Radar · Edição do Dia

05.10.26

Segunda-feira Edição nº 188

A onda que a pesquisa não viu

§ 01

Fim de semana — o que você pode ter perdido

5 itens

1. As pesquisas da véspera erraram, e erraram para o mesmo lado. No sábado, o Datafolha dava Lula 45 e Flávio 42 nos válidos. O PoderData dava 45 a 43, e a AtlasIntel, 46,7 a 43,8. A urna deu Flávio com 47,03% e Lula com 45,16%. Foi o mesmo erro de 2022, como a BBC lembrou no domingo e este radar registrou.

2. O voto útil de direita esvaziou a centro-direita. Caiado tinha 4% dos válidos no Datafolha e saiu da urna com 2,2% (G1). O Poder360 atribui a vantagem de Flávio ao voto útil que tirou eleitores dos candidatos pequenos. Aconteceu o cenário (b) do Central Meio de domingo, com margem curta e Flávio à frente.

3. O Congresso que ninguém olhava virou a notícia. No sábado, o radar dizia que o Senado eleito decidiria o futuro do STF. O PL terá a maior bancada do Senado, com 28 cadeiras segundo a Folha (19 eleitas agora).

4. Gilmar, Moro e o direito de resposta. No sábado, Gilmar Mendes derrubou sozinho o direito de resposta de Moro. No domingo, Moro (PL) se elegeu governador do Paraná (G1). A decisão monocrática não mudou um voto, e o candidato a usou como combustível de campanha.

5. A abstenção entra na campanha do 2º turno. Lavareda projetava 21,7% de abstenção e dizia que ela prejudicaria Lula. Agora Lula diz que vai "focar em abstenções" (Jota). Nunes Marques, do TSE, disse que a abstenção e o El Niño o preocupam para o 2º turno. O G1 registrou eleitorado recorde e quase 1 milhão de votos no exterior.

§ 02

Temas quentes do dia

7 itens

1. Flávio à frente: de onde veio a virada. Flávio teve 56,1 milhões de votos (47,03%) e Lula, 53,9 milhões (45,16%). O 2º turno é em 25/10 (Meio, G1). Em São Paulo, Rio e Minas, Lula teve 1,7 milhão de votos a menos que em 2022, e Flávio teve 1,3 milhão a mais que o pai. Só em São Paulo, Lula perdeu quase 1 milhão. Flávio compensou o Nordeste com margem no Sul e no Sudeste (G1), e ganhou o estado de São Paulo, mas perdeu a capital (Folha). O Meio fala em voto útil e em "antipetismo de chegada". A virada aconteceu no Sudeste e no Sul de renda mais alta, o território do Centro Exausto escolarizado, e não no "Brasil profundo". A pergunta que interessa é que eleitor foi esse. "Onda de extrema direita" não responde a ela.

2. O Senado que vai julgar o Supremo. O PL terá a maior bancada do Senado, com 28 cadeiras segundo a Folha (19 eleitas agora, segundo CNN e Terra). O Centrão elegeu 17 senadores (G1). Renan Calheiros, Ciro Nogueira e Randolfe Rodrigues perderam (Folha). Para condenar um ministro do STF, a Constituição exige dois terços do Senado, 54 de 81 votos (art. 52, parágrafo único). O PL sozinho não chega lá, e a BBC escreveu que o bolsonarismo "vai ter que negociar". Quem tem a chave do impeachment é o Centrão. A piauí chamou o resultado de "a derrota particular do Supremo". A Folha lembra que o Senado terá poder sobre as indicações do próximo governo, seja qual for. O Meio escreveu que um PL forte no Senado aumenta o risco de impeachment de ministros.

3. As pesquisas erraram de novo, na mesma direção. Todos os institutos da véspera puseram Lula à frente. A Quaest, com campo em 2 e 3/10, foi a que chegou mais perto, com 46 a 45 nos válidos, e mostrou Flávio subindo de 34% para 38% na estimulada em duas semanas. Uma hipótese é a migração tardia, o eleitor que decidiu na última semana. Se for isso, o erro está no método, que chega antes do eleitor. A outra explicação, de um eleitor que esconde o voto, não tem apuração que a sustente.

4. Começa o 2º turno, e a centro-direita derrotada escolhe lado. União Brasil e PP sinalizaram apoio a Flávio (Folha). Caiado, Renan Santos, Cury e Zema indicaram para onde vão (Jota). Flávio declarou o "fim da era do PT". Lula fala em virada e revê a estratégia (Jota, Folha). Em 85% das cidades paulistas onde Lula venceu, o mesmo eleitor votou em Tarcísio (G1). O voto cruzado existe, portanto, e ainda está em disputa. Quem perdeu a eleição presidencial guarda a chave da coalizão: PSD, MDB e União. "A hora e a vez dos independentes", título de um artigo de opinião da Folha, descreve o mês de outubro. O Centro Exausto, que não tinha candidato, virou o eleitor mais disputado do país.

5. Uma Câmara que se renovou pouco, e governadores de farda. Só 35,7% dos deputados eleitos estão no primeiro mandato, o menor percentual em quatro eleições (G1). É a renovação travada pelas emendas, como previa o radar de sábado. O Diario de Pernambuco escreveu que o Congresso eleito pode aprovar anistia a Bolsonaro. O DF reelegeu 11 deputados ligados à compra do Banco Master (Poder360). Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato são os deputados federais mais votados da história (Jota). Na contagem parcial do G1, o PL tem 79 deputados e o PT, 47. Nos estados, Moro leva o Paraná. Com Zucco e Tarcísio, é a primeira vez na democracia que dois governadores vêm do Exército (Folha). O Republicanos vai governar ao menos 33% da população (Jota), e dez estados terão 2º turno.

6. A máquina pública no dia da urna. No dia da eleição, o Banco do Brasil mandou mensagens a clientes sobre antecipação do 13º (Poder360, G1). Hoje termina o prazo para sacar dinheiro das bets (G1). A régua que cobra o Senado eleito também vale para o governo que usa banco público no domingo de votação.

7. Internacional: a torcida estrangeira já não se esconde. Netanyahu desejou a Flávio uma "grande" vitória no 2º turno (Folha). No sábado, o radar registrava o alerta da Abin sobre interferência externa e o risco de Trump não reconhecer uma vitória de Lula. Agora o apoio estrangeiro é declarado. Nos EUA, Trump nomeou Jay Clayton "czar da IA" da Casa Branca. O Nobel de Medicina premiou a descoberta de canais iônicos ativados por luz (Meio).

§ 03

Ranking de conversão

Tema Efeito espelho Urgência Conversão estimada Arquétipo
O Senado que vai julgar o STF Alto (8) Alta (8) ALTA — 8,6 Estrategista / Independente
O 2º turno e a centro-direita sem candidato Médio (6) Máxima (10) MODERADA — 7,9 Independente / Estrategista
Câmara pouco renovada, Master e anistia Alto (8) Média (5) MODERADA — 7,6 Estrategista
Pesquisa contra urna, de novo Médio (6) Alta (8) MODERADA — 7,4 Curioso / Estrategista
A "onda conservadora" conserva o quê? Médio (6) Alta (8) MODERADA — 6,7 Curioso
Lula perde o Sudeste e revê a estratégia Baixo (2) Máxima (10) MODERADA — 6,4 (risco de percepção) Apoiador
Netanyahu/Trump e a eleição Baixo (2) Média (5) BAIXA — 4,4 Curioso

O Senado vence o placar presidencial porque continua valendo depois de 25/10.

§ 04

CENTRAL MEIO — Sugestão de pauta

4 itens

Tema principal — A onda que a pesquisa não viu.

Tema. De onde vieram os votos de Flávio (Sul, Sudeste, o estado de São Paulo sem a capital, o voto útil que esvaziou os pequenos) e por que os institutos não os captaram.

Ângulo. Abrir pelo mapa, não pelo placar. A virada aconteceu no Sudeste escolarizado. Para fechar, a pergunta do 2º turno: os dois candidatos agora precisam de quem votou em Caiado, Zema ou Renan, ou anulou. O gancho é o texto de Pedro de 02/10, "Calcule a estratégia do seu voto". O eleitor fez a conta.

Por que este e não outro. O Senado fica para o PdP de hoje. O Central Meio é visto como mais à esquerda, e abrir pelo eleitor de Flávio, tratado como sujeito e não como ameaça, equilibra a casa. É o único dia em que a pergunta "quem é esse eleitor?" chega antes da gritaria.

Secundário. O Senado e o STF, como chamada para o PdP. Ou a Câmara que se renovou pouco, com as emendas e o caso Master.

Cuidados.

  • Não chamar a onda de "extrema direita".
  • Dizer uma vez, como dado, que as pesquisas erraram. Não tratar o erro como fraude nem como desculpa.
  • As bancadas da Câmara são da contagem parcial. No Senado, são 28 cadeiras segundo a Folha, 19 eleitas agora.
  • Equilibrar o tempo de tela. A cobertura do dia gira em torno de "Lula perde".
§ 05

PONTO DE PARTIDA

7 itens

Tema. O Senado eleito e o Supremo. O bolsonarismo ganhou a Casa que julga ministros, mas não ganhou os 54 votos.

Por que converte. A urgência é real, é o tema com o efeito espelho mais forte do mapa e a maior conversão estimada do dia (8,6), e provoca duas instituições ao mesmo tempo: o Supremo que se acha intocável e o Senado que quer vingança. O Independente percebe equilíbrio. O Estrategista recebe a conta dos 54 votos, que ninguém fez. Ganha da centro-direita sem candidato (7,9) porque o 2º turno vai dominar a semana inteira, enquanto a aritmética do Senado é hoje que está crua.

Ângulo. Abrir com o número: "O PL vai ter 28 senadores. Para tirar um ministro do Supremo, são precisos 54."

  • Parte 1. Quem saiu: Renan, Ciro Nogueira, Randolfe. Os 17 senadores do Centrão. A decisão monocrática de Gilmar no sábado como exemplo do que o eleitor puniu.
  • Encontro. O Supremo ficou intocável, e o eleitor mandou recado.
  • Parte 2. Freio ou vingança. De um lado, mandato para ministros, fim das decisões monocráticas e nova regra de indicação. Do outro, impeachment caso a caso e anistia. Quem decide qual dos dois prevalece é o Centrão, não o PL.
  • Fechamento. O Supremo precisa ser salvo de si mesmo, mas não pelo Senado de quem ele julgou.

Títulos.

  • "Quem julga Moraes agora". É o de maior CTR. O nome polariza.
  • "O Senado contra o Supremo". Veredito institucional, mais seguro.
  • "O Supremo perdeu a eleição". Provocativo, ecoa a piauí.

Evitar. O tom de alarme ("É assim que se enterram as democracias", título da Folha). Tratar quem votou em senador do PL como golpista. Defender o STF sem antes admitir o corporativismo dele.

Alternativa. "A direita que votou útil", sobre a centro-direita sem candidato no 2º turno (7,9).

§ 06

Calibragem de discurso

8 itens

Central Meio — a onda

  • Encontro: "Ninguém me perguntou, e eu decidi na última semana."
  • Persuasão: o voto útil é racional, mas tem custo. No 1º turno, ele eliminou a única oferta de direita sem Bolsonaro.

PdP — Senado e Supremo

  • Encontro: "O Supremo virou intocável, e o eleitor mandou recado."
  • Persuasão: o freio ao STF tem de vir por regra (mandato, decisões colegiadas), não pela cabeça de um ministro. Os 54 votos põem a decisão nas mãos do Centrão, e é ele que deve ser cobrado.

2º turno e centro-direita

  • Encontro: "Você queria uma direita sem Bolsonaro e acabou tendo de escolher entre Flávio e Lula."
  • Persuasão: União, PP, PSD e MDB não são torcida, são preço. A pergunta é o que cada apoio vai cobrar.

A máquina no dia da urna

  • Encontro: "Banco público mandando mensagem sobre o 13º no domingo de eleição não é coincidência."
  • Persuasão: a régua que cobra o Senado cobra também o governo. É isso que torna a crítica crível.
§ 07

Alertas de viés

4 itens
  • A cobertura do dia gira em torno de Lula ("Lula perde votos", "Lula revê estratégia"). Equilibrar com Flávio e com as instituições.
  • "Onda de extrema direita" é rótulo de um dos campos. "Onda de direita" (Meio) e "voto útil" (Poder360) descrevem o fenômeno sem tomar partido.
  • Netanyahu e Flávio: Israel é zona de perigo. Só nota.
  • O erro das pesquisas pode virar "o eleitor de Flávio esconde o voto", o que estigmatiza esse eleitor. Tratar como limite do método.
§ 08

Tensão autor×público

A tensão Bolsonaro piorou. Em janeiro, o núcleo da meta já dava 40% a Flávio (Meio/Ideia, Onda 1). Ontem, esse eleitor ajudou a pôr Flávio na frente e o PL no comando do Senado. O alarme institucional de Pedro sobre impeachment e anistia é legítimo, mas tem de mirar o mecanismo (os 54 votos, o Centrão, a regra), nunca quem votou. Se o PdP soar como "o eleitor errou", perde justamente quem decidiu a eleição.

§ 09

Pesquisas novas

7 itens

Quaest/Globo, 7ª rodada (campo em 2 e 3/10, 3.702 entrevistas domiciliares, margem de 2 pontos). A urna já a superou, e ela entra como referência e régua.

  • O que captou. A migração tardia. Flávio passou de 34% (21/09) para 36% e depois 38% na estimulada. No 2º turno simulado, Flávio 44 e Lula 42, a primeira vez que Flávio aparecia à frente. Nos válidos, 46 a 45, a menor distância entre os institutos da véspera.
  • De onde veio o salto. Na espontânea, do Sul (42 a 24) e do Centro-Oeste/Norte (42 a 29). O Sudeste estava empatado em 31 a 31, e a urna desempatou para Flávio.
  • Gênero e idade. Entre as mulheres, Lula 37 e Flávio 29. Entre os homens, Flávio 36 e Lula 33. Acima de 60 anos, Lula 39 e Flávio 28. Entre 35 e 59 anos, empate.
  • O que confirma. A região e a renda do Centro Exausto escolarizado decidiram a eleição. A rejeição aos dois pesou mais para um lado na hora do voto.
  • O que desafia. A ideia de um centro que se manifesta pelo branco e pelo nulo. O voto útil sugere que parte do núcleo votou contra Lula em vez de anular. Conferir o branco e o nulo finais do TSE antes de afirmar isso.
  • Oportunidade. Lula tem 8 pontos de vantagem entre as mulheres, o que faz delas o eleitorado em disputa no 2º turno. O gancho é a Edição de Sábado do Meio de 03/10, "O que elas querem".
  • Conexão liberal. O eleitor que decide na última semana, de cálculo e não de identidade, é o cidadão de Mill. Ele delibera, e isso dá trabalho a quem tenta prever o voto.
§ 10

Top of mind

3 itens
  • Reel de Tony Vanderhoef, conservador americano. Ele diz que o conservadorismo deveria conservar a fusão de Locke e Burke (instituições, governo limitado, indivíduo) e que neocons e populistas se parecem no essencial: gasto, tarifa, guerra e dívida. Conversa com a "onda conservadora" de Fabio Zambelli (Exame). A pergunta é o que essa onda conserva, se a agenda do Senado eleito é o impeachment de ministros. Serve de gancho para a Parte 2 do PdP e de Short para a centro-direita democrática.
  • Folha (opinião), "A hora e a vez dos independentes". Dá a moldura do Centro Exausto como eleitor disputado.
  • Folha (opinião), "Por que metade do Brasil ainda prefere o bolsonarismo?". É a pergunta que o Central Meio deve responder, sem condescendência.
§ 11

Oportunidade da semana

Short explicativo de cauda longa: "Como se tira um ministro do STF". O caminho passa pelo Senado e pela Lei 1.079/1950, e a condenação exige dois terços da Casa, 54 de 81 votos. As buscas vão disparar com as manchetes sobre impeachment. O Short prepara o terreno para o PdP e continua sendo encontrado pela busca depois do 2º turno.

§ 12

Insights

3 itens

Quote do dia

"This claim resonates among critical citizens – those committed to democracy in principle but disillusioned with the performance of elected officeholders and representative institutions, including parties, elections, and parliaments." — Cultural Backlash, Pippa Norris e Ronald Inglehart

Essa é a definição do eleitor que decidiu o domingo. Ele não votou contra a democracia, votou cansado de quem a opera. No mesmo trecho, o livro lista os alvos favoritos do populismo, entre eles os juízes tratados como "inimigos do povo", e aí está o Senado contra o STF.

Mais aspas

"Liberalism is a set of solutions to a set of concrete real world problems." — The Good Fight, Adrian Wooldridge

Conexão do vault

  • Arquivo 1: [[achen_bartels_democracy_for_realists_summary]] — o eleitor pune o governante até por secas e por ataques de tubarão. Ele julga olhando para trás, mede mal o desempenho de quem governa e castiga quem estiver no poder.
  • Arquivo 2: [[borges_eles_nao_sao_loucos_resumo]] — no capítulo 25, o "efeito Orloff": a oposição se beneficia da crise e, quando eleita, herda essa crise numa dose capaz de destruí-la. Em 2002, a transição funcionou porque adversários como Malan e Palocci cooperaram.
  • A conexão: a "penalização de quem está no poder" que a Folha registrou é o eleitor de Achen e Bartels. Quem ganhar em 25/10 herda o efeito Orloff, com um orçamento em que R$ 9 de cada R$ 10 já têm destino e um Senado em guerra com o Supremo. Daí sai um texto: em 2002, os adversários cooperaram na transição; em 2026, ninguém apresentou sequer a conta.