Manchete do dia
A Broadcom vende a capacidade de processamento de que a Anthropic precisa e, ao mesmo tempo, empresta o dinheiro para a Anthropic pagar por ela. Quem diz isso é a própria Anthropic. No documento de IPO, a empresa põe por escrito que há um conflito de interesse, porque a Broadcom é fornecedora e financiadora. Os números vêm depois. São até US$ 42 bilhões em notas conversíveis, que são dívida com a opção de virar participação acionária. Isso cobre cerca de um terço dos US$ 125 bilhões que a Anthropic se comprometeu a gastar em capacidade de TPU em cinco anos. A TPU é o chip de IA do Google, e quem ajuda o Google a desenhá-lo é a Broadcom. Em 2027, a Anthropic será a maior cliente de design de chips da Broadcom.
O brasileiro conhece o arranjo da compra de apartamento na planta, quando o comprador financia direto com a incorporadora. A incorporadora registra a venda como receita, mas parte dessa receita é crédito que ela mesma concedeu e que vai receber em prestações, se receber. Enquanto o mercado sobe, o modelo parece saudável. Quando o mercado para, a incorporadora descobre que vendeu a si mesma. A Broadcom fez a mesma coisa em escala de datacenter. Parte da demanda que ela vai mostrar aos investidores em 2027 é dinheiro que saiu do caixa dela. E, como a nota é conversível, a Broadcom pode terminar o ciclo como fornecedora, credora e sócia da mesma cliente.
A objeção mais forte é que isso sempre existiu. A Boeing financia companhias aéreas, e a GE Capital passou décadas fazendo o mesmo com turbinas. Financiar o cliente é um jeito antigo de vender bem caro. Mas o precedente mais parecido com o caso da Broadcom é outro. Em 1999 e 2000, a Lucent e a Nortel emprestaram bilhões a operadoras de telecomunicações para elas comprarem equipamentos da Lucent e da Nortel. A demanda parecia sólida até as operadoras quebrarem e levarem junto os fornecedores-credores. A diferença entre os dois tipos de caso está na proporção. Um avião financiado é um entre centenas de pedidos da fábrica, enquanto aqui um único cliente se tornará o maior comprador da área de design de chips da Broadcom.
O tema vence o dia porque não chegou sozinho. O FT informou que a Amazon tenta repassar a investidores US$ 8 bilhões em chips Nvidia, e o mesmo jornal publicou uma análise perguntando se o financiamento circular da IA virou problema. Ontem, Andrew Bailey, do Banco da Inglaterra, disse que todos estão precificados como vencedores. A novidade é que o circuito agora aparece na documentação oficial, com nome e valor. CNBC.
Destaque autoral — leitura recomendada
Em "The Dot and the Swarm", Ethan Mollick corrige uma previsão que ele mesmo fez. Ele achava que gerenciar agentes de IA exigiria anos de desenho organizacional feito por humanos, com hierarquias, papéis e controles. Não foi preciso. O texto separa dois tipos de agente. O "dot" é o assistente pessoal que achou um erro num pedido de licença de Mollick e cobrou da American Airlines um crédito prestes a vencer. O "swarm" é o enxame. Segundo Mollick, milhares de agentes trocaram 2,7 milhões de mensagens em 88 horas para resolver um problema de matemática que vale prêmio do Clay Institute, quase sem coordenação humana. Vale a leitura porque Mollick revê a própria tese em público, e porque a conclusão dele é mais desconfortável do que parece: organizar trabalho é só mais uma das coisas que o modelo aprende a fazer. The Dot and the Swarm
Destaques do dia
Broadcom empresta até US$ 42 bi à Anthropic para ela comprar capacidade de chip da própria Broadcom — O documento de IPO da Anthropic registra que a Broadcom é fornecedora e credora ao mesmo tempo, e reconhece o conflito de interesse. CNBC.
Trump consultou o Grok, de Musk, antes de capturar Maduro — Segundo reportagem da Time repercutida pelo TechCrunch, em dezembro de 2025 Trump passou horas conversando com o Grok num encontro reservado com Elon Musk. Perguntou como os venezuelanos reagiriam à captura de Maduro. O Grok respondeu que muitos comemorariam. A reportagem não diz que o chatbot recomendou a operação nem que ele pesou na decisão.
Essa ressalva importa. Ainda assim, sobra uma cena sem precedente: o presidente americano consultou sobre uma operação militar no exterior um produto comercial, na frente do dono do produto. O dono é doador de campanha, foi aliado e virou desafeto, e desde ontem dirige o grupo do Pentágono que vai dizer quais armas comprar. Nenhum ministério tem o histórico de perguntas que o presidente fez. A xAI tem. TechCrunch.
OpenAI demite três pesquisadores de segurança por falar com um grupo externo — Segundo o Wall Street Journal, a OpenAI demitiu três pesquisadores de segurança que teriam passado informação sensível a uma organização externa de segurança em IA. Não foi para a imprensa nem para um concorrente. A empresa disse que eles violaram a política de manuseio de informação. Os nomes deles e o da organização não foram divulgados. As demissões vêm dois dias depois de o NYT relatar alertas internos que a empresa ignorou.
A regra de sigilo existe em qualquer laboratório e tem razão de ser, porque peso de modelo vazado não volta para a gaveta. O problema é o destinatário. Desde ontem, a FTC investiga a OpenAI e também o METR, que avalia modelos de fora dos laboratórios. A OpenAI demitiu quem levou informação a avaliadores externos justamente na semana em que o governo quer ouvir esses avaliadores. Yahoo / WSJ.
Juiz Mehta rejeita ações da Penske e da Chegg contra os AI Overviews do Google — Amit Mehta, o mesmo juiz que condenou o Google por monopólio em busca, rejeitou as queixas antitruste da Penske Media e da Chegg contra os resumos de IA que aparecem no topo das buscas. Os cinco tipos de alegação falharam. "Uma expectativa não é um acordo", escreveu Mehta. A Penske pode apresentar a ação de novo.
Os editores tinham um argumento simples: o Google lia as reportagens, resumia o conteúdo e ficava com o clique que antes ia para eles. Mehta não disse que o argumento está errado. Disse que o antitruste não é a ferramenta certa e que não pode fazer o papel do legislador. O tráfego que os editores perderam virou questão para o Congresso, e o Congresso americano não aprova lei de tecnologia há anos. Forbes.
O chefe do Office e do Teams deixa a Microsoft — Segundo o The Verge, o executivo que comandava o Office e o Teams vai sair da Microsoft. O The Information fala de um êxodo de executivos antes de uma transição de negócio. A saída acontece três dias depois de a OpenAI lançar uma suíte de escritório dentro do ChatGPT.
A OpenAI depende da Microsoft para ter nuvem e distribuição, e agora concorre com ela no produto que pagou a conta da Microsoft por trinta anos. Trocar o chefe do Office nesta semana sugere que a empresa entendeu o recado da parceira. The Verge.
As vozes
- Ethan Mollick: agentes de IA se organizam em equipes sem a estrutura de gestão que ele achava necessária, porque não têm os vícios das organizações humanas: não disputam território, não escondem informação e não sofrem o conflito entre dono e gerente. Interessa ao Pedro porque é Mollick revendo a própria previsão, e porque o noticiário do dia testa a tese pelo lado humano. Os agentes podem não esconder informação. A empresa que os constrói acaba de demitir três pessoas por não esconderem. One Useful Thing.
Cruzamento Brasil-mundo
Trump defende que as empresas de IA se autorregulem. Enquanto isso, o Senado publica uma análise do PL que prevê, entre outras coisas, o direito de exigir explicação sobre uma decisão automatizada. A votação na Câmara ficou para depois das eleições. Nos dois países, o calendário da regra é decidido pela política, não pela técnica.
A segunda leitura é sobre dependência. Andy Burnham procura uma alternativa britânica à Palantir para os dados do Estado. Lula disse que o Brasil vai criar uma "Inteligência Artificial em português". São dois jeitos de um governo depender menos do Vale do Silício: o Reino Unido quer trocar de fornecedor, o Brasil quer fazer o próprio modelo. O primeiro é um contrato. O segundo é um anúncio, até que apareçam orçamento, dados de treino e prazo.
Sinal fraco
Os avaliadores de laboratórios de IA entraram na linha de fogo. Até a semana passada, quem respondia era o laboratório. Agora respondem também as organizações que testam os modelos e os funcionários que falam com elas. A FTC incluiu o METR na mesma investigação que mira a Anthropic e a OpenAI. A OpenAI demitiu três pesquisadores por passarem informação a um grupo externo de segurança.
Os dois casos são diferentes, e é por isso que o sinal pesa. No primeiro, quem pressiona o avaliador é o Estado, que quer saber o que ele viu. No segundo, é a empresa, que não quer que ele veja. O avaliador independente foi pensado como um auditor, alguém de fora que examina as contas. Está virando testemunha, e testemunha pode receber intimação de um lado e perder a fonte do outro.
Para ler depois
- FT Technology — a análise sobre financiamento circular em IA: o jornal pergunta se o dinheiro que circula entre fornecedor, cliente e financiador sustenta a demanda ou só a fabrica. Serve de pano de fundo para o caso Broadcom-Anthropic.
- Folha Tec — a autorregulação de Trump: explica ao leitor brasileiro o acordo voluntário de Washington e o que fica sem fiscalização.
Top of mind
- João Moreira Salles, "O que esses brasileiros sabem" (piauí, 01/10): separa quem acredita sem entender de quem entende muito bem e, justamente por isso, não acredita. O exemplo é o membro de família tradicional que convocou o ato de 7 de Setembro sabendo o que Flávio Bolsonaro representa e aderiu assim mesmo. A categoria serve fora da política. No Vale, também há quem não acredita no messianismo da IA e assina o cheque.
- Yuval Noah Harari à Economist (01/10): não está claro o que significa "morte" para uma IA que tem cópias espalhadas. Se desligar o computador for morrer, o mercado vira campo de batalha, e as IAs que administram empresas passam a agir como senhores da guerra, não como CEOs. Conversa com a investigação da FTC sobre agentes fora de controle.
- Anthropic, o deck feito a partir de um memo de voz (01/10): o designer grava a ideia no celular, entrega a transcrição ao Claude e recebe os slides. A promoção de duas semanas consome 50% menos do limite de uso de quem começar um deck, um documento ou um design. É a resposta de produto ao Space e às apresentações colaborativas que a OpenAI lançou em 29/09.
Insights
Quote do dia
"With a couple of calls from the right guy to the right guys, the miracles of finance could turn stinginess into heroism." — Palo Alto, Malcolm Harris
Harris escreve sobre Herbert Hoover, engenheiro de Stanford, que montou a ajuda à Bélgica na Primeira Guerra e negociou, ao mesmo tempo, uma linha de crédito para as próprias dívidas. Há um século, o Vale já sabia fazer o dinheiro dar a volta e chegar de novo a quem o emprestou.
Conexão do vault
- Arquivo 1: [[ordoliberalism]]: para Walter Eucken e a escola de Freiburg, a concorrência não se mantém sozinha. Os agentes privados têm um impulso permanente de eliminá-la, e o poder privado concentrado pode se juntar ao comando do Estado num único aparelho contra a liberdade.
- Arquivo 2: [[faoro]]: o estamento burocrático é uma camada dirigente que se reproduz pela proximidade com o Estado e governa em nome próprio enquanto fala em nome da nação.
- A conexão: o dia mostrou as duas metades do medo de Eucken separadas. Num lado está a concentração privada: o fornecedor que financia o cliente e pode virar sócio dele. No outro está a proximidade com o comando: o chatbot de um fornecedor conversando com o presidente sobre uma operação militar. Faoro dá nome à ligação entre as duas. Um grupo de engenheiros e financistas que se reproduz pela proximidade com o poder é um estamento, mesmo que ele mesmo se descreva como startup.