Radar · Edição do Dia

10.10.26

Sábado Edição nº 189

O Supremo na urna

§ 01

Temas quentes do dia

8 itens

1. O Judiciário entrou no 2º turno: julga a eleição e também está em disputa nela Não haverá debate na Globo. O púlpito vazio que Lula deixaria no palco foi vetado pela ministra Estela Aranha, do TSE, que já havia declarado voto em Lula, segundo a Folha. Sem o púlpito, a emissora cancelou o programa, e o eleitor perdeu o único confronto marcado. Na mesma semana, ainda segundo a Folha, ministros deram ordens contra Lula e o PT entrou com ação contra Flávio. Depois das críticas, Kassio Nunes Marques baixou regra para acelerar as ações de propaganda no TSE. O tribunal também está em jogo na eleição. Quem vencer em 25/10 indica até quatro ministros do STF (Poder360). Um nome cotado por Flávio para o Supremo distribuía livros de Ustra entre bolsonaristas (Folha). Kassio quer julgar a soltura de Bolsonaro só depois do 2º turno e estuda uma liminar (Folha). Por enquanto isso é intenção, não decisão. No STF, Edson Fachin vai receber os relatórios da PF do caso Master que citam ministros. Negou a Luiz Fux acesso imediato ao inquérito das fake news e acionou a PF por causa das ameaças a Flávio Dino. "O Judiciário pode ser reformado, não enfraquecido", disse Fachin (Jota). O eleitor vota em 25/10 para presidente e, sem que conste na cédula, também decide a composição do Supremo na próxima década.

2. Flávio é favorito, e o centrão já mudou de mesa No Datafolha de 09/10, Flávio tem 52% dos votos válidos e Lula, 48%. Na margem de 2 pontos, é empate técnico no limite. Nos votos totais, 49% a 45%, com 5% de brancos, nulos e indecisos. Flávio lidera entre evangélicos, no Sul e Sudeste e na faixa de 2 a 5 salários mínimos. Lula lidera entre católicos, nordestinos e na classe E. "Nunca houve virada em 2º turno presidencial", disse Felipe Nunes, da Quaest. Segundo a Folha, o favoritismo de Flávio põe em dúvida a reeleição de Hugo Motta e Davi Alcolumbre no comando das Casas. Os partidos que apoiam Flávio terão 286 deputados e 50 senadores (Poder360). Zema, Temer e Caiado aderiram, e PP e União se aproximam. Lula deu protagonismo a Alckmin para buscar o centro e testa um lema novo: "Para o povo trabalhador, proteção; para bandido, a prisão". Para Nunes, Lula "terá que formar de novo uma frente ampla". Os partidos vão atrás de quem lidera a pesquisa.

3. Master: o inquérito da PF chega ao Supremo Segundo a PF, a compra do Master pelo BRB foi decidida numa reunião na Suíça entre Ibaneis Rocha, Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro, e Ibaneis agiu de forma direta (G1). A PF pediu cooperação aos EUA para rastrear o fundo "Dark Horse". PF e PGR negaram que Vorcaro tenha dito que financiou um documentário sobre Lula, e a AGU vai pedir direito de resposta. Felipe Nunes disse que o eleitor lê a crise como "do sistema", não de Lula nem de Flávio. Um marqueteiro do PL resumiu de outro modo: "o STF chupou esse assunto". O escândalo não colou em nenhum candidato. Colou no tribunal.

4. Fim da escala 6x1 vai a voto na quarta (14/10) A oposição tentou empurrar a votação para depois das urnas, e Davi Alcolumbre marcou a PEC para quarta. Será o primeiro teste do Senado depois do 1º turno, com um centrão inclinado para Flávio. A pauta mexe com o bolso do trabalhador e já tem data. Os senadores vão votar a jornada de trabalho no meio da campanha, e cada voto será lido como gesto eleitoral.

5. As duas campanhas brigam com um eleitor que não quer briga A campanha de Lula fez com IA a cena de uma criança levando arma à escola. Flávio aparece na TV com tom de quem já ganhou. O TSE suspendeu um site que pagava em cripto por conteúdo pró-Flávio, e o grupo do token agora briga entre si depois dos prejuízos. Perfis pró-Flávio expuseram eleitores de Lula e incentivaram denúncias contra eles. A deputada eleita Ana Elisa, um dos nomes de Lula com mais alcance na internet, sofreu ataques racistas, e o Ministério da Justiça pediu investigação à PF. O Meio registrou em 09/10 que as militâncias dos dois lados espalham notícias falsas. Para Vasconcelos, marqueteiro do PL, o cansaço da briga pesou no 1º turno: "O eleitor não quer guerra". No 2º turno, as duas campanhas aumentaram o tom.

6. Os valores pesam mais que a economia no voto, e Aparecida cai na segunda "O voto econômico explicava muito; o que explica agora são os valores", disse Felipe Nunes. Em 2002, 25% dos eleitores não sabiam se eram de esquerda, de direita ou de centro. Hoje são 4%. Lula ainda lidera entre católicos no Datafolha, mas o antropólogo Rodrigo Toniol escreveu na Folha que o catolicismo politizado tende ao conservadorismo e que a "primavera católica" em torno de Aparecida não aconteceu. O feriado de 12/10 cai na segunda e as duas campanhas devem usá-lo como palanque. A abstenção do 1º turno foi a maior desde 1998. Lula lidera apenas na classe E, e Flávio vence entre quem ganha de 2 a 5 salários mínimos. O Meio pergunta qual dos dois entende melhor a classe C.

7. Economia: semana de alívio no mercado O dólar fechou a semana a R$ 4,98, queda de 4,44%. Para a XP, os ativos brasileiros ganham tração, mas o risco de inflação continua. A ONU prevê PIB de 1,8% em 2026 e crescimento menor em 2027. O tarifaço dos EUA já atinge empresas brasileiras. Os bancos começaram a devolver R$ 1,3 bilhão a apostadores de bets, e um tribunal derrubou a liminar que permitia à Stake operar. Nenhuma fonte até agora atribui a alta dos ativos ao favoritismo de Flávio. Não fazer essa ligação no ar.

8. Internacional

  • Trump x Fed. Trump criou um painel para investigar Lisa Cook e avaliar se ela pode ser removida do Fed. Lá, o alvo é a independência do banco central — o mesmo fio do tema 1: instituição de freio sob pressão política.
  • ONU. A organização vai cortar 10 mil empregos por falta de dinheiro e pressão dos EUA. A ajuda a refugiados no Brasil corre risco.
  • Ucrânia. Um ataque russo matou sete pessoas em Zaporíjia. No mesmo dia, Trump anunciou acordo com Putin para comprar diesel russo.

§ 02

Ranking de conversão

Tema Efeito espelho Urgência Conversão estimada Arquétipo
Judiciário no 2º turno (TSE, 4 vagas, Kassio) 10 10 ALTO (9,7) Independente / Estrategista
Master chega ao STF (BRB/Ibaneis) 8 8 ALTO (8,6) Estrategista
Campanha suja nos dois lados 8 8 MODERADO (7,7) Independente
PEC 6x1 no Senado (14/10) 6 10 MODERADO (7,6) Estrategista
Centrão se move para Flávio 6 8 MODERADO (7,1) Estrategista
Datafolha 52 x 48 6 8 MODERADO (6,7) Estrategista
Voto de valores / católicos / Aparecida 6 5 BAIXO (5,7) Curioso
Trump x Fed (Lisa Cook) 4 4 BAIXO (5,5) Curioso

§ 03

CENTRAL MEIO — Sugestão de pauta

5 itens

Tema principal — O Supremo na urna.

Por que este tema e não os outros hoje. O tema junta o debate cancelado, a briga judicial da semana, as quatro vagas no STF, Kassio e Bolsonaro, e o Master chegando a Fachin. Cada um desses assuntos daria uma pauta sozinho. Juntos, explicam por que o Judiciário está nas duas pontas da eleição: decide o que acontece na campanha e muda de composição conforme o resultado. O Centro Exausto já pensa nisso, mas evita dizer em voz alta porque soaria como torcida. A provocação vai às instituições, não a um dos lados.

Ângulo. Abrir pelo púlpito vazio. Uma ministra que declarou voto em um candidato decidiu o que o eleitor podia ver, e o país ficou sem debate. Isso irrita o eleitor de centro qualquer que seja o voto dele. Depois, o outro lado: o cotado de Flávio para o STF distribuía livros de Ustra, e Kassio quer esperar o fim do turno para julgar Bolsonaro. Fechar no que está em jogo: quatro cadeiras. Em 25/10 o eleitor escolhe também a composição do Supremo até a próxima década. A pergunta da pauta não é qual lado o tribunal favorece. É quanto poder ele exerce numa eleição.

Cuidados.

  • Conferir a formulação exata do voto declarado de Estela Aranha antes de ir ao ar. Por ora é "segundo a Folha". O ângulo depende desse dado e não sobrevive a um erro nele.
  • Vasconcelos é marqueteiro do PL e tem interesse no assunto. A frase dele mostra como a direita lê o tema, mas não prova nada.
  • "Kassio avalia liminar" é intenção. Dizer "avalia", nunca "vai soltar".
  • "Cotado" não é "indicado". Ninguém foi indicado ainda.
  • O Master entra como prova de que o escândalo atingiu o tribunal, não como acusação a um ministro específico.

Tema secundário — o centrão já escolheu. A reeleição de Motta e Alcolumbre está em dúvida, os partidos de Flávio somam 286 deputados e a 6x1 vai a voto na quarta como primeiro teste. Funciona como contraponto: enquanto o Judiciário domina a campanha, o Congresso se reorganiza em silêncio para o próximo governo.


§ 04

Calibragem de discurso

8 itens

Supremo na urna

  • Encontro: "o Judiciário virou cabo eleitoral". Entrar pelo debate cancelado, que o eleitor sentiu, e só depois mostrar que acontece dos dois lados.
  • Persuasão: o problema não é qual lado o juiz favorece. É um tribunal que decide demais. E o STF precisa sair desta eleição com autoridade, seja quem for o vencedor, porque o próximo presidente vai precisar dele e a oposição também.

Centrão e Flávio

  • Encontro: "o centrão sempre adere a quem vai ganhar". O leitor sabe disso e se cansou de fingir que não sabe.
  • Persuasão: com 286 deputados alinhados ao governo, o Congresso deixa de frear o presidente. Um Legislativo independente protege o eleitor contra qualquer presidente forte. A crítica vale para Flávio hoje e valeria para Lula.

Campanha suja

  • Encontro: o cansaço da briga e as famílias que deixaram de conversar à mesa.
  • Persuasão: as duas campanhas entendem mal esse eleitor. A que baixar o tom primeiro conversa com os 8% que rejeitam os dois.

PEC 6x1

  • Encontro: começar pela rotina concreta, sem slogan: seis dias de trabalho, um de folga, o ônibus de domingo.
  • Persuasão: votar uma emenda trabalhista no meio do 2º turno é cálculo eleitoral do Senado, não política pública. Mudar a jornada de trabalho do país pede mais tempo que uma campanha.

§ 05

Alertas de viés

4 itens
  • Deslizar para "o que Lula precisa fazer". Com uma semana inteira de eleição, é fácil escrever como consultor de campanha. Tratar o assunto pelo poder e pelas instituições, não pela estratégia de um dos lados.
  • Não dá para conferir o equilíbrio da semana. Os radares de 06 a 09/10 não foram gerados, então não há como saber se a semana provocou mais um lado que o outro. Hoje, compensar com cuidado redobrado na simetria.
  • Ana Elisa. Tratar como violência política sob investigação da PF, que é assunto institucional, não como pauta identitária.
  • Vasconcelos e a regra do TSE. Separar a fala de fonte interessada do que é fato verificável.

§ 06

Tensão autor × público

Bolsonaro/Flávio. No núcleo do Centro Exausto, Flávio lidera. Se o alarme for "PL anabolizado e STF enfraquecido sem freios", esse leitor vai ouvir torcida por Lula e parar de ouvir. A ameaça às instituições tem que entrar como argumento sobre freios, que valem para os dois candidatos, e não pelo nome de Flávio. O argumento é o mesmo, mas assim chega a quem precisa ouvi-lo.


§ 07

Top of mind

3 itens
  • Vasconcelos (Folha, 07/10). A "canetada" do TSE e a frase "o desgaste do Judiciário é uma força da direita" sustentam o tema 1 e a manchete. "O eleitor não quer briga" sustenta o tema 5. É uma fonte interessada que, nesse ponto, descreve o eleitor com precisão.
  • Felipe Nunes (Globo, 05/10). Valores no lugar da economia, Master lido como crise "do sistema", nenhuma virada na história, liberais sociais que "se sentiram traídos" pelo governo Lula. Liga os temas 2, 3 e 6. É o retrato do Centro Exausto: o eleitor que vê Flávio como "não a melhor opção" e Lula como "alguém que o traiu".
  • Toniol (Folha, 06/10). A "primavera católica" que não aconteceu, lida contra o Datafolha, em que Lula ainda lidera entre católicos, a dois dias de Aparecida. Liga com o tema 6.

§ 08

Oportunidade da semana

"Já houve virada no 2º turno presidencial?" A busca deve crescer até 25/10. A resposta cabe num vídeo curto: os números de 1989 a 2022 (segundo Nunes, nunca houve virada) e o que uma disputa de 52 a 48 ainda deixa em aberto. Pode sair como short ou como explicativo no YouTube. A pergunta interessa a quem está à frente e a quem está atrás.


§ 09

Insights

3 itens

Quote do dia

"Os dois lados estavam errados, e seus irmãos perderam a juventude naquela divisão da qual permaneceram prisioneiros." — Tempos Extremos, Míriam Leitão

A frase é o juízo de uma personagem do romance, não uma tese da autora. Mesmo assim, descreve o eleitor que, nas palavras de Vasconcelos, viu "famílias levantarem da mesa" e chegou ao 2º turno cansado de uma divisão que "não botou comida no prato de ninguém".

Conexão do vault

  • Arquivo 1: [[singer_sentidos_do_lulismo_resumo]] — o realinhamento de 2006 ancorou Lula no subproletariado, que "não quer conflito social que desarrume a vida já precária". A fórmula era melhorar a vida sem conflito.
  • Arquivo 2: [['Canetada do TSE foi mortal para Lula e afetou eleições nos estados', diz marqueteiro de Douglas Ruas]] — "O eleitor não quer guerra, ele não quer briga."
  • A conexão: o lulismo venceu prometendo mudança sem briga. Vinte anos depois, quem promete paz é o marqueteiro do PL, enquanto a campanha de Lula faz com IA a cena de uma criança armada e o Datafolha mostra Lula na frente só na classe E. O realinhamento descrito por Singer pode estar se desfazendo pelo mesmo desejo que o criou.