Radar · Voices

03.10.26

Sábado Edição nº 186

Liberais cederam a emoção

§ 01

A leitura do dia

Noah Smith explica por que Trump fracassou, mas a explicação só vale para os Estados Unidos. Sam Kahn e Andrew Sullivan descrevem dois políticos em cena, Jon Ossoff e Andy Burnham, e não dizem por que a cena funciona. Timothy Garton Ash dá a teoria que falta aos dois e faz a pergunta que serve a qualquer democracia na véspera de votar: por que os liberais perdem no terreno das emoções. O Brasil vota amanhã.

A entrevista foi dada à Der Spiegel na véspera dos 36 anos da unificação alemã, e a imagem que a organiza é de cozinha. "Intelectualmente, o que a AfD cozinha é goulash — ou, se preferir, solyanka": sopa de sobras, sem receita. Garton Ash recusa a explicação de sempre para o sucesso do partido no Leste, a de que faltou à antiga RDA experiência democrática. Põe a culpa na transformação pós-1990 e no fim dos partidos de massa. Se a doutrina é sopa, o que sustenta o partido é outra coisa, e ele vai buscá-la em Karl Loewenstein, que escreveu em 1937 que o fascismo não é ideologia, é técnica política que trabalha sobre emoções. Os liberais deixaram esse campo para os populistas. A objeção óbvia é que patriotismo já é território da direita radical. Garton Ash responde com um "patriotismo liberal" cívico e inclusivo, defendido por políticos que vão ao povo, e dá como modelos Péter Magyar, na Hungria, e Burnham. O rótulo "pós-liberalismo" o faz rir: "quando você não sabe exatamente o que quer dizer, chama de 'pós'". O diagnóstico mais duro é outro: o liberalismo hoje é o ancien régime, o establishment. Garton Ash vê ainda a IA como poder em mãos privadas, acima dos Estados, e prevê "um mundo de desordem e guerras". A postura que propõe diante disso tudo é pessimismo do intelecto e otimismo da vontade. E deixa um critério de bolso: "Humor lost, everything lost."

Relevância para Pedro: Para a coluna do Globo depois do 1º turno, o teste de Garton Ash organiza o campo: algum candidato tentou um registro emocional que não fosse o medo ou a raiva? No livro da Nova República, a frase sobre o ancien régime confirma a leitura de que o centro democrático de 1988 virou o establishment contra o qual se vota. No livro Ideologia no Vale, a IA como poder privado acima dos Estados traz de fora do Vale a formulação que o livro precisa enfrentar.

🔗 History, Germany, populism and global polycrisis — History of the Present


§ 02

Textos lidos na íntegra

Noah Smith

The second Trump presidency is a world-historic failure — Noahpinion

Por alguns meses, Elon Musk serviu de "escudo ablativo": absorveu a culpa pelo desmonte da USAID e queimou no lugar de Trump. O escudo se foi, e Noah deixa de lado o catálogo de ultrajes para perguntar por que o governo fracassou. A aprovação está em mínimos históricos, eleitores republicanos reprovam Trump no custo de vida e os mercados de previsão dão a Câmara aos democratas, com mais de 50% de chance no Senado. Bastava repetir o primeiro mandato: gritaria, fronteira, tarifas sobre a China. O estrago veio em duas frentes. A primeira é a inflação: as tarifas, o déficit e a Guerra do Irã levaram a gasolina de US$ 3 para mais de US$ 4, na "guerra mais impopular desde o Vietnã". A segunda é a imigração. A fronteira fechou, mas a deportação em massa com perfilamento racial devolveu os hispânicos aos democratas, e a agenda racial passou a mirar também indianos com visto H-1B. Para Noah, foram erros evitáveis, "por uma mistura de razões ideológicas e pessoais". O fecho é seco: o patrimônio de Trump cresceu US$ 5 bilhões, com memecoins como canal de propina, e "se o objetivo era só ficar rico e poderoso, a presidência foi um sucesso espetacular".

Relevância para Pedro: Para a coluna do Globo, Noah oferece a figura do populista que perde por excesso ideológico, e não por força da oposição, e a pergunta brasileira é se o bolsonarismo com Flávio na cédula consegue "repetir o primeiro mandato" ou herda os erros. No Meio, as memecoins usadas como canal de propina dão uma pauta concreta de tecnologia e poder.

🔗 The second Trump presidency is a world-historic failure — Noahpinion


Sam Kahn (Persuasion)

Jon Ossoff Has Figured Out How to Stick It to Trump — Persuasion

Quando era estudante, Ossoff escreveu "Wuss" (frouxo) num bilhete ao diretor da escola, que tinha cancelado as aulas por causa de uma nevasca branda na Geórgia. O senador de hoje é o mesmo garoto. Kahn diz que os democratas nunca fizeram campanha de fato contra Trump: Hillary citava Sun Tzu, Biden ficou no porão e Harris apostou na "alegria". Ossoff, que lidera os mercados de apostas para 2028, confronta o governo nas audiências de comitê, e os cortes viralizam no YouTube. Admite que o sistema é viciado e oferece em troca uma reforma no estilo de Obama e decência básica. A mensagem é nostálgica. Houve uma América certa nos anos Clinton e Obama, o verme entrou com Bush II e com a decisão Citizens United, e Trump é só o sintoma. Kahn chama isso de "a vingança dos certinhos". O limite, segundo ele, é que Ossoff não tem ironia nem humor, num país que prefere o trambiqueiro simpático.

Relevância para Pedro: No livro da Nova República, a nostalgia de Ossoff tem a mesma estrutura da nostalgia brasileira, e obriga a perguntar se houve um Brasil certo até 2013. Na coluna do Globo, a oposição entre o certinho e o trambiqueiro simpático serve para ler o 1º turno.

🔗 Jon Ossoff Has Figured Out How to Stick It to Trump — Persuasion


Andrew Sullivan

Emily Eakin On What Postmodernism Wrought — The Weekly Dish

No congresso trabalhista em Liverpool, o novo primeiro-ministro britânico fez uma elegia ao país anterior a Thatcher e ao 11-plus, o exame que abria a escola seletiva aos filhos da classe operária. Sullivan leu o discurso de Andy Burnham como política de classe de bom humor: "nada de woke, só a velha solidariedade de classe somada a patriotismo genuíno". E pôs Burnham ao lado de Zohran Mamdani como socialistas felizes, que funcionam pela performance. Sullivan não diz que a performance substitui o programa. Diz que ela leva longe.

Relevância para Pedro: Na coluna do Globo, Burnham é o contraexemplo, vindo da própria esquerda, do que Pedro critica no identitarismo, e é também o modelo de Garton Ash visto em ação. A pergunta que fica para a coluna é se existe no Brasil um candidato de esquerda que fale de classe sem a gramática identitária.

🔗 Emily Eakin On What Postmodernism Wrought — The Weekly Dish


Ben Thompson / Andrew Sharp

Dots and Question Marks (This Week in Stratechery 2026.40) — Stratechery

Os apps sempre foram o destino do usuário. Para Thompson, o agente transforma o app em meio: os agentes são "os agregadores definitivos", e oferecê-los é o maior prêmio da tecnologia. Algo como o Muse, da Meta, poderia agregar os próprios agregadores e virar o produto mais valioso do mundo. Thompson trata a Meta Enterprise Platform como distração e pergunta quem é o cliente. Sharp registra que o Dev Day da OpenAI trouxe de volta a bagunça de marca e de produto, com os "dots" disponíveis só no plano pro.

Relevância para Pedro: No livro Ideologia no Vale, a tese de Thompson põe a próxima concentração de poder uma ordem acima do Google e do Facebook, porque o agente fica entre o usuário e todos eles.

🔗 Dots and Question Marks — Stratechery


Matt Yglesias

How blue-state Republicans can be relevant again — Slow Boring

Giuliani em Nova York e Riordan em Los Angeles foram prefeitos republicanos que governaram cidades democratas. Para Yglesias, o caminho deles continua aberto e é fácil: guerra cultural para ganhar a eleição e economia pró-negócio para governar. Os republicanos dos estados azuis não o percorrem por três motivos. Trump virou problema pessoal e local de cada candidato. Parte do partido quer ver o estado azul "punido". E o zoneamento urbano passou a ser lido como guerra cultural, o que deixa o conservadorismo antidensidade, nas palavras dele, como "um movimento de excêntricos, e não um que resolve problemas". O mailbag abre com outro assunto: Yglesias elogia o acordo bipartidário de reforma do licenciamento no Senado e admite que julgou mal Sheldon Whitehouse.

Relevância para Pedro: No Meio ou na coluna do Globo depois da eleição, os três males cabem numa pergunta sobre a centro-direita paulista: o líder nacional também vira problema local, e a vontade de punir o adversário atrapalha a pauta de quem governa?

🔗 How blue-state Republicans can be relevant again — Slow Boring


§ 03

Publicados mas sem acesso

5 itens
  • Ben Thompson — Apps, Agents, and Aggregation (Stratechery)
  • Ben Thompson — One More Note on Agents, Meta Connect, Meta Enterprise Platform (Stratechery)
  • Ben Thompson — OpenAI Dev Day, Dot and OpenAI's Product Transition, Sign In With ChatGPT (Stratechery)
  • Ben Thompson — An Interview with Jason Del Rey About Muse, Amazon, and Walmart (Stratechery)
  • Andrew Sullivan — Dishcast com Emily Eakin (áudio)

§ 04

Conexões entre as vozes

Garton Ash, Kahn e Sullivan. Ossoff e Burnham mostram duas formas de recuperar a emoção que, segundo Garton Ash, os liberais perderam. Ossoff vai pela raiva certinha e sem ironia, Burnham pelo patriotismo de classe bem-humorado. Kahn e Sullivan não dizem qual dos dois caminhos vale mais. O critério de Garton Ash decide entre eles: "Humor lost, everything lost." Ossoff teria a raiva, mas não o riso.

Garton Ash e Thompson. Os dois olham para a mesma concentração de poder, a IA acima dos Estados e o agente que agrega os agregadores. Thompson a trata como o maior prêmio da tecnologia, e Garton Ash como uma das causas da desordem que prevê. A leitura conjunta mostra que o prêmio do Vale e a ameaça do historiador são o mesmo objeto.

§ 05

Cruzamento — do radar ao vault

Timothy Garton Ash — History, Germany, populism and global polycrisis × [[A Economia Não É Suficiente — Thymos, Incorporação e o Erro Materialista da Esquerda]] Tipo (Boden): combinatória

Lido ao lado do ensaio, o patriotismo liberal cívico que Garton Ash receita é a oferta que perdeu no entre-guerras britânico, e o exemplo que ele mesmo escolhe, Burnham, funciona porque faz outra coisa: soma reconhecimento cívico e reconhecimento de classe.

O mapeamento é ponto a ponto. Garton Ash culpa a transformação pós-1990 e o fim dos partidos de massa, e o ensaio dá a isso o nome de correia de transmissão rompida, os corpos intermediários que convertiam vida material em dignidade. A técnica emocional de Loewenstein é o terceiro erro do ensaio visto do outro lado, a direita ocupando o campo do thymos que os outros deixaram. A diferença está no remédio. O ensaio mostra os Liberais perdendo, entre 1918 e 1924, com uma isothymia só cívica, para a isothymia de classe do Labour. Burnham, na leitura de Sullivan, junta as duas: "velha solidariedade de classe somada a patriotismo genuíno".


Ben Thompson — Dots and Question Marks × [[A Plataforma Se Chamava Rousseau — Decisão Sem Autoria]] Tipo (Boden): combinatória

O agente de Thompson tem a forma da plataforma de Casaleggio: para o usuário, ele se apresenta como o fim dos intermediários; para quem o oferece, é o centro de uma organização em estrela, o intermediário acima de todos os que removeu.

O elo é de forma, não de tema. O nome da forma é reintermediação, e o vault já a tem nomeada em [[sociedade_rede]]. Casaleggio pregava eliminar os partidos e descrevia, no mesmo parágrafo, uma organização "em estrela", com centro, que uma associação privada possuía. Thompson descreve o agente que rebaixa o app de destino a meio, e chama de maior prêmio da tecnologia justamente o posto central. A diferença é que Thompson diz em voz alta o que Casaleggio chamava de emancipação. O caso italiano mostra o passo seguinte, que Thompson não discute: quem fica no centro redige as perguntas, e quem está na ponta só ratifica.

§ 06

Ponte com o Brasil

Na véspera do 1º turno, a pergunta de Garton Ash vira conta de comparecimento. Se é a emoção que leva o eleitor à urna, a abstenção mede quem perdeu o campo emocional, e Antonio Lavareda a aponta como o único fator capaz de afastar o resultado das pesquisas.

§ 07

Top of mind

Lavareda disse ao NeoFeed, em 02/10, que a abstenção é "o único fator" que fará as urnas diferirem das pesquisas, e que ela pesa mais contra Lula do que contra Flávio Bolsonaro. É o avesso do Ossoff de Kahn: lá se mobiliza o eleitor pela raiva, aqui o eleitor provável se define por não ir votar. A nota do vault "Likely voter e abstenção" já está ligada.