Radar · Tec

16.10.26

Sexta-feira Edição nº 195

Ars: FTC sonda os laboratórios

Trump chama o medo de IA de farsa, e a agência de consumo vai olhar a Anthropic e a OpenAI de perto.

§ 01

Manchete do dia

Segundo o Ars Technica, a FTC abriu uma sondagem sobre a Anthropic e a OpenAI. A agência não confirmou, e o relato não diz o que está sendo investigado. A notícia sai depois de Trump classificar de farsa, "hoax", as preocupações com inteligência artificial. Na terça, a Casa Branca tinha esvaziado o CAISI, o centro do NIST que herdou a avaliação de segurança dos modelos. O governo desmontou a porta da frente. Pelo que conta o Ars, alguém entrou pela lateral.

Muita gente pensa que regular IA exige uma lei de IA. Não exige. O mandato da FTC é antigo e serve a qualquer tecnologia: combater prática comercial enganosa ou abusiva contra o consumidor. Foi com ele que a agência multou o Facebook em US$ 5 bilhões em 2019, num país que não tinha, e continua sem ter, lei federal de privacidade. A FTC não precisa saber o que é um modelo de fronteira. Basta comparar o que a empresa promete com o que entrega, e verificar o que faz com os dados de quem usa o produto. Num setor que vende assistente para criança, para paciente e para o advogado que esquece de conferir a jurisprudência, isso já é muito território.

Ainda é cedo para comemorar o freio. A informação tem uma fonte só e não tem escopo. E um governo que chama o risco de farsa pode ter outro motivo para investigar logo as duas empresas que, nesta mesma semana, pediram regulação aos Comuns britânicos. Uma investigação pode servir de freio, e pode servir de recado. O Ars não diz qual dos dois é o caso, e a FTC não diz nada.

De um jeito ou de outro, a pergunta sobre quem vigia os laboratórios saiu do conselho de administração e chegou à repartição pública. Washington nega o risco pela boca do presidente e o investiga pela mão do burocrata.

Ars Technica

§ 02

Destaque autoral — leitura recomendada

A Economist foi olhar os neolabs, a geração de laboratórios de IA fundada por quem saiu da OpenAI, do Google e da Meta. A conclusão: eles levantam fortunas e têm pouco produto para mostrar. A leitura vale pelo que o texto deixa ver em volta. A Folha registra que as apostas em IA aumentam o risco dos fundos de venture capital, e o TechCrunch conta que até a Benchmark, a mais ortodoxa das gestoras do Vale, admite que a IA corrói o pacto de não investir em empresas rivais. Esse pacto era a regra que garantia ao fundador que o investidor não financiaria o concorrente. Quando o capital de risco quebra as próprias regras para não ficar fora da onda, já não está escolhendo vencedores. Está comprando um bilhete de cada. The Economist

§ 03

Destaques do dia

5 itens
  1. FTC sonda Anthropic e OpenAI, segundo o Ars — A agência de defesa do consumidor investiga os laboratórios com uma lei antiga, depois que Trump chamou o risco de farsa e a Casa Branca esvaziou o CAISI. A FTC não confirma. Ars Technica

  2. Anthropic dá crachá de funcionário à METR — Segundo TechCrunch, FT e The Information, pesquisadores da METR, ONG que avalia risco de modelos, passaram a trabalhar dentro da Anthropic com acesso que o FT descreve como "employee-like". Até aqui, a avaliação externa funcionava como um fiscal da vigilância sanitária que só pode provar o prato servido no salão. Ele sabe se a comida está ruim, mas não vê a cozinha. A METR agora entra na cozinha: vê o modelo antes do acabamento, as versões que não foram lançadas, os testes que a empresa roda para si mesma. A Anthropic tinha proposto esse avaliador embutido como primeiro degrau do controle sobre o ritmo da IA. A promessa de setembro virou prática.

    A ressalva cabe na mesma imagem. O fiscal entrou porque foi convidado, e quem convida também escolhe quando a porta fecha. Mesmo assim, há um ganho real: daqui em diante, o laboratório que recusar a mesma porta terá de explicar por quê. TechCrunch

  3. G7 simula ataque de IA contra bancos — O FT informa que as economias do G7 vão fazer exercícios com ataques simulados de IA ao sistema bancário. Na Índia, o CERT-In, a equipe nacional de resposta a incidentes, emitiu alerta "crítico" sobre agentes de IA com acesso a dados confidenciais de empresas, segundo o Times of India. Os dois casos têm algo em comum: o agente deixou de ser tratado como produto e passou a ser tratado como contraparte, uma entidade com credencial, acesso e capacidade de agir dentro do sistema.

    O teste de estresse bancário nasceu depois de 2008, quando a crise já tinha custado o que custou. Este vem antes do primeiro grande incidente, e essa é a novidade. Os bancos centrais, que costumam chegar depois do fato, desta vez chegaram primeiro. Financial Times

  4. FAA quer ser sócia do fornecedor de IA — O Politico informa que a agência americana de aviação busca participação acionária numa empresa de IA que atua no controle de tráfego aéreo. O precedente existe: em 2025, Washington ficou com cerca de 10% da Intel. Mas uma fábrica de chips não é uma torre de controle. Aqui o Estado compra um pedaço do software que decide a distância entre dois aviões.

    O argumento a favor é razoável. Infraestrutura crítica não deveria depender de uma startup que pode quebrar, ser vendida ou mudar de dono por capricho de um fundo. O problema está na outra ponta. A FAA certifica o sistema que vai usar, e passaria a ser também acionista de quem o fabrica. O fiscal vira sócio. Politico via Google News

  5. OpenAI acelera a venda de anúncios — Segundo a The Information, a OpenAI contratou gente da Meta e cortou preços para fazer a publicidade no ChatGPT andar mais rápido. No mesmo dia, o Verge informa que o ChatGPT passa a ler as abas abertas do Chrome do usuário. Mais contexto vale mais por anúncio, e a OpenAI foi buscar esse ofício justamente na casa que o inventou.

    O assistente foi vendido como um serviço que trabalha para quem pergunta. Agora vende a atenção de quem pergunta para quem paga. É o modelo de negócio que a FTC conhece melhor do que ninguém. The Information

§ 04

As vozes

1 item
  • Gary Marcus: as ações de tecnologia caíram forte em 15/10, e a CoreWeave, endividada, perdeu mais de 15% num só dia. É a tese de sempre, de que a conta da IA generativa não fecha, agora com o pregão como prova. Interessa como eco: o Radar de ontem já tratou da queda e do crédito de IA. A novidade de hoje está em outro lugar. Os neolabs da Economist captam fortunas enquanto quem empresta já cobra mais caro. Substack
§ 05

Cruzamento Brasil-mundo

O G7 e a Índia passaram a tratar o agente de IA como risco de infraestrutura crítica, no mesmo vocabulário de quem fala de banco e de rede elétrica. No Brasil, a CNN Brasil informa que um juiz americano citou como referência uma decisão do Judiciário brasileiro sobre uso de IA. A matéria não foi localizada além da manchete, e o caso não está descrito. Ainda assim, o sentido do fluxo chama atenção. O Brasil costuma importar jurisprudência americana sobre tecnologia. Desta vez, segundo a CNN, a decisão fez o caminho inverso. As salas de controle de risco ficam no Norte, mas a regra de uso pode sair de qualquer tribunal que tenha decidido primeiro. CNN Brasil

§ 06

Sinal fraco

Da carta aberta à perícia. Na terça, foram 406 cientistas assinando uma carta. Hoje, a METR trabalha com crachá dentro da Anthropic, a FTC investiga, segundo o Ars, o G7 simula ataques a bancos e o CERT-In indiano emite alerta. A diferença não está no tom. Uma carta pede que alguém faça alguma coisa. Uma perícia faz. A segurança de IA está trocando o abaixo-assinado pelo laudo, e o laudo tem uma vantagem sobre a carta: alguém precisa responder a ele.

A lista de proibições ficou de mão dupla. A Reuters, citada pelo Google News, informa que a China propõe pôr 40 tecnologias de IA, biotecnologia e energia solar na sua lista de controle de exportação. Os detalhes não foram divulgados. Pelo TechCrunch, a SK Hynix negocia licenças para levar equipamento à sua fábrica chinesa em troca de construir uma unidade nos EUA. Por anos, o controle de exportação de tecnologia foi um instrumento americano. Agora Pequim copia o instrumento, e Washington troca licença por investimento. O que era sanção virou moeda.

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Para ler depois

2 itens
§ 08

Insights

3 itens

Quote do dia

"The fear manifested most bizarrely in the company's governance structure, in which a for-profit subsidiary was controlled by a nonprofit board with fiduciary duty to no investor but rather "to humanity."" — The Optimist, Keach Hagey

A primeira resposta à pergunta sobre quem vigia o laboratório foi um conselho com dever fiduciário para com a humanidade, e ele durou até novembro de 2023. A resposta de hoje vem de fora e tem endereço: uma agência de consumo, uma ONG com crachá, um exercício do G7.

Conexão do vault

  • Arquivo 1: [[Lei, Engenharia e Plataforma — Como os Vazamentos de Nudes Deixaram de Ser Epidemia]] — Os vazamentos de fotos íntimas só pararam quando três camadas agiram juntas: a lei deu nome ao crime, a engenharia trouxe o 2FA e as plataformas baniram quem redistribuía. Nenhuma das três, sozinha, teria fechado o problema.
  • Arquivo 2: [[A Plataforma Se Chamava Rousseau — Decisão Sem Autoria]] — Casaleggio pregava acabar com os intermediários e acabou construindo uma associação privada dona da plataforma, do cadastro de filiados e das perguntas postas em votação. Ela só prestou contas quando o Garante italiano a multou.
  • A conexão: O caso Rousseau mostra o que acontece quando uma plataforma se governa sozinha e decide em nome de todos, sem que se saiba quem escreveu a pergunta. O caso dos vazamentos mostra o caminho de saída, com três camadas de fora apertando ao mesmo tempo. O dia de hoje tem as três esboçadas em torno dos laboratórios: a FTC faz o papel da lei, a METR o da perícia técnica, o G7 o do teste de sistema. Falta saber se elas chegam a se ajustar entre si, ou se cada uma age sozinha e o problema continua aberto.