Radar · Voices

13.10.26

Terça-feira Edição nº 192

Ferguson: culpe os avós

§ 01

A leitura do dia

Fukuyama também publicou hoje, e volta à megalotimia, palavra que usa desde 1992 e que Pedro já domina. Ferguson chega com uma tese nova e com números. O título francês de dez anos saiu de 3,22% para 4,87%. A dívida é de 119% do PIB e o crescimento nominal, de 1,9%. Um país que paga de juros mais do que cresce não tem uma crise do euro. Tem uma crise política, e Ferguson escreve que hoje há várias delas estourando ao mesmo tempo.

Os jovens que protestam em Paris, Madri e Bruxelas procuram um culpado. A esquerda aponta os bilionários, a direita aponta os imigrantes, e os próprios jovens aceitam qualquer nome menos o dos avós. Para Ferguson, a explicação é de demografia, e não de ideologia. O Estado de bem-estar europeu foi desenhado para mulheres com 2,5 filhos e para uma vida média de 62 anos. Hoje funciona com 1,25 filho e 79 anos. Os políticos compram a maioria idosa com esse sistema, e a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada em fevereiro, só antecipou a conta dos juros. A imagem que sustenta o argumento é a de um mundo que tem dono e inquilino: "It's the boomers' world, and young people just get to rent in it." Ferguson prevê Le Pen vencendo, Sánchez perdendo e governos com meia-vida de doze meses. Há uma objeção óbvia: os avós pagaram durante décadas pelo sistema que hoje os sustenta. Ela não altera a conta, porque esse contrato foi assinado para outra pirâmide etária. O fecho obriga o leitor a tomar posição: "Mais, non: It's your grandparents."

Relevância para Pedro: Dá o esqueleto de uma coluna do Globo sobre previdência e conflito de gerações. O Brasil faz a mesma aritmética de Ferguson, com a diferença de envelhecer antes de enriquecer e sem a renda europeia para amortecer o choque. O texto também desloca o debate de 2026: o voto idoso deixa de ser só um eleitorado a disputar e passa a ser uma maioria comprada com o orçamento dos mais jovens.

🔗 Why Europe Is Burning — The Free Press


§ 02

Textos lidos na íntegra

Francis Fukuyama

Thymos and American Foreign Policy — Persuasion ("Frankly Fukuyama")

Em 7 de outubro, no Pnyx de Atenas, Marco Rubio elogiou o thumos como o coração do Ocidente. Fukuyama responde que o thumos tem dois gumes. A isotimia, o desejo de ser reconhecido como igual, sustenta a democracia e também a política identitária, de esquerda e de direita. A megalotimia, o desejo de ser reconhecido como superior, produziu Lincoln e Churchill, mas também Hitler e Stálin. Antes de todos eles, produziu Alcibíades e a expedição à Sicília. Trump quer o rosto no monte Rushmore, o Nobel da Paz e o próprio nome no Kennedy Center. "Trump is a perfect example of unconstrained megalothymia." Rubio, para continuar nas graças do chefe, "twist[s] reality like a pretzel". Fukuyama fecha lembrando que o centro da tradição americana é a igualdade escrita na Declaração de Independência, e não o culto aos grandes homens.

Relevância para Pedro: Serve a uma coluna do Globo que leia a política externa de Trump como psicologia do reconhecimento, e não como estratégia. Alcibíades na Sicília é a imagem pronta: uma aventura militar movida pela vontade de glória de um homem só.

🔗 Thymos and American Foreign Policy — Persuasion


Noah Smith

A Nobel for New Keynesian macro, at last! — Noahpinion

Ed Prescott, criador da teoria dos ciclos reais de negócios, comparou a eficácia da política monetária para trazer prosperidade à de uma dança da chuva para trazer chuva. O Nobel de Bob Hall e Mike Woodford é a resposta a ele. Em 1978, Hall mostrou que as variações do consumo são imprevisíveis, porque as pessoas já gastam de acordo com o que esperam do futuro. Woodford montou um modelo simples, com preços rígidos à maneira de Calvo e uma regra de juros, que virou a ferramenta padrão dos bancos centrais. O modelo passou por um primeiro teste em 2008, com o forward guidance e o QE. A prova de campo veio em 2022-23, com a "desinflação imaculada": a inflação americana caiu de 9% para cerca de 3% sem uma alta grande do desemprego. As empresas pararam de subir preços quando perceberam que o Fed falava sério. "All it required was a clear Fed commitment, and forward-looking expectations."

Relevância para Pedro: Confirma a leitura do capítulo do Plano Real no livro da Nova República. A URV foi engenharia de expectativas feita antes de a teoria ganhar o Nobel. Smith fornece a linhagem acadêmica (Hall 1978, Woodford, Calvo) para situar Persio Arida, André Lara Resende e a credibilidade construída depois pelo Copom.

🔗 A Nobel for New Keynesian macro, at last! — Noahpinion


Matt Yglesias

Live your values, and adopt values to live by — Slow Boring

Republicação de um texto de 2025, liberado do paywall por causa do feriado. Yglesias descreve o eleitor progressista exemplar, com painéis solares, carro híbrido e 10% da renda doados à GiveWell, que mesmo assim põe os filhos em escola privada e mora em bairro exclusivo. A elite liberal elogia o serviço público e foge dele. Para Yglesias, a escola pública do bairro só melhora se quem tem capital social entrar nela primeiro. As cidades, por isso, deveriam priorizar o usuário comum dos espaços públicos. Ele propõe chegar à coerência pelo "equilíbrio reflexivo" de Rawls, ajustando princípios e vida concreta até que um caiba no outro. Também é mais duro do que os colegas: "a lot of the people we're talking about are living their values and their values are just bad."

Relevância para Pedro: Dá a uma coluna do Globo o retrato da classe média brasileira que saiu da escola pública e do SUS há décadas e continua a defender os dois no discurso. O caso de Yglesias é americano e recente. A fuga brasileira é mais antiga e mais completa, e por isso a tese dele de que alguém precisa entrar primeiro aqui teria de valer para uma geração inteira.

🔗 Live your values, and adopt values to live by — Slow Boring


§ 03

Publicados mas sem acesso

2 itens
  • Timothy Garton Ash — The more Putin escalates his attacks on Europe, the more Europe should support Ukraine (Guardian)
  • Noah Smith — Why Donald Trump won in 2024 (Noahpinion, reedição)

§ 04

Conexões entre as vozes

Smith + Ferguson. O mecanismo que deu ao Fed a desinflação sem recessão é o mesmo que hoje pune Paris, só que funcionando ao contrário. Quando o mercado acredita no compromisso, a inflação cai sem dor. Quando deixa de acreditar no compromisso fiscal, os juros sobem sem que haja calote. Lidos juntos, os dois textos mostram uma coisa que nenhum mostra sozinho: credibilidade exige um compromisso que dure mais do que o governo que o assume. Um governo com meia-vida de doze meses não tem como prometer nada a um mercado que precifica dez anos.

§ 05

Cruzamento — do radar ao vault

Niall Ferguson — Why Europe Is Burning × [[A Velocidade da Nova República — Por Que Nenhum Consenso Se Forma]] Tipo (Boden): transformacional

Lido contra Ferguson, o Estado de bem-estar europeu que o ensaio usa como contraexemplo do Brasil acabou no modelo que o ensaio chama de brasileiro, o consenso por inércia eleitoral, e com isso a durabilidade deixa de ser a virtude do consenso e vira o defeito dele.

O ensaio do vault separa dois tipos de consenso. Há o intermediado, como o NHS saído das friendly societies e o ordoliberalismo processado por sindicatos e igrejas, que "a sociedade defende para sempre". E há o brasileiro, o Bolsa Família, que sobrevive por "plebiscito permanente implícito" porque ninguém ousa tirar. Ferguson encaixa ponto por ponto nesse esquema, só que com o sinal trocado. O pacto foi construído devagar e com base social, como manda o ensaio, mas foi construído para outra pirâmide etária (2,5 filhos, 62 anos de vida média). Hoje se sustenta como o Bolsa Família se sustenta: uma maioria que vota o mantém e nenhum político se arrisca a mexer. A regra que o ensaio quebra é a de que "defender para sempre" é sinal de consenso saudável. Em Ferguson, essa defesa é justamente o que impede a revisão e manda a conta para quem ainda não vota em bloco. Para o livro da Nova República, isso muda o fecho do argumento: a pergunta passa a incluir de quem é o consenso quando a demografia vira, além de se ele se forma.


Matt Yglesias — Live your values, and adopt values to live by × [[A Avalanche de Consenso — Quanto Custa Começar Uma]] Tipo (Boden): exploratória

A fuga da classe média da escola pública é uma cascata que não é rasa: cada saída piora a escola, de modo que imitar quem saiu antes passa a ser informação verdadeira. Por isso Yglesias precisa de gente de carne e osso que entre primeiro, e um sinal público barato, que no ensaio derruba qualquer cascata, aqui não serve.

O laço é de forma, a fila de decisões em ordem de chegada (Warburg). As famílias que escolhem escola estão na posição dos leitores de Bikhchandani: olham quem foi antes e seguem. O "alguém precisa entrar primeiro" de Yglesias corresponde à assimetria de partida que o ensaio mostra ser o único insumo escasso da avalanche. O mapeamento se rompe num ponto, e é esse ponto que estica o conceito do vault. Na caixa de comentários, a adesão não muda o objeto, e por isso o ensaio pode concluir que "a ordenação distorce a percepção do tamanho, não a do mérito" e que a cascata é frágil. Na escola, cada adesão muda o mérito, porque os colegas, a cobrança dos pais e o capital social saem junto com a família. O ensaio ganha uma condição de fronteira: a avalanche só é frágil quando quem adere não altera aquilo a que adere. Isso explica por que a fuga brasileira, mais antiga e mais completa, não se desfaz com argumento, e por que a tese de Yglesias, no Brasil, exige uma geração inteira entrando de volta ao mesmo tempo.

§ 06

Ponte com o Brasil

A conta de Ferguson chega ao Brasil em versão mais dura: previdência pesada e transição demográfica rápida, num país de renda média. O Nobel de Hall e Woodford relê o Plano Real como a prova brasileira de que uma âncora de expectativas funciona. O risco fiscal de hoje mostra que essa mesma âncora também se perde.

§ 07

Top of mind

A OpenAI lançou o GPT-6 com o que chama de "Intelligent UI": o modelo responde com imagens, gráficos e componentes interativos, de forma nativa no celular. Nenhuma das vozes de hoje trata do assunto.