A leitura do dia
Nos 25 anos do 11 de Setembro, todo mundo diz que os Estados Unidos reagiram demais. Matt Yglesias diz que reagiram de menos, e ninguém mais no dia vira o consenso desse jeito. McFaul faz o balanço de um mês e Karol propõe uma moldura. Yglesias reconstrói uma decisão e mostra onde ela se perdeu.
Matt Yglesias
Who lost Afghanistan? — Slow Boring
A guerra no Afeganistão era legítima pelo direito internacional e podia ser vencida. A Aliança do Norte derrubou o talibã depressa, e Washington tratou a vitória como encerrada. Com base em Carlotta Gall (The Wrong Enemy) e Steve Coll (Directorate S), Yglesias situa a janela em 2002-03. O Iraque fechou essa janela ao absorver mais de dez vezes as tropas. Sobrou um país dependente do poder aéreo, sem soldados para treinar as forças afegãs e sem política coerente para o Paquistão, que abrigava o talibã. O fracasso veio depois de uma escolha, e não antes dela: "America didn't overreact in Afghanistan. We massively underreacted, and the embarrassing and tragic failure there should be seen as part of the cost of invading Iraq." O surge de Obama funcionou em parte, mas já nasceu com prazo de saída. Com a data marcada, o talibã só precisou esperar do outro lado da fronteira. "The surge feels to me more like an effort to say that we tried than actually trying." A parte mais dura do texto é sobre a imprensa. Os jornais examinaram a logística da retirada de Biden com mais rigor do que examinaram os vinte anos de política que tornaram a guerra impossível de ganhar.
Relevância para Pedro: Para o Meio, a crítica de Yglesias vira uma régua de edição: quanto do espaço vai para o último ato, que tem imagem, e quanto vai para a política que o produziu, que não tem. Ela também rende um PdP sobre o ofício, porque a cobertura brasileira de crises costuma contar a semana da queda e esquecer os anos da decisão.
🔗 Who lost Afghanistan? — Slow Boring
Textos lidos na íntegra
Wayne Karol
How To Actually Talk About Patriotism — Persuasion (série "Liberal Virtues and Values")
Karol parte de um episódio de Star Trek, "The Omega Glory", e de uma pergunta de The Armageddon Rag, de George R. R. Martin: "What if there never was a garden at all?" O culto dos Fundadores, na direita, e o romantismo revolucionário, na esquerda, contam a mesma história. Houve um Éden e depois veio a Queda. "There's something, well, creationist about both the right's Founder-worship and the left's revolution-romanticizing." O patriotismo liberal precisa ser evolucionista. Nesse modelo, o liberalismo é uma mutação que avançou passo a passo, testando regras sem nenhuma autoridade acima delas. Karol rejeita o "America right or wrong" e também o "anti-America right or wrong", e usa o Khmer Vermelho como aviso de onde este último termina. O país lembra alguém criado num lar abusivo: comete hipocrisias, mas persegue um progresso que é real. Tratar esse progresso como se não contasse empurra o país de volta ao seu pior lado. A frase que segura o argumento: "this country that so loves bigness could have both big crimes and big virtues."
Relevância para Pedro: No livro da Nova República, a moldura de Karol permite narrar a Constituinte como uma mutação que funcionou, sem sacralizar 1988 e sem aceitar a leitura de que tudo foi golpe ou conciliação. Ela confirma uma decisão do livro: os avanços da República são reais e não podem ser descontados por causa das hipocrisias.
🔗 How To Actually Talk About Patriotism — Persuasion
Michael McFaul
September Newsletter: Xi Came to Washington. I Went to Australia. — McFaul's World
Trump foi pessoalmente a Andrews receber Xi Jinping, um gesto que antes só tinha feito com Putin. A cúpula não entregou nada sobre o Irã, nada sobre comércio e nada sobre Min Zin, o acadêmico americano detido. "It was heavy on pageantry and light on deliverables." McFaul lista o que a política externa de Trump já deu a Pequim: a guerra com o Irã, a guerra comercial com o Canadá, as ameaças à Groenlândia, os ataques à OTAN e as tarifas. Nas pesquisas do Pew, a China já tem imagem melhor que a dos Estados Unidos na maioria dos países. O acordo entre EUA, Dinamarca e Groenlândia é, nas palavras dele, "old wine in new bottles". Em Sydney, McFaul encontrou aliados frustrados que não querem se afastar de Washington e só pedem previsibilidade. A régua dele: "A 'good meeting' is not a goal in diplomacy, but a means for achieving concrete outcomes for Americans." Para McFaul, nada disso precisa virar o novo normal, porque escolhas de líderes podem ser desfeitas.
Relevância para Pedro: Para uma coluna no Globo sobre diplomacia presidencial, a frase sobre a "boa reunião" serve para medir qualquer cúpula pelo que ela entrega, e não pela foto, e isso inclui as de Lula. A cena de Sydney ajuda o mesmo texto a mostrar o custo de uns Estados Unidos imprevisíveis para quem, no Sul Global, ainda precisa deles.
🔗 September Newsletter — McFaul's World
Leonora Barclay
The Boys Are Alright-Looking But Not Actually Alright — Persuasion
Clavicular tem 20 anos e narra para seus seguidores as tentativas de remodelar o próprio rosto. A mãe confiscou o martelo que ele usava para isso. O "looksmaxxing" nasceu na manosfera, com raízes incel e alt-right, e Barclay o lê como sintoma, não como cuidado com a saúde: "it derives from and feeds the loneliness epidemic." Os números: 54% das novas matrículas em academias em 2025 vieram de jovens de 18 a 24 anos, o mercado de bem-estar masculino deve dobrar até 2030 e 40% da Geração Z diz estar "quase sempre estressada". Homens e mulheres vivem em câmaras de eco separadas, e o padrão de beleza masculino já é tão punitivo quanto o feminino. O fecho de Barclay: "Gen Z men are sadder and lonelier than any generation before them—but damn, they look good while doing it."
Relevância para Pedro: Para o livro Ideologia no Vale, Clavicular é um caso concreto de como a plataforma fabrica ideologia: um garoto de 20 anos transforma a própria dismorfia em renda, e o algoritmo separa homens e mulheres em salas que não se falam. O caso confirma a tese do livro de que o modelo de negócio vem antes da ideologia.
🔗 The Boys Are Alright-Looking But Not Actually Alright — Persuasion
Publicados mas sem acesso
- Matt Yglesias — Cracks in the Republican coalition (Slow Boring)
- Matt Yglesias — The Argument: Europe's liberals are losing on immigration (Slow Boring)
- Niall Ferguson — Niall Ferguson deciphers the Nixon tapes (The Free Press)
Conexões entre as vozes
Yglesias + McFaul. McFaul diz que o recuo americano diante da China foi escolha de Trump e, por isso, pode ser desfeito. Yglesias mostra que essa saída tem limite. O Iraque também foi uma escolha reversível, mas fechou a janela afegã de 2002-03, e o que se perdeu ali não voltou. Lidos juntos, os dois deixam claro que uma escolha só pode ser desfeita enquanto a janela continua aberta.
Karol + Yglesias. Karol descreve um patriotismo que admite crimes grandes e virtudes grandes ao mesmo tempo. Yglesias aplica essa ideia a uma guerra concreta: o Afeganistão foi legítimo e foi mal perdido, e ele não abre mão de nenhuma das duas afirmações. Karol fornece a moral, e Yglesias mostra como ela se aplica na prática.
Cruzamento — do radar ao vault
Wayne Karol — How To Actually Talk About Patriotism × [[antiutopianliberalism]] Tipo (Boden): exploratória
O liberalismo anti-utópico desmontou o jardim posto no futuro e Karol desmonta o mesmo jardim posto no passado, e lidos juntos eles mostram que utopia e mito fundador são uma forma só, o Éden, mudando apenas de ponta no eixo do tempo.
O mapeamento é ponto a ponto. O Éden seguido da Queda corresponde ao blueprint e à telocracia de Oakeshott. A mutação que avança passo a passo, testando regras sem nenhuma autoridade acima delas, corresponde à engenharia gradual e ao falibilismo de Popper. As "big crimes and big virtues" que convivem sem se anular correspondem ao pluralismo de Berlin, que nega qualquer harmonia final. E o Khmer Vermelho no fim do "anti-America right or wrong" ocupa o mesmo lugar que o totalitarismo ocupa no verbete, o de horizonte negativo. O que muda é a vulnerabilidade que o próprio verbete admite, a de que o anti-utopismo vira "anti-projeto" e não consegue mobilizar ninguém em torno de metas comuns. Karol oferece justamente o complemento que falta: um patriotismo que mobiliza sem prometer jardim, nem para trás nem para frente.
Leonora Barclay — The Boys Are Alright-Looking But Not Actually Alright × [[Máquinas de Megalothymia — Thymos, Redes Sociais e a Promessa Moderadora da IA]] Tipo (Boden): exploratória
O ensaio do vault supõe que a rede converte o [[thymos]] ferido em megalothymia coletiva, o "nós contra eles" do populismo; Barclay mostra a mesma máquina convertendo-o numa megalothymia sem inimigo externo, em que o adversário é o próprio rosto.
A estrutura se repete inteira. Do lado do ensaio, há o vácuo de isothymia deixado pelos corpos intermediários e uma plataforma que remunera hierarquia, não pertencimento. Do lado de Barclay, há a "loneliness epidemic" e um garoto de 20 anos que transforma a própria dismorfia em audiência. A diferença está no destino do ressentimento. No ensaio, ele sobe para a política e encontra um líder. Em Clavicular, ele se volta contra o corpo, e a hierarquia que a manosfera promete passa a ser medida em padrão de beleza, não em nação. Isso abre no conceito um canal que o ensaio não mapeou: o vácuo de reconhecimento pode alimentar o populismo, mas também pode produzir um sujeito que compete sozinho, em câmara de eco separada, e nunca chega a formar o "nós".
Ponte com o Brasil
O "criacionismo" de Karol também existe no Brasil, dos dois lados. A direita tem saudade de uma ordem anterior que teria se perdido. A esquerda acha que 1988 foi traído. Os dois supõem um jardim. Ler a Nova República como evolução, sem Éden, é a saída liberal para esse impasse.
Top of mind
Em "O que esses brasileiros sabem" (piauí, 01/10), João Moreira Salles separa compreender de acreditar. Há uma elite que entende muito bem o que Flávio Bolsonaro representa e mesmo assim convoca gente para o 7 de Setembro dele. O ensaio conversa com Karol pelo avesso. O patriotismo evolucionista pede que se conheçam os crimes e que, ainda assim, se acredite no progresso. O grupo descrito por Moreira Salles conhece os crimes e, justamente por isso, deixou de acreditar.