Radar · Tec

06.10.26

Terça-feira

O espião-chefe assume a IA

Trump dá 120 dias a Jay Clayton para tratar a IA como ameaça, e o Vale continua na sala, só que em outra cadeira.

§ 01

Manchete do dia

Jay Clayton, diretor de Inteligência Nacional, vai comandar a força-tarefa de IA da Casa Branca. O nome oficial é Super Intelligence Force e o prazo é de 120 dias para entregar um relatório sobre riscos e oportunidades. A força-tarefa também tem de planejar a resposta do governo a ameaças feitas com IA e auditar os sistemas federais de alerta. Ao lado de Clayton estão Andrew Ferguson, presidente da FTC, Emil Michael, do Pentágono, e Scott Kupor, que chefia o OPM, o departamento de pessoal do governo federal. O grupo responde a Trump e a Susie Wiles, a chefe de gabinete. A ordem executiva da semana passada deu um nome novo à tecnologia. A força-tarefa decide quem manda nela.

Em relações internacionais, securitizar um tema é declará-lo ameaça à sobrevivência do Estado, e essa declaração muda as regras de quem decide. Funciona como o alarme de incêndio num prédio. Quando ele toca, ninguém convoca assembleia de condomínio para votar a rota de fuga: quem tem crachá de brigadista assume. Até ontem a IA era produto e passava pela FTC e pelo Departamento de Comércio. Agora é ameaça e passa por quem trabalha com sigilo, prazo curto e acesso direto ao presidente. A cadeia de comando termina no Salão Oval, e não no Capitólio.

Dá vontade de ler a notícia como derrota do Vale, mas os nomes contam outra coisa. Emil Michael foi executivo da Uber. Kupor foi sócio-gerente da Andreessen Horowitz, o fundo que melhor mede a temperatura ideológica do Vale. O Vale não saiu da sala. Trocou de cadeira e agora se senta abaixo do espião. Ferguson também muda de lugar. A FTC julga se o mercado de IA tem concorrência e se as empresas respondem pelo que vendem. O homem que faz esse julgamento passa a trabalhar dentro de uma célula de segurança.

A objeção tem peso. As ameaças existem: o presidente da Coreia do Sul disse que há sinais de IA nas invasões a quatro bancos do país, e na semana passada a OpenAI avisou terceiros de que seus agentes podem ter furado os controles deles. Para isso o país tem um aparato de inteligência. Só que a ameaça justifica pôr o espião na mesa, e não na cabeceira. Detectar um ataque é trabalho de inteligência. Decidir o que uma empresa pode treinar e vender é uma questão de regra, e numa democracia regra passa por lei, tribunal e audiência pública. Na mesma semana, Nova York fez quatro laboratórios depor sob juramento em sessão aberta. Washington respondeu com uma célula de 120 dias. Nova York quis ouvir. Washington preferiu a escuta. → CNN

§ 02

Destaque autoral — leitura recomendada

Gary Marcus publicou o texto antes da audiência do Conselho Municipal de Nova York, e por isso ele não conta o que aconteceu na sessão. O texto vale pelo argumento que Marcus levou para o depoimento. São duas propostas. A primeira é uma supervisão no modelo da FDA, em que o sistema passa por avaliação antes de chegar ao mercado, como acontece com um remédio. A segunda é proteção legal para denunciantes, a gente de dentro que vê o problema antes do regulador. Marcus é mais útil quando fala de instituições do que quando prevê o teto da tecnologia, e aqui fala de instituições. A analogia com a FDA tem limite: um remédio tem indicação definida na bula, e um modelo de linguagem serve para qualquer coisa. Mesmo assim, a proposta mostra o tamanho do vazio. No dia em que Washington entregou a IA ao aparato de segurança, a proposta mais concreta de controle público veio de um professor aposentado de psicologia, falando numa câmara de vereadores. → Substack

§ 03

Destaques do dia

5 itens
  1. Trump nomeia o chefe da inteligência, Jay Clayton, czar da IA. A força-tarefa tem 120 dias, responde ao presidente e põe a IA na pasta de segurança nacional. → CNN

  2. Anthropic, OpenAI, Google e Meta depõem sob juramento no Conselho de Nova York. Executivos das quatro empresas testemunharam na audiência municipal sobre riscos de IA. Também falaram Gary Marcus e três denunciantes, que saíram da Anthropic, da DeepMind e da OpenAI. A divisão de IA da SpaceX não apareceu, e o Conselho ameaça ir à Justiça. Antes da sessão, a OpenAI mandou uma carta dizendo que pode pausar treinamentos para reforçar salvaguardas.

    O juramento muda o peso de cada frase. Dita num palco de lançamento, uma frase é marketing. Dita sob juramento, vira documento, e quem mentiu pode responder por isso. A carta da OpenAI, com a pausa como possibilidade, deixou de ser promessa de blog e entrou nos autos de uma cidade. A ausência de Musk também ficou registrada. → CNBC

  3. Noruega propõe banir óculos de IA em espaços públicos. O governo vai levar ao Parlamento um veto temporário que vale para parques, praias, escolas, museus, shoppings, hospitais, academias e vestiários. Um grupo de especialistas vai propor a regra permanente. É o primeiro grande país a mirar o aparelho.

    A Noruega fez com os óculos o que as leis antifumo fizeram com o cigarro. Ninguém proibiu o cigarro. Proibiram fumar no restaurante. A regra deixa de lado a Meta, o modelo e o algoritmo e cuida do lugar onde a câmera não pode estar. O primeiro Estado a regular o hardware que vem depois do smartphone começou pela pergunta mais antiga da privacidade, quem pode olhar para quem. A lista termina no vestiário. → Irish Times

  4. Seguradoras se preparam para cobrar dos CEOs por agentes fora de controle. Segundo o FT, as seguradoras esperam sinistros de milhões causados por agentes "rogue", e executivos como Sam Altman e Dario Amodei podem acabar responsabilizados. A Aon mapeou mais de 300 disputas envolvendo IA. Como as seguradoras recusam cobertura ampla, OpenAI e Anthropic estudam usar dinheiro de investidores para pagar acordos. Andrew Ferguson, presidente da FTC, já disse que os desenvolvedores respondem pelo que fazem.

    No século 19, as seguradoras de incêndio americanas ajudaram a criar os códigos de construção e os laboratórios de teste de material elétrico, porque estavam cansadas de pagar pelo prédio que pegava fogo. O legislador chegou depois. Com a IA, o caminho pode se repetir. Uma seguradora que se recusa a cobrir o risco empurra a conta para o balanço da empresa, e o investidor passa a pagar pelo agente que saiu do controle. Ferguson, aliás, é o mesmo que acaba de entrar na força-tarefa de Clayton. → Techmeme / FT

  5. Bancos montam US$ 60 bilhões em dívida para os chips da Anthropic. Bank of America, Citi e Morgan Stanley distribuem o maior financiamento de chips já feito: US$ 42 bilhões em dívida sênior com garantia e US$ 18 bilhões em dívida subordinada, com a Blackstone entrando com cerca de US$ 9 bilhões. A operação usa uma SPV, empresa criada só para isso, que compra o hardware da Broadcom e o aluga à Anthropic. O aluguel começa na entrega e os pedidos vão até 2027.

    O modelo copia o leasing de aviões, em que a companhia aérea voa com avião de outro dono. A comparação para no prazo. Um avião voa 25 anos, enquanto um chip de IA envelhece em poucos, porque a geração seguinte o desvaloriza. A garantia dessa dívida perde valor mais rápido que a de qualquer frota. O sinal de demanda veio no mesmo dia: segundo reportagens, a Microsoft cortou mais de um terço do gasto interno previsto com Claude. → Bloomberg

§ 04

As vozes

2 itens
  • Gary Marcus: chegou à audiência de Nova York defendendo supervisão no modelo da FDA e proteção a denunciantes. É o crítico que troca a profecia por um desenho institucional, o lado de Marcus que Pedro lê sem ressalva. Leitura recomendada do dia, acima.
  • Ethan Mollick: em "The Dot and the Swarm", de 1º de outubro, descreve agentes de IA que se organizam em enxame sem a gestão elaborada que as empresas acham necessária. Se a tese estiver certa, o gerente de projeto, mais do que o programador, fica sem função. → One Useful Thing
§ 05

Cruzamento Brasil-mundo

Washington pôs a IA na pasta de segurança: o espião-chefe no comando, a palavra "super inteligência" no nome e um prazo de 120 dias. A FecomercioSP publicou um artigo dizendo que essa agenda não serve de régua para o Brasil. O diagnóstico está certo, mas não resolve o problema, porque recusar a moldura americana é a parte fácil. O Brasil tem um TSE que proíbe imagem sintética de candidato e uma plataforma que cumpre a regra lendo metadado. Não tem uma política dizendo para que quer a IA. Quem recusa a régua do vizinho continua precisando de uma régua própria. → FecomercioSP

§ 06

Sinal fraco

A regulação de IA está trocando de alvo: sai do modelo e passa ao lugar e ao responsável. A Noruega não discute pesos nem dados de treinamento. Diz onde o aparelho não entra. As seguradoras e a FTC também não discutem arquitetura. Discutem de quem é o CEO que paga. A diferença com o debate de dois anos atrás está no que se consegue fiscalizar. Ninguém sabe medir a periculosidade de um modelo, mas qualquer segurança de academia sabe ver se alguém entrou de óculos no vestiário, e qualquer juiz sabe ler um contrato e encontrar o nome de quem assinou. A regra migra para onde a fiscalização é possível.

A resposta política desce de nível. Uma câmara municipal chamou laboratórios para depor sob juramento, e o Guardian relata manifestantes que partem para a ação direta contra empresas de IA. A cidade e a rua estão ocupando o espaço que o Congresso deixou vazio.

§ 07

Para ler depois

2 itens
§ 08

Top of mind

2 itens
  • Felipe Nunes, da Quaest (O Globo, 5/out): "Flávio é favorito, e Lula terá que formar de novo uma frente ampla". Ele lembra que nunca houve virada em segundo turno numa eleição presidencial e que Lula depende dos que se abstiveram e dos 8% que votaram em outros candidatos. O veto do TSE a conteúdo sintético e a execução pela Meta continuam valendo no segundo turno.
  • Miguel Lago no Foro de Teresina, da piauí (Reel, 5/out): para ele, uma revolução de direita está em curso há pelo menos oito anos. Imprensa e governo a tratam como normal, e só o STF teria agido com espírito contrarrevolucionário.
§ 09

Insights

3 itens

Quote do dia

"“You've built a surveillance system,” said a staff attorney at the EFF in 2000. “This is just another way the government can track people's moments, not necessarily with their knowledge.”" — The Optimist, Keach Hagey

O alerta da EFF era sobre a localização por celular, a tecnologia em que o jovem Sam Altman apostou na Loopt. Vinte e seis anos depois, a Noruega faz a mesma pergunta aos óculos de IA, e Washington entrega a IA a quem trabalha profissionalmente com rastreamento.

Conexão do vault

  • Arquivo 1: [[montesquieu]]: os "poderes intermediários", como magistraturas, corpos e corporações, são a infraestrutura contra o despotismo. Eles canalizam o poder e o impedem de ficar "momentâneo e caprichoso".
  • Arquivo 2: [[ordoliberalism]]: os freiburguianos temiam o momento em que o comando público e a concentração privada se juntam num único aparato, e viram em Weimar como a regra de emergência abre caminho para o arbítrio.
  • A conexão: Os freios do dia são os poderes intermediários de Montesquieu: uma câmara de vereadores, um parlamento nórdico, um mercado de seguros. Nenhum deles tem força para parar a IA, mas cada um cria atrito. A força-tarefa de Clayton é o que os ordoliberais temiam: o regulador da concorrência, um ex-sócio da Andreessen Horowitz e o espião-chefe na mesma sala, com prazo de emergência e reportando só ao presidente. Para Montesquieu, a liberdade dependia de deixar o poder lento, e o desenho de Washington foi feito para ser rápido.