 63,7% dizem que todos em casa votam no mesmo candidato. Entre eleitores de Lula e de Flávio, a taxa é a mesma: 68%.
  • O governo oscila dentro da margem. Avaliação: 34% positiva, 25% regular e 39% negativa (em agosto, 35% positiva e 36% negativa). Aprovação de Lula: 45,9%, contra 49,7% de desaprovação.
    • Em setembro de 2022, Bolsonaro tinha 31% de avaliação positiva e 43% de negativa, e perdeu por pouco. Não dá para tirar mais conclusão que isso.
    • Primeiro turno estimulado: Lula 40,5%; Flávio 30,4%; Cury 6,0%; Caiado 3,0%; Renan 2,7%; Marçal 1,8%; Zema 1,0%.
    • Espontânea: Lula 36,6% e Flávio 26,7% (Flávio tinha 17% em abril).
    • Rejeição espontânea: Flávio 44,2% e Lula 41,1%.

O que isso diz ao Centro Exausto. Ele não é apático. Tem medo e não tem candidato. O centro que ele aceitaria existe nos números de potencial e some quando a pergunta é o voto.

A conexão com o liberalismo de Pedro. William Galston e Judith Shklar ensinam que o liberalismo leva o medo a sério, mas não deixa que ele vire a política inteira. Para essa tradição, o contrário do medo é a coragem, não outro medo. A eleição descrita pela CNT é o cenário que ela descreve, e a resposta liberal é devolver confiança às instituições. Foi justamente essa confiança que o Supremo queimou ontem. E a casa em que todos votam igual é o oposto do que Mill pedia: ali, ninguém escuta a opinião contrária.


§ 09

Top of mind

3 itens
  • Carolina Delboni (Estadão; carrossel no Instagram, 15/09). A pergunta é o que o conservadorismo oferece aos meninos que os outros não oferecem. A resposta dela é que, num mundo instável, ganha quem oferece estabilidade, e que desmontar um modelo não significa ter outro para pôr no lugar.
    • É o dado do medo visto por outra porta, e casa com os números de gênero da CNT: homens 45 a 43 para Flávio, mulheres 51 a 35 para Lula, e 23% dos jovens em "outros".
    • Calibragem: o problema é real; a esquerda desmontou o modelo sem pôr outro no lugar; a direita vende o substituto pronto. [[2026-09-15_DdTgAHnmo2V]]
  • Trump no All-In (reel de @evolving.ai, 15/09). "Whoever wins AI wins" e "data centers are the oil" foram ditos no mesmo dia em que o Brasil sancionou seus incentivos a data centers. Huang discordou do próprio cliente: se sair de controle, é preciso frear. É a continuação do tema de ontem. [[2026-09-15_DdTCN9vAYXo]]
  • Readwise. Nenhum destaque novo.

§ 10

Oportunidade da semana

2 itens

"O que é um pedido de vista, e por que ele pode durar 90 dias." Explicativo em vídeo, com um Short, que também pode tratar do voto de desempate do presidente previsto no regimento.

  • Busca: "Dino vista" e "pedido de vista STF" estão no pico hoje, e o interesse deve durar até o dia 23.
  • Espelho: perfeito, porque o assunto é regra de funcionamento do tribunal, não lado.

Em andamento: "Por que o Supremo tem tanto poder" e o explicativo sobre IA na propaganda eleitoral, sugerido ontem.


§ 11

Insights

3 itens

Quote do dia

"The claim is not just that members of the establishment are arrogant in their judgments, mistaken in their decisions, and blundering in their actions, but rather that they are morally wrong in their core values. This claim resonates among critical citizens – those committed to democracy in principle but disillusioned with the performance of elected officeholders and representative institutions, including parties, elections, and parliaments." — Cultural Backlash, Pippa Norris e Ronald Inglehart

A sessão de ontem mudou a crítica ao Supremo: antes era "errou"; agora é "está moralmente podre". Quem escuta essa acusação é o cidadão crítico que Norris e Inglehart descrevem, democrata por princípio e desiludido com o que as instituições entregam. É o Centro Exausto.

Mais aspas

"Os dois lados estavam errados, e seus irmãos perderam a juventude naquela divisão da qual permaneceram prisioneiros." — Tempos Extremos, Míriam Leitão

"Possibly the Liberal Party cannot serve the State in any better way than by supplying Conservative Governments with Cabinets, and Labour Governments with ideas." — Liberalism, John Maynard Keynes

Conexão do vault

  • Arquivo 1: [[galston_anger_fear_domination_resumo]] — no capítulo 4, Galston diz que os Estados Unidos vivem "dueling fears", medos que se enfrentam. Um lado teme perder o seu modo de vida; o outro teme que essa reação destrua a democracia. Quando a mudança acelera e ninguém parece estar no comando, "the cockpit appears empty". Para ele, o contrário do medo não é a esperança, é a coragem, e a confiança nasce de instituições em que se acredita.
  • Arquivo 2: [[On with Kara Swisher — Louis Theroux Goes Inside the Manosphere]] — Theroux descreve a manosfera como uma "boyosphere" de garotos de 15 e 16 anos, metade golpe, metade movimento. Ela vende "crappy products" a meninos que perderam a promessa econômica do pós-guerra: "they're filling in a gap".
  • A conexão: a cabine vazia de Galston virou mercado. A manosfera vende estabilidade em prestações aos meninos, e as campanhas vendem aos adultos o medo do outro lado. É o mesmo produto em duas embalagens, e por isso só 12,5% dizem não ter medo. A resposta liberal é devolver a confiança, não oferecer outro medo, e a confiança depende de instituições que aceitam ser controladas. Ontem, o Supremo empatou justamente na pergunta sobre aceitar isso.