Radar · Edição do Dia

24.09.26

Quinta-feira Edição nº 178

O avião de todo mundo

Faltam 10 dias para o 1º turno (4/10). O Datafolha nacional sai hoje à noite.

§ 01

Temas quentes do dia

6 itens

1. O avião de todo mundo: Flávio, Moraes e o jato de Vorcaro Em 19 de janeiro de 2025, véspera da posse de Trump, Flávio Bolsonaro voltou de Fort Lauderdale com a família e o advogado Willer Tomaz a bordo do Legacy PP-NLR. Em agosto de 2025, Alexandre de Moraes e Viviane Barci foram filmados desembarcando do mesmo jato. A Prime You tinha um terço das cotas desde o fim de 2024 e operava o avião. Vorcaro foi sócio dela de 2021 a setembro de 2025. Outro terço era de Tomaz, investigado no esquema do INSS e já preso no caso JBS (piauí/Breno Pires; manchete do Meio; Folha).

O agravante é de Flávio. Ele já tinha atacado Moraes por causa desse mesmo jato, quando chamou o ministro de "principal responsável por Lula voltar à cena do crime". No dia seguinte ao voo, cobrou o intermediário Thiago Miranda pelo dinheiro de Vorcaro para o Dark Horse: "dá um gás na resposta do jurídico do investidor". Em São Paulo, usou um apartamento que Tomaz comprou de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. O outro lado também aparece. A Prime negociou transferir uma cota ao escritório de Viviane Barci de Moraes, e o negócio não se concretizou. A delação homologada de Antonio Freixo, o Mineiro, confirma US$ 12,3 milhões ao fundo Havengate e malas de dinheiro entregues a pedido de Vorcaro. Flávio e a defesa de Vorcaro não responderam à piauí.

No pano de fundo, o CNJ bloqueou R$ 4,7 bilhões em precatórios ligados a Vorcaro (Meio). Ações que somam R$ 14,3 bilhões estão na raiz da influência dele no Judiciário (Folha). E, segundo "A Turma do KN", do G1/O Assunto, o Caso Master chega a mais um ministro do STF.

O mesmo avião levou os dois lados. O sistema Vorcaro não escolhia campo.

2. Empate técnico, eleição do medo Na PoderData/Aya, Lula e Flávio estão em 43 a 42 nos votos válidos do 1º turno. No 2º turno, Flávio tem 46 e Lula 45. A desaprovação de Lula é de 50%, e a aprovação, de 41%. A rejeição é de 49% para Lula e de 47% para Flávio, e a expectativa de vitória está em 46 a 45. A Real Time/Congresso em Foco também mostra empate nos dois turnos (Poder360).

A Quaest perguntou quem o eleitor teme. Em Minas, 41% temem a volta da família Bolsonaro e 40% temem mais um mandato de Lula. No DF, 46% temem Lula e 39% os Bolsonaro (G1). Segundo a Folha, Lula reavalia a estratégia e deve ir ao debate da Globo. O Jota fala em "perda de fôlego" do presidente. À BBC, o autor de um livro sobre eleições apostou em recorde de nulos, brancos e abstenções.

Os dois candidatos têm quase metade do país contra si. O Datafolha pode mudar a corrida, mas o medo dos dois deve continuar parecido.

3. Lula contra as bets que o governo protegeu Lula disse que "vai acabar com as bets", que "é uma decisão" e que os clubes "precisam aprender a viver sem" (G1, CartaCapital). Segundo o Meio, o governo deve anunciar uma restrição antes da eleição. No ato com artistas no Rio, houve apelos contra as bets (Folha).

O Painel da Folha lembra o registro de votação: nas votações do Congresso, o governo foi contra derrubar o "jogo do tigrinho" e outros cassinos online. Enquanto isso, a Missão move ação contra o X e contra perfis americanos pagos para divulgar apostas sobre a eleição (Jota). A repulsa às bets e aos tigrinhos une a direita e a esquerda cristãs (Folha).

Há consenso contra as bets. O que se discute agora é por que o governo demorou tanto.

4. O eleitor que não quer voltar Helen Braun escreveu na Folha (Tendências/Debates) que a narrativa da inclusão pelo consumo expirou e que o desejo hoje se organiza pela distinção. Num grupo focal, um eleitor disse: "Em 2006, eu quitei e reformei meu apartamento; este ano não consigo nem trocar de iPhone." Esther Solano disse que Lula precisa de "gesto forte, com promessa de futuro".

Segundo a PoderData, 18% dos eleitores de Lula e 14% dos de Flávio recebem Bolsa Família. O Jota publicou que "A porta de saída não é sair do Bolsa Família". Flávio propõe um programa contra dívidas, e Zema chama Lula de "pai da pobreza". A OCDE elevou a previsão do PIB, mas espera inflação de 5,1% em 2026.

A diferença de quatro pontos desmonta a tese de que o Bolsa Família compra a eleição, qualquer que seja o lado que a use. A classe C decide o empate, e ela vota para não voltar para trás.

5. Interferência estrangeira chega à Justiça (internacional) O PT pediu ao STF um inquérito por interferência estrangeira, e a campanha de Lula acionou o TSE contra Flávio (G1, Jota). Na ONU, Lula comparou seu discurso ao de Trump, que segundo ele fala "como se estivesse ameaçando todo mundo". O presidente da Venezuela elogiou o acordo com os EUA e falou em "transição democrática" (G1). Flávio criticou a ausência do Brasil no Escudo das Américas.

A política externa já entrou na campanha. Por enquanto, a denúncia é de uma das campanhas.

6. A China forma o talento de elite em IA, e o Brasil nem aparece (tech/internacional) Damien Ma e Binyi Yang, do Carnegie, analisaram os dados do NeurIPS 2025. A China é a origem de 57% do talento de elite em IA, 11 pontos a mais que em 2022. Os EUA respondem por 13%. A China passou a reter 69% desses pesquisadores, contra 57% antes, e a Peking University passou o Google como primeira instituição. O Brasil não aparece. O Estadão publicou o contraponto doméstico: "Embrapa, Porto Digital e ITA: o que faz uma política de desenvolvimento dar certo no Brasil".

O dado é duro e nenhum candidato fala dele. Por ora, fica como sinal.

§ 02

Ranking de conversão

# Tema Efeito espelho Urgência Conversão estimada Arquétipo
1 O avião de todo mundo (Flávio + Moraes no jato de Vorcaro) 10 10 9,5 (ALTO) Estrategista + Apoiador
2 Lula contra as bets que o governo protegeu 8 8 8,1 (ALTO) Curioso + centro-direita
3 Empate e a eleição do medo 6 10 7,5 (MODERADO) Estrategista
4 O eleitor que não quer voltar 6 8 6,9 (MODERADO) Curioso
5 Interferência estrangeira no STF/TSE + ONU 4 8 6,1 (MODERADO) Estrategista
6 Talento em IA: China domina, Brasil ausente 6 2 5,0 (BAIXO) Curioso
§ 03

CENTRAL MEIO — Sugestão de pauta

11 itens

Tema principal — O avião de todo mundo.

Por que vence hoje: é o único tema do dia em que o espelho já vem no fato. Na bet e na pesquisa, é preciso construir a simetria. No jato PP-NLR, ela está no manifesto de voo. A urgência também é a maior: faltam dez dias e a matéria-mãe saiu hoje.

Ângulo:

  • Abrir pelo fato. Em 19 de janeiro de 2025, o Legacy PP-NLR trouxe de Fort Lauderdale Flávio Bolsonaro, a família e Willer Tomaz.
  • Em seguida, a imagem. O avião que levou o candidato da oposição também levou o ministro que ele ataca. Flávio acusou Moraes por esse jato e já tinha viajado nele.
  • Depois, o padrão. Vorcaro financiou a cinebiografia de Bolsonaro. A empresa dele negociou uma cota do jato com o escritório da mulher de Moraes, sem concretizar o negócio. R$ 14,3 bilhões em ações estão na raiz da influência dele no Judiciário. O Master é um escândalo do sistema, não de um campo.
  • A pergunta: quem, em Brasília, não voou nesse avião?
  • A persuasão: uma regra que valha para todos. Transparência obrigatória dos voos privados de autoridades e candidatos, e uma regra de conflito de interesse.

Cuidados:

  • Espelho obrigatório. Flávio e Moraes sempre na mesma frase. Se a pauta virar "Flávio pego", o espelho quebra, e a semana já pesou contra ele.
  • Tomaz é investigado no esquema do INSS. Não é réu nem condenado nesse caso.
  • A cota não foi transferida. Houve negociação com o escritório de Viviane Barci, e ela não se concretizou. Viviane não virou sócia.
  • Os US$ 236 mil em espécie são de Tomaz, segundo Lauro Jardim. Atribuir e não sugerir que Flávio jogou.
  • O voo foi em janeiro de 2025, antes da liquidação do Master. O peso está na companhia e na incoerência com o ataque a Moraes. Confirmar esse marco antes de falar no ar.
  • Registrar que Flávio e a defesa de Vorcaro não responderam à piauí.

Secundário: Lula contra as bets que o governo protegeu. A crítica é à conversão de última hora de quem tributou o produto, não à medida.

§ 04

Calibragem de discurso

10 itens

O avião de todo mundo

  • ENCONTRO: "Em Brasília, todo mundo pega carona no mesmo avião, e depois briga na TV."
  • PERSUASÃO: o sistema Vorcaro comprava acesso aos dois lados. A resposta é transparência obrigatória, porque a indignação seletiva não fiscaliza ninguém.

Lula contra as bets

  • ENCONTRO: "A bet está destruindo famílias, e todo mundo sabe."
  • PERSUASÃO: promessa a dez dias da eleição não é política pública. Por que o governo votou para manter o tigrinho?

Eleição do medo

  • ENCONTRO: "Você não vai votar a favor de ninguém. Vai votar contra alguém."
  • PERSUASÃO: os dois estão perto de 50% de rejeição. Quem ganhar vai governar um país que não o escolheu. Como se governa assim?

O eleitor que não quer voltar

  • ENCONTRO: "A vida melhorou em 2006 e parou. Ninguém fala disso."
  • PERSUASÃO: a inclusão pelo consumo tinha prazo de validade. Falta a Lula um projeto de futuro, e falta a Flávio conteúdo além da segurança.

Interferência estrangeira

  • ENCONTRO: qualquer um se incomoda com estrangeiro pagando para mexer na eleição.
  • PERSUASÃO: a denúncia vem de uma campanha. O melhor é esperar o que a Justiça apurar, sem adotar a moldura de nenhum dos lados.
§ 05

Alertas de viés

5 itens
  • A semana pesa contra Flávio, com Dark Horse, Master e agora o jato. O dia também traz cobranças ao governo:
    • o Painel sobre as bets;
    • a investigação de Lulinha, que envolve ao menos quatro integrantes do governo (Folha);
    • o pedido da PF para afastar o governador do Maranhão (Folha). Conferir o partido antes de citar.
  • Interferência estrangeira: o espelho é fraco e a moldura é da campanha do PT. Não usar como tema principal.
  • O Datafolha sai hoje à noite. Não afirmar a "perda de fôlego" de Lula antes dele.
  • A pergunta sobre medo da Quaest vale só para MG e DF. Não é nacional.
  • Bolsa Família (18% contra 14%): não usar como prova de voto comprado para nenhum dos lados.
§ 06

Tensão autor×público

1 item
  • Welfare (tema 4): 34% do núcleo acha que programas sociais "criam dependência". Para Pedro, o welfare é inegociável. O terreno comum é a "porta de saída", entendida como renda para cima e não como corte. Não defender o Bolsa Família como conquista.
§ 07

Pesquisas novas

7 itens

Nenhum PDF novo em Fontes/Pesquisas. Os dois arquivos que a coleta pegou são antigos (Plano CDE 2019 e Genial/Quaest 2022) e entraram por causa da data de modificação do iCloud. As pesquisas do dia chegam pelo noticiário.

  • PoderData/Aya: 43 a 42 nos válidos do 1º turno e 46 a 45 para Flávio no 2º. Empate na margem, com a eleição aberta a dez dias.
  • Rejeição de 49% para Lula e 47% para Flávio; desaprovação de Lula em 50%, aprovação em 41%. Os números batem com a Nexus de ontem (46/50). O reajuste do Bolsa Família não mexeu na avaliação do governo. Quem rejeita os dois é uma fatia estável do eleitorado, não um desvio passageiro.
  • Expectativa de vitória em 46 a 45. O voto útil não tem para onde correr, e quem decide tarde pesa mais.
  • Bolsa Família: 18% dos eleitores de Lula e 14% dos de Flávio. Os dados desmentem que o programa sustente Lula. O problema dele está na classe C que não recebe o benefício, como disseram Braun e Meirelles.
  • Quaest MG, medo de 41% contra 40%. No estado-pêndulo, o medo é simétrico, e esse é o terreno do Centro Exausto. Uma nuance: o núcleo tolera Flávio (40% no segmento na Onda 1). Medo simétrico não quer dizer voto simétrico.
  • Quaest RJ: a violência é o maior problema para 62%. O dado toca na tensão sobre o punitivismo. O terreno comum é a eficiência contra as facções, nunca a tolerância à violência policial.
  • BBC: previsão de recorde de brancos e nulos. É a opinião de um autor, não uma pesquisa. Quem rejeita os dois costuma votar branco ou nulo. Se o recorde vier, o Centro Exausto vai aparecer na apuração.
§ 08

Top of mind

3 itens
  • piauí (Breno Pires): é a matéria-mãe do tema 1. Um avião, dois lados.
  • Folha (Helen Braun): cobre o tema 4 inteiro. O "gesto forte, com promessa de futuro" de Solano ajuda a ler o "é uma decisão" de Lula sobre as bets.
  • Carnegie (Ma e Yang): base do tema 6. Cruza com o Estadão sobre Embrapa, ITA e Porto Digital. O Brasil sabe fazer política de desenvolvimento e não faz em IA.
§ 09

Oportunidade da semana

Short/explicativo: "Voto branco e nulo: para onde vão?" A busca por isso dispara nos dez dias antes da eleição. O vídeo desfaz o mito de que o nulo anula a eleição: branco e nulo não entram nos votos válidos. Conversa com a previsão de recorde e fala direto com o voto do Centro Exausto. O espelho é neutro e não há lado a proteger.

§ 10

Insights

3 itens

Quote do dia

"One study of more than sixty thousand people across 123 countries found people's wellbeing 'consistently depended on the degree to which people felt respected by others'." — The Status Game, Will Storr

O "não consigo nem trocar de iPhone" do grupo focal não é uma queixa de fome. É uma queixa de posição e de respeito. A campanha que responde com mais Bolsa Família está falando a língua errada.

Mais aspas

"Harley Davidson does make motorcycles. But what Harley Davidson makes is a chance for a group of people, disrespected outsiders, to feel like they mattered." — Seth Godin's 5 Essential Strategies for Creators to Thrive, Seth Godin

Conexão do vault

  • Arquivo 1: [[Flávio Bolsonaro viajou em jato de Vorcaro]]: a delação de Mineiro confirma malas de dinheiro a pedido de Vorcaro. O mesmo jato serviu ao candidato e ao ministro que ele ataca.
  • Arquivo 2: [[pinheiro_machado_amanha_vai_ser_maior_resumo]]: Rosana Pinheiro-Machado usa as malas de Geddel como prova de que a corrupção "não era propriedade do PT". Ela trata a corrupção como problema distributivo, que destrói o que é público, e defende que a esquerda retome essa pauta.
  • A conexão: em 2017, as malas de Geddel mostraram à direita que a corrupção não tinha dono. Em 2026, o jato de Vorcaro mostra a mesma coisa aos dois lados. A antropóloga de esquerda e o eleitor que rejeita os dois chegam ao mesmo lugar: quem usa a corrupção como arma do seu campo perde o direito de falar dela.