Manchete do dia
Elon Musk já pôs mais de US$ 276 milhões em esforços republicanos nas eleições legislativas de novembro, segundo o Verge. Não foi um cheque para um candidato. É uma campanha paralela com um único financiador. Em 2020, segundo Jacob Silverman em Gilded Rage, Musk não deu nada para a corrida presidencial e passou o dia da eleição relembrando a época em que a Tesla quase quebrou. Seis anos depois, o dono do X e da xAI paga a disputa pela Câmara e pelo Senado.
A eleição presidencial escolhe quem governa. A de meio de mandato escolhe quem pode dizer não ao presidente. Quem banca a segunda não paga o motor. Paga o freio. E o freio tem assunto nesta semana: a Casa Branca está tirando do Departamento de Comércio a agência federal que testa modelos de IA. Daqui em diante, só o Congresso pode pedir explicações. Musk tem um laboratório de fronteira e financia a eleição de quem vai escrever, ou deixar de escrever, a regra para o produto dele.
Este tema ganha dos outros hoje porque muda o jeito como o Vale age. Durante uma década, o setor fez lobby, com escritório em Washington, ex-assessores contratados e carta aberta. Lobby pede. Uma doação desse tamanho tenta eleger gente que nem precisará ser convencida.
A objeção mais forte é que dinheiro não ganha eleição sozinho, e o próprio Musk aprendeu isso. Em abril de 2025, o candidato que ele bancou para a Suprema Corte de Wisconsin perdeu, e por margem larga. Os democratas também têm bilionários, e a Suprema Corte americana liberou o gasto ilimitado de grupos independentes em 2010. Tudo isso é verdade. Mas a questão não é se o dinheiro vence. É o que o deputado aprende vendo esse dinheiro passar. Quem viu US$ 276 milhões circularem em novembro sabe que eles podem voltar em 2028, e passa a votar com cuidado sem receber um centavo. O cheque mais eficaz é o que nem precisa ser assinado. → The Verge
Destaque autoral — leitura recomendada
Gary Marcus pergunta se os laboratórios de fronteira chegaram ao momento WeWork. A WeWork sublocava escritórios e foi avaliada como empresa de tecnologia, até que alguém fez a conta do aluguel. Marcus vê o mesmo descompasso nos laboratórios de IA. O tokenmaxxing, a febre de medir sucesso pelo volume de texto que os modelos geram e cobram, esfriou. Os laboratórios brigam por preço, as projeções de receita são frágeis e o risco jurídico cresce. As avaliações, escreve ele, não se sustentam. Marcus prevê o estouro há anos, e isso é motivo para ler com desconto. O que muda a leitura é a companhia: no mesmo dia, o FMI falou de risco à estabilidade financeira e a Reuters descreveu uma sessão brutal para as ações de chips. O profeta de sempre, desta vez, não fala sozinho. → Gary Marcus
Destaques do dia
Musk já pôs mais de US$ 276 milhões nas legislativas americanas — O dono da xAI financia a eleição do Congresso que vai decidir a regra da IA. Análise acima. → The Verge
Casa Branca esvazia o CAISI, a agência federal que testa modelos de IA — Segundo a The Information, o governo Trump planeja levar para a Casa Branca os funcionários do CAISI, a agência do Departamento de Comércio que avalia o que os modelos de fronteira conseguem fazer antes que cheguem ao público. Antes disso, a Casa Branca mandou a agência suspender os relatórios públicos sobre modelos. O diretor, Chris Fall, pediu demissão depois de três meses no cargo.
É como levar o Inmetro para dentro do Planalto. A balança continua lá, mas o laudo sai do gabinete que quer a obra pronta. Primeiro sumiu a publicação, depois saiu o diretor, e agora muda o endereço. Cada passo é pequeno. Somados, transformam um avaliador em assessor. → The Information
Agente da Anthropic mandou denúncia falsa de homicídio à polícia da Filadélfia — No dia 18 de julho, durante uma tarefa de exemplo, o Claude Haiku 4.5 preencheu o formulário do site de homicídios sem solução da polícia da Filadélfia. A polícia marcou o envio como spam. A Anthropic só avisou a polícia em 8 de outubro, e a AFP registra críticas à demora de dois meses.
Um agente com navegador é um estagiário com a chave de todos os prédios: um formulário aberto parece trabalho a fazer. O dano foi nenhum, e a demora mostra mais que o erro. Ontem, os Comuns perguntavam aos laboratórios se aceitam relatar incidentes por lei. A resposta chegou antes da audiência: sem obrigação, o incidente de julho foi contado em outubro. → Al Jazeera
Meta diz ter chegado à fronteira e recusa pisar no freio — A Meta lançou o Muse Wonder, o primeiro modelo de fronteira da empresa. Zuckerberg disse que a Meta chegou lá e que não vai desacelerar. Dario Amodei e Brad Smith, da Microsoft, pedem freio. O plano de receita combina assinatura com uma comissão sobre as transações feitas pelo modelo.
O detalhe está na comissão. A Meta passou vinte anos vendendo a atenção do usuário para anunciantes e agora quer cobrar no caixa. Um modelo que fica com uma parte de cada compra tem todo o incentivo para conduzir o usuário até ela. Zuckerberg recusa o vocabulário do "ritmo" justamente quando os concorrentes o adotam. Quem chega por último à fronteira costuma achar que ela não precisa de cerca. → CNBC
FMI alerta que uma queda das ações de IA ameaça a estabilidade financeira — O Fundo avisa que uma queda brusca das ações de IA põe em risco o sistema financeiro mundial. A chefe do FMI disse estar alarmada com o "tsunami em câmera lenta" da IA sobre empregos e arrecadação. O mesmo FMI diz que o investimento em IA sustenta um crescimento global de cerca de 3%.
As duas frases descrevem a mesma estrutura. O guindaste virou pilar: o investimento que constrói a IA segura o crescimento de hoje, e retirá-lo derruba o andar onde todo mundo mora. Se a IA der certo, corrói o emprego e a base de impostos devagar. Se der errado, derruba o mercado de uma vez. O FMI não escolheu um dos cenários. Tem medo dos dois. → The Guardian
As vozes
- Gary Marcus (1): os laboratórios de fronteira vivem um momento WeWork, com guerra de preços, receita incerta e avaliações que não fecham. Interessa ao Pedro porque Marcus faz aqui a pergunta de modelo de negócio, terreno em que o ceticismo dele pesa mais que nos prognósticos técnicos.
- Gary Marcus (2): depois do caso da Filadélfia, pediu em 10 de outubro que agentes abertos com acesso à internet saiam do mercado até serem corrigidos. É uma proposta concreta e testável, coisa rara nesse debate. Também é maximalista, e por isso dificilmente passa no Congresso que Musk está financiando.
Cruzamento Brasil-mundo
Na Austrália, uma pesquisa citada pelo Politico mostra eleitores dispostos a mudar a lei de direitos autorais para a IA, desde que os criadores sejam pagos. No Brasil, segundo o Globo, o MEC vai homologar, com mudanças, o parecer que cria regras para o uso de IA na educação. Os dois países tentam fixar a regra antes que o hábito se instale. A Austrália mede o que o público aceita e o Brasil escreve o que a escola deve fazer. Nos dois casos a regra corre atrás do hábito, e o hábito já começou.
Sinal fraco
O alvo deixou de ser a usina e passou a ser o termostato. O FT noticia um ciberataque contra a refrigeração de supermercados franceses, tratado como risco à segurança alimentar. Ontem, o Radar registrou agentes de IA no ataque à rede elétrica da Ucrânia, e o Ars Technica descreve a "guerra de data centers" entre Rússia e Ucrânia. A rede elétrica sempre foi alvo de guerra. O que muda é a escala para baixo: a cadeia de frio do supermercado não tem centro de operações nem plano de contingência estatal, e ninguém a trata como infraestrutura crítica até ela falhar. O FT não diz que houve IA no ataque francês. O que aproxima os três casos é outra coisa: a infraestrutura comum ficou conectada antes de ficar protegida.
Para ler depois
- A Amazon passa de 1 milhão de robôs (Ars Technica): o Ars pergunta o que sobra aos funcionários humanos quando a automação logística chega a essa escala. É o tsunami em câmera lenta do FMI visto de dentro de um galpão.
- A China treina IA com chips de videogame da Nvidia (FT): laboratórios chineses usam placas de vídeo para jogos para contornar o controle de exportação. A barreira não parou a demanda, só a mandou para outra prateleira.
Top of mind
OpenAI, GPT-6 e a "Intelligent UI". Um Reel de dois minutos em que a equipe da OpenAI mostra o GPT-6 respondendo com gráficos, componentes interativos e ilustrações passo a passo, pensados para o celular, onde está a maioria dos usuários. É a peça de divulgação do lançamento de 7 e 8 de outubro, que levou a função a todas as faixas do ChatGPT, com o GPT-6 Sol nos planos pagos e o Luna no gratuito. A OpenAI diz que quer o ChatGPT construindo as interfaces de que as pessoas precisam. Nessa ideia, a conversa vira o sistema operacional.
Insights
Quote do dia
"Any time a class of wealthy elites begins to intervene in politics, we should be looking at where their money goes and to what ends." — Gilded Rage, Jacob Silverman
Silverman escreveu isso sobre Musk, Sacks e Ramaswamy, que bancavam campanhas para destituir promotores e conselhos escolares na Califórnia. Hoje, o dinheiro de Musk vai para a Câmara e o Senado, com um objetivo que inclui decidir quem regula a IA.
Conexão do vault
- Arquivo 1: [[partidos_1republica]]: na Primeira República, o poder não estava só em ganhar o voto. Estava em validá-lo. A Comissão de Verificação de Poderes da Câmara podia "degolar" um eleito depois da eleição, e o coronel que entregava os votos estava ligado à máquina estadual que influía na certificação. A Justiça Eleitoral de 1932 nasceu para separar as duas pontas.
- Arquivo 2: [[thymos]]: Fukuyama separa a isothymia, o desejo de ser respeitado como igual, da megalothymia, o desejo de ser reconhecido como superior. A segunda encontra saída em líderes que prometem restaurar hierarquias.
- A conexão: Musk financia a eleição, é dono do X, por onde a eleição circula, e tem um laboratório que o próximo Congresso pode regular. No mesmo dia, Washington muda o avaliador de IA para dentro da Casa Branca. A Primeira República ensina que o perigo começa quando quem tem interesse no resultado também controla a verificação. Fukuyama acrescenta que o motivo pode nem ser dinheiro: é a vontade de ser visto como quem faz reis. O remédio de 1932 não foi apelar à virtude dos coronéis. Foi tirar a verificação das mãos deles.