Radar · Edição do Dia

22.09.26

Terça-feira Edição nº 176

A eleição dos rejeitados

Faltam 12 dias para o primeiro turno (04/10).


§ 01

Temas quentes do dia

13 itens

1. Empate entre dois nomes que a maioria rejeita

Saíram duas pesquisas novas, e as duas dão empate. Na Quaest (estimulada), Lula tem 37% e Flávio Bolsonaro 33%, no limite da margem. Na BTG/Nexus, 40% a 37%. No segundo turno, as duas dão empate técnico: Flávio 42 × 41 na Quaest, Lula 46 × 45 na Nexus. (Quaest/Globo, BTG/Nexus, G1, Jota)

  • A rejeição passa de 50% para os dois. Segundo a Quaest, 55% não votam em Lula "de jeito nenhum" e 56% não votam em Flávio. O segundo turno provável é entre dois nomes que a maioria não quer. Com isso, o país inteiro fica parecido com o Centro Exausto.
  • A semana do Master não mudou o voto. Na Nexus, os dois perderam um ponto. Dizem que não mudam de voto 94% dos eleitores de Lula e 93% dos de Flávio. "Pouca coisa tem mudado", disse Marcelo Tokarski, da Nexus. A Quaest registra que mais gente vê impacto do Master sobre Flávio, mas essa percepção não chegou ao voto.
  • Por que vence hoje: a eleição é o eixo do ano, e estes são os dados de campo das últimas 48 horas. O escândalo é barulhento, mas o voto já estava decidido antes dele.

2. Kassio, o Master e o julgamento marcado para depois da eleição

O contrato de Daniel Vorcaro previa até R$ 427 milhões para o escritório da mulher de um desembargador que, segundo a apuração, é da "turma" de Nunes Marques. (G1, Folha) Kassio Nunes Marques "avalia rever decisão e participar de julgamentos sobre Master após eleições". (Folha)

  • O que a piauí já tinha mostrado. A reportagem "Dominado aqui", de Breno Pires, saiu em 18/09. Nas mensagens do celular de Vorcaro, o advogado do banco marca o cartão de contato de Kevin, filho do ministro, com a frase "Único 'meu' que faltou". O Coaf registrou 14 transferências do Master para a Consult, que somam R$ 6,6 milhões. Kassio se declarou impedido no caso Alcídia e depois deu o voto de desempate. Quatro minutos após a vitória, o advogado volta a marcar o cartão de Kevin e escreve: "Dominado aqui."
  • A decisão pendente. Kassio é relator do mandado de segurança da CPI do Master, que tem 53 assinaturas, desde 26/03. Em quase seis meses, não despachou nada. O mesmo juiz se declarou impedido, voltou a julgar e agora quer julgar o caso só depois do voto.
  • Contexto: Moraes se declarou impedido na ação sobre as visitas da mulher e de Vorcaro ao Senado. Fachin faz nova rodada de conversas depois de uma sessão tensa. A AGU pede ao STF que Marco Buzzi, do STJ, perca o cargo depois das acusações de assédio. O Valor chamou o momento de "O Supremo em cinzas".

3. A emenda de Flávio e o miliciano condenado

O G1 publicou prints de conversas com uma assessora do senador. Eles mostram uma emenda destinada a um miliciano condenado no caso Marielle. (G1)

  • Ângulo: o caminho é o dinheiro público. Segundo levantamento do Terra, só 21 parlamentares consultam os eleitores antes de indicar emendas. Todos os outros decidem sozinhos para onde vai o dinheiro da União.
  • Contexto: a chapa de Lula foi ao TSE contra Flávio por impulsionamento irregular. Kassio, no TSE, deu 10 dias para a Meta e o WhatsApp explicarem os anúncios. O TSE manteve suspensa a campanha de Deltan Dallagnol ao Senado.

4. ONU: Lula abre a Assembleia, Trump discursa e depois encontra Delcy (internacional)

Por tradição, Lula fala primeiro. Segundo o G1, ele quer fazer contraponto a Trump falando de "guerras, soberania e democracia". Trump discursa para um mundo abalado pela guerra que lançou contra o Irã, ansioso com a IA e com a ONU sem o financiamento americano. Depois ele conversa informalmente com Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela. É o primeiro encontro de um presidente americano com um líder venezuelano desde 2015 e o primeiro desde a captura de Maduro, em janeiro. Trump também encontra o novo premiê britânico, Andy Burnham, e a premiê japonesa, Sanae Takaichi. (AP/WHDH, MercoPress, Axios, G1)

  • A ponte com o Brasil: a Abin classifica como "crítico" o risco de interferência americana na eleição. Segundo o Poder360, foi o tarifaço que levou o governo ao discurso da soberania. (Poder360)

5. O governo achou R$ 19,6 bilhões, e a aprovação caiu mesmo assim

O governo encontrou espaço fiscal de R$ 19,6 bilhões no orçamento, e parte do dinheiro vai para o reajuste do Bolsa Família. (G1) Na Nexus, a avaliação ótima ou boa caiu de 37% para 35%, e a ruim ou péssima subiu de 44% para 46%, depois do anúncio. Entre quem não recebe o benefício, a vantagem passou para Flávio: 40 × 36 (antes, 39 × 39).

  • Ângulo: a transferência segura a base (entre os beneficiários, Lula tem 64 × 17), mas não conquista o meio. Esse é o contrapeso do dia, numa semana pesada contra Flávio.
  • Contexto: o Fed sobe os juros nos EUA e o Copom corta no Brasil. (XP)

6. A terceira via se desmancha

Na Nexus, os candidatos da terceira via somam 16%. Entre os 15% que ainda podem mudar de voto, a segunda opção mais citada é Flávio (19), à frente de Cury (15) e Lula (15). Dizem que podem mudar cerca de metade dos eleitores de Cury (52%), de Caiado (45%) e de Zema (48%).

  • Cury: segundo a Folha, uma empresa da filha dele faturou R$ 19,9 milhões com prefeituras. Um conselheiro da campanha desapareceu a bordo de um helicóptero com o cantor Rick. (Poder360, G1)
  • Ângulo: o Centro Exausto continua sem candidato, e o voto útil vai escolher por ele. Segundo o G1, "Flávio mira Sudeste e aposta no voto útil".

§ 02

Ranking de conversão

Pesos: Espelho 30%, Urgência 25%, Poder 20%, Título 15%, Liberal 10%.

# Tema PCS Faixa Espelho Urgência Poder Título Liberal Arquétipo
1 Kassio e o Master: julgar depois da eleição 9,2 ALTO 10 8 10 8 10 Apoiador + Estrategista
2 Emenda de Flávio a miliciano (entrada pela emenda) 7,6 MODERADO 8 8 5 8 10 Independente
3 Eleição dos rejeitados: o escândalo não move o voto 7,6 MODERADO 6 10 7 8 7 Estrategista + Curioso
4 Terceira via se desmancha / voto útil 6,8 MODERADO 6 8 7 6 7 Estrategista
5 R$ 19,6 bi e Bolsa Família às vésperas 6,8 MODERADO 4 8 10 6 7 Independente (centro-direita)
6 Lula e Trump na ONU, Delcy 6,2 MODERADO 4 8 7 6 7 Curioso
7 Tarcísio: batalhão com fuzis a 13 dias 4,7 BAIXO 2 5 7 6 5

O STF tem o maior PCS, mas abriu o Radar quatro dias seguidos. Por isso entra como secundário do Central Meio e fica como tema natural do PdP de quarta. A eleição abre o Central por duas razões: é a regra do ano eleitoral e é o dado mais fresco do dia.


§ 03

CENTRAL MEIO — Sugestão de pauta

4 itens

Tema principal — A eleição dos rejeitados.

  • Por que vence hoje: os dados do dia colocam o país inteiro na posição do Centro Exausto, porque a maioria rejeita os dois nomes do segundo turno. É também a resposta à pergunta do ano, "quem vai me representar?". A resposta é ninguém, e o voto útil vai decidir por você.
  • Ângulo, em quatro passos:
    1. Abertura: 55% e 56% de rejeição, e mesmo assim empate.
    2. O dado contraintuitivo: uma semana inteira de Master e STF, e 93% a 94% dos eleitores não mudam de voto. O voto virou identidade, não avaliação.
    3. O movimento que existe é silencioso. Na espontânea da Quaest, Flávio passou de 51 para 58 na "direita não bolsonarista". Na Nexus, ele tem 46 × 33 entre quem ganha mais de 5 salários mínimos e 41 × 33 entre quem tem curso superior. Quem decide é o eleitor diplomado que vota a contragosto.
    4. Fecho: um roteiro para o cidadão, com o que cobrar de quem ele vai eleger sem gostar.
  • Cuidados:
    • O Central Meio já é percebido com viés de +0,19. Não tratar o voto em Flávio como desvio moral, porque isso expulsa a centro-direita democrática.
    • Não chamar o reajuste do Bolsa Família de "compra de voto" sem dado que sustente.
    • Não apresentar Quaest e Nexus como contraditórias. Uma é presencial e a outra por telefone, e as duas dão empate técnico.
    • Os recortes regionais da espontânea (no Sul, de 23 para 37) têm margem de erro grande. São um sinal, ainda não um fato.
    • O helicóptero de Cury fica fora da pauta.
  • Secundário: Kassio quer julgar o Master depois da eleição. A entrada é a indignação com um juiz que escolhe quando está impedido. O fato concreto é o mandado de segurança da CPI, parado há seis meses. Serve de gancho para o explicativo da semana.

§ 04

Calibragem de discurso

10 itens

Eleição dos rejeitados

  • Encontro: "Você não gosta de nenhum dos dois, e não está sozinho. A maioria do país também não gosta."
  • Persuasão: não gostar não basta, porque o voto útil decide por quem não decide. O melhor é votar já sabendo o que vai cobrar depois.

Kassio e o Master

  • Encontro: "O Supremo virou um lugar onde o próprio ministro decide quando está impedido."
  • Persuasão: o país precisa de um tribunal forte, e é por isso que o Senado tem de agir. A CPI não está parada por acidente. Está parada porque um relator escolheu não despachar.

Emenda de Flávio

  • Encontro: "A emenda parlamentar virou mesada. Só 21 parlamentares perguntam ao eleitor onde pôr o dinheiro."
  • Persuasão: o custo não é a milícia do passado, é o orçamento de hoje. E isso vale para os dois lados do Congresso.

R$ 19,6 bilhões

  • Encontro: "Dinheiro que aparece a 12 dias da eleição tem cheiro."
  • Persuasão: o reajuste não melhorou a aprovação. A classe média quer gestão, não bônus. É um erro de estratégia do governo, não uma questão moral.

ONU

  • Encontro: um presidente americano que captura um chefe de Estado e depois conversa com a sucessora deixa qualquer um desconfiado. A preocupação com a soberania é legítima.
  • Persuasão: é preciso separar soberania de palanque. O risco que a Abin aponta é real, e "soberania" também é marketing da campanha do governo.

§ 05

Alertas de viés

5 itens
  • Cadência. O STF abriu o Radar quatro dias seguidos, e a semana acumula Master, Flávio e milícia. É preciso equilibrar com uma cobrança ao governo, e os R$ 19,6 bilhões servem para isso.
  • Marielle sinaliza campo. Entrar sempre pela emenda e pelo dinheiro público.
  • ONU, Trump e Venezuela. Não adotar sem distância o vocabulário de "soberania" do governo.
  • Tarcísio. Ele lança um batalhão de motos com fuzis a 13 dias do voto, e o tema esbarra na posição do autor sobre punitivismo e violência policial. Se entrar, que seja só pelo uso eleitoral do calendário, nunca pelo mérito da política.
  • Sem termômetro do Meio. O site segue bloqueando a coleta (HTTP 403) pelo 13º dia.

§ 06

Tensão autor×público

Agravante da tensão Bolsonaro/Flávio. O público que o Meio mais alcança (eleitor diplomado, de renda alta, do Sul e do Sudeste) está votando em Flávio. Se Pedro tratar Flávio só em tom de alarme, com milícia e Master, esse leitor vai ouvir que o Meio faz campanha contra o voto dele.

Esse eleitor sabe quem é Flávio e vota nele mesmo assim. A pergunta que o respeita não é "como você pode?", e sim "o que você vai cobrar dele?". E a mesma cobrança, com a mesma dureza, vale para Lula.


§ 07

Pesquisas novas

9 itens

Ficha técnica: a Quaest foi feita de 17 a 20/09, presencialmente, com 2.004 entrevistas. A BTG/Nexus foi feita de 18 a 20/09, por telefone, com 2.006 entrevistas. Margem de erro de 2 pontos nas duas.

O que confirma o diagnóstico

  • O núcleo do público tolera Flávio. O diagnóstico já registrava que Flávio lidera com 40% no núcleo do público e que ali a rejeição aos Bolsonaros é metade da nacional. Agora o padrão aparece em escala nacional. Flávio vence entre quem tem curso superior (41 × 33), entre quem ganha mais de 5 salários mínimos (46 × 33), no Sul (43 × 27) e na "direita não bolsonarista" (de 51 para 58 na espontânea).
  • Quem rejeita os dois vota branco ou nulo, e esse grupo não cresce. São 7% na Quaest e passaram de 6% para 7% no segundo turno da Nexus. O núcleo do público não sumiu. Ficou calado.
  • Os independentes não têm candidato. Na espontânea da Quaest, Lula tem 13, Flávio 11 e os indecisos 60.
  • A exaustão aparece nos números. Segundo a Nexus, o interesse na eleição caiu de 81% para 77%, e os que têm "pouco ou nenhum" interesse subiram de 16% para 21%. O Brasil de Fato descreve a mesma coisa como "campanha morna".

O que desafia o diagnóstico

  • Rejeitar os dois não gera voto de centro. Os dois têm mais de 55% de rejeição, e mesmo assim a terceira via soma só 16% e é o voto mais volátil. O Centro Exausto não produz candidato. Acaba se dissolvendo no voto útil.
  • A economia concreta não salvou o governo. O reajuste foi anunciado, e a aprovação caiu mesmo assim: 44% aprovam e 50% desaprovam na Quaest, 46% e 50% na Nexus. Entre quem não recebe o benefício, a vantagem passou para Flávio (40 × 36).

Outros recortes

  • Homens: Flávio 46 × 30. Mulheres: Lula 49 × 29. A mulher diplomada de centro continua sendo um público em aberto.
  • Jovens de 16 a 24 anos: Flávio 41, Lula 31, Cury 10, Renan 9.
  • Expectativa de vitória: 54% acham que Lula vence, e 36% apostam em Flávio.

Conexão com o liberalismo de Pedro: um voto que nenhum escândalo move é um voto que não presta contas a ninguém. A democracia liberal depende de o eleitor punir o governante. Quando o voto vira identidade, essa punição deixa de existir.

Cautela de método: na estimulada, Flávio tem 33% na Quaest (presencial) e 37% na Nexus (telefone). O jeito de entrevistar pesa no resultado.


§ 08

Top of mind

3 itens
  • "Dominado aqui" (piauí, 18/09, recorte de Pedro). É a base do tema 2. As manchetes de hoje (os R$ 427 milhões e o plano de Kassio de julgar depois da eleição) desdobram as mensagens publicadas pela piauí. O mandado de segurança da CPI está parado desde 26/03.
  • Raphael Nishimura, estatístico de pesquisas, em tuítes. Segundo ele, quem mais recebe anúncio político também é quem mais responde a pesquisas, o que chamou de "um círculo vicioso". A observação ajuda a ler as pesquisas e dá contexto ao prazo de 10 dias que Kassio deu à Meta.
  • Folha, "Trabalhadores CLT e concursados viram criadores de conteúdo adulto". Vai para a Conexão do vault.

§ 09

Oportunidade da semana

3 itens

Nova — explicativo "Por que as pesquisas dão números diferentes?"

  • Um Short usando Quaest e Nexus para explicar três diferenças: entrevista presencial ou por telefone, a margem de erro, e pergunta espontânea ou estimulada.
  • É conteúdo de cauda longa, e o interesse vai crescer nos 12 dias até o primeiro turno.

Mantida — "Como se tira um ministro do Supremo?"

  • A AGU pediu que Buzzi perca o cargo no STJ. Para ministro do STJ, esse caminho existe. Para ministro do STF, o único caminho é o impeachment pelo Senado.

§ 10

Insights

3 itens

Quote do dia

"Isso é uma forma de repatrimonialização: os Estados modernos são construídos para superar as tendências humanas naturais de favorecer amigos, aliados e parentes por meio de regras impessoais e sistemas de mérito. Mas essas tendências nunca desaparecem; elas simplesmente procuram novos canais." — Political Order and Political Decay, Francis Fukuyama

"Único 'meu' que faltou." O filho do ministro é o canal novo de uma tendência antiga. A consultoria do contador amigo é o jeito de passar por cima da regra impessoal.

Mais aspas

"A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor" — 10 livros para entender o Brasil, Antonio Candido

"even though scandals may have ignited popular outrage, in the end the magnitude of popular protests was the critical factor determining the sustainability of the administration in power." — Presidential Impeachment and the New Political Instability in Latin America, Aníbal Pérez-Liñán

Conexão do vault

  • Arquivo 1: [[“Dominado aqui”]] — o filho do ministro tem menos de três anos de carreira e recebe R$ 282 mil de uma consultoria que recebia do Master quase R$ 500 mil por mês. O que ele vende é o sobrenome.
  • Arquivo 2: [[Trabalhadores CLT e concursados viram criadores de conteúdo adulto para complementar renda]] — um servidor federal de 21 anos grava vídeo adulto depois do expediente e tira de R$ 1 mil a R$ 3 mil por mês. Vive com medo do estigma e faz questão de dizer que não tem "conflitos de interesse".
  • A conexão: no mesmo Brasil de setembro, as duas histórias são de "renda complementar". O moralismo brasileiro cai sobre quem vende o corpo. Sobre quem vende o acesso ao pai, a resposta foi "Kkkkkkkkk". Editorialmente, o contraste pode virar peça sobre o que o país escolhe punir, que é a pergunta de fundo do caso Master.