Radar · Voices

11.10.26

Domingo Edição nº 190

Europa, o contrapeso

📡 RADAR VOICES — 2026-10-11

§ 01

A leitura do dia

McFaul escreveu o melhor diagnóstico do dia. Garton Ash escreveu a melhor resposta. McFaul mostra quanto Trump cobrou para largar a Ucrânia, e o texto acaba aí. Garton Ash pergunta quem vai conter a Rússia agora que Washington saiu, e responde com uma regra histórica que continua valendo depois desta semana.

A regra vem de um livro alemão, Warum Russland nicht aufhören wird (Por que a Rússia não vai parar), de Schulze Wessel. A expansão russa sempre teve a ajuda de outras grandes potências e só parou quando encontrou uma força igual e contrária. Putin disse em 2016 que "a fronteira da Rússia não termina em lugar nenhum". Garton Ash parte daí. A guerra híbrida contra a Europa quer quebrar o apoio a Kiev, e por isso a única defesa que funciona é dobrar esse apoio. Com os Estados Unidos de Trump fora desse papel, a força contrária tem de ser europeia, com a Alemanha no centro. Os números do tracker do Instituto Kiel mudam a imagem que se tem da guerra. A Alemanha deu o dobro do Reino Unido e da França. Mandou 19 sistemas de defesa aérea, cinco deles Patriots, dois a mais que os americanos. Merz foi de trem a Kiev em 3 de outubro. Em 2028 o gasto militar alemão chega a €154 bilhões, perto do orçamento militar russo. A Europa já dá mais ajuda que os Estados Unidos, e suas economias somadas são dez vezes maiores que a da Rússia. Garton Ash prevê o susto do leitor ("Oh no, it's Germany and Russia again!") e responde que cada vez é diferente. Ele também expõe o ponto fraco da própria tese: a AfD, Le Pen, a direita polonesa, uma pesquisa italiana em que mais da metade é contra enviar armas, e os €100 bilhões adicionais que faltam para 2027. A doutrina funciona se os eleitores europeus a sustentarem. O fecho é dele: "Putin acredita que as democracias europeias, decadentes, vão desmoronar diante da determinação de ferro de um homem forte imperialista. Nosso trabalho é provar que ele está errado."

Relevância para Pedro: A coluna do Globo sobre a "neutralidade" de Lula ganha aqui um argumento histórico, e não só moral. Se a expansão russa sempre dependeu de grandes potências que a facilitaram, o Brasil dos BRICS também está no jogo, do lado de quem facilita. A neutralidade deixa de ser distância e passa a ser uma posição.

🔗 The more Putin escalates his attacks on Europe, the more Europe should support Ukraine — History of the Present (publicado antes no Guardian, 10/10)


§ 02

Textos lidos na íntegra

Michael McFaul

Trump Has Shamelessly Abandoned Ukrainians — McFaul's World

Kirill Dmitriev não negociou com diplomatas. Ele cultivou Witkoff e Kushner, dois empresários do ramo imobiliário, com acenos de negócios de até US$ 14 trilhões. A tese de McFaul cabe numa frase: Putin não venceu Trump na negociação, Putin o comprou. A premissa é do próprio Putin, nas palavras de McFaul: o ditador russo acredita que os líderes ocidentais não têm moral, que só se importam com o dinheiro dele e que, portanto, todos têm um preço. Trump entregou a ajuda militar, a Otan e as sanções sem pedir nada em troca. Nesta semana, aliviou sanções para que a Rússia venda diesel ao mundo, inclusive aos Estados Unidos. Também negocia a venda de ativos da Lukoil e de uma fatia do Nord Stream a americanos próximos da família Trump. McFaul explica o mecanismo: "A guerra de Trump no Irã fez os combustíveis dispararem, e agora ele tenta compensar esse custo prolongando a guerra na Ucrânia." Ele reconhece que apoiou a mediação no começo e hoje diz que os ucranianos estariam melhor se Trump não tivesse feito nada. Fecha com o interesse próprio dos americanos: abandonar Kiev enfraquece a dissuasão do Artigo 5 na Europa e a de Taiwan. Para quem acha que dá para ficar de fora, ele responde: "Foi o que muitos americanos pensaram nos anos 1930. Não deu certo."

Relevância para Pedro: O texto rende uma edição do Meio sobre o fio do petróleo: a guerra no Irã encarece o combustível, Trump alivia as sanções ao diesel russo para compensar, e a Ucrânia paga a conta. A apuração dessa edição precisa levantar quanto do diesel que o Brasil importa vem da Rússia antes de pôr o país dentro dessa conta.

🔗 Trump Has Shamelessly Abandoned Ukrainians — McFaul's World


Owen Zidar e Eric Zwick (entrevistados por Yascha Mounk)

Why America's Real Wealth Isn't in Silicon Valley — The Good Fight / Persuasion

Um casamento de 60 milhões de dólares, com Versalhes alugado para a festa. O dinheiro vinha de uma revenda de carros que já estava na terceira geração. A anedota é de Zwick e resume a tese dos dois economistas: a riqueza concentrada dos Estados Unidos não está na tecnologia nem nas finanças. Está com donos de negócios privados comuns: revenda de carros, distribuidora de bebidas, corretora, empreiteira. Um homem vendeu por US$ 2 bilhões uma empresa de portas de garagem em Phoenix. Outro começou retomando carros de inadimplentes e acabou dono de uma das maiores empresas do ramo no país. Os dados sustentam as histórias. Dos cerca de 5 milhões de domicílios com mais de US$ 5 milhões, 3 milhões são donos de negócios privados, e quanto mais alto o patamar de riqueza, mais quase todos são donos. Cerca de um quarto herdou o negócio. A maioria fundou ou comprou. Quase nenhum tem MBA ou diploma de universidade de elite. Mounk entra como entrevistador e contrapõe o "a América é incrível" aos custos sociais dessa concentração. O retrato do milionário americano é o do dono da distribuidora de bebidas, e não o do engenheiro de Palo Alto. (Só a primeira metade da transcrição foi lida.)

Relevância para Pedro: Zidar e Zwick dão dados à frase que Pedro disse no Fórum Independente em 10/10, sobre o pobre que "não quer ter patrão": nos Estados Unidos, o caminho mais comum para a riqueza é ser o próprio patrão. Isso arma a coluna do Globo sobre a esquerda que precisa redesenhar seu Estado ideal, porque um Estado pensado para o empregado formal não conversa com quem sonha com o próprio negócio. No capítulo 5 do livro da Nova República, confirma o tema da autonomia com dados de fora.

🔗 Why America's Real Wealth Isn't in Silicon Valley — The Good Fight / Persuasion


Noah Smith

Why Donald Trump won in 2024 — Noahpinion (reedição do texto de 2024, com introdução nova)

Smith republicou sua análise da eleição de 2024, e a novidade está toda na abertura. Ele chama a segunda presidência de Trump de "fracasso colossal", prevê que os republicanos vão perder as eleições de meio de mandato e explica por que voltou ao assunto: "A janela está se fechando para que eu consiga obrigar os democratas a encarar seus fracassos dos anos Biden." As três lições de 2024 continuam no texto. O identitarismo não funciona com os latinos. A inflação pesa mais no voto que o desemprego. A elite educada perdeu o contato com o eleitor. O argumento implícito na introdução é este: quando o adversário fracassa, o partido derrotado deixa de sentir que precisa se corrigir. Para Smith, a vitória que se aproxima é o que ameaça a autocrítica dos democratas. (Foram lidos a introdução e o começo.)

Relevância para Pedro: É o espelho americano da crítica de Bosco ao "partido digital" de Nobre no Fórum Independente: em 30 minutos de conversa, ninguém falou de inflação, custo de vida ou segurança pública. Smith confirma a tese da coluna do Globo sobre a esquerda brasileira, que, como os democratas, pode perder a janela de autocrítica justamente quando o adversário tropeça.

🔗 Why Donald Trump won in 2024 — Noahpinion


§ 03

Publicados mas sem acesso

3 itens
  • Halina Bennet — I went to the Renaissance fair and got a lesson in belonging (Slow Boring, autora convidada)
  • Amichai Magen — Five Scenarios for Israel's Election (Persuasion)
  • Phillips P. O'Brien — The U.S. Military Needs To Reorganize (Persuasion)

§ 04

Conexões entre as vozes

Garton Ash + McFaul. A aposta de Putin contra o Ocidente tem duas pernas. McFaul descreve a primeira: os líderes ocidentais têm preço. Garton Ash descreve a segunda: as democracias são decadentes demais para aguentar uma guerra longa. Lido sozinho, cada texto parece tratar de outra coisa, um da corrupção em Washington, o outro do rearmamento em Berlim. Lidos juntos, mostram que a primeira perna da aposta já se confirmou nos Estados Unidos e que a segunda ainda não foi decidida. Ela depende dos eleitores europeus, não dos governos. Por isso as próximas eleições na Alemanha, na França e na Itália pesam tanto quanto qualquer entrega de Patriots.

§ 05

Cruzamento — do radar ao vault

Owen Zidar e Eric Zwick — Why America's Real Wealth Isn't in Silicon Valley × [[A Cooperativa, a Igreja e o Rodeio — Intermediação e Thymos nas Cidades do Agronegócio]] Tipo (Boden): combinatória

O milionário que Zidar e Zwick encontram nos dados americanos é o mesmo personagem que o ensaio põe no Rotary de Sinop, e a metrópole brasileira deixa de ver o agro pelo mesmo motivo que o debate americano deixa de ver a distribuidora de bebidas: procura a riqueza onde está o prestígio, e não onde está a propriedade.

O mapeamento é ponto por ponto. A riqueza vem do negócio comum (revenda de carros, distribuidora, empreiteira), que no agro é a revenda de máquinas, a cerealista, a loja de insumos. Os ricos não têm MBA nem diploma de elite, e o ensaio fala de "reputações de uma ou duas gerações" no lugar de sobrenomes. A crítica da concentração aparece nos dois: Mounk faz o papel que no ensaio cabe a Denise Elias. A imagem errada também se repete, Palo Alto para os americanos e São Paulo, de onde a fivela e a caminhonete "parecem toscos", para os brasileiros. Lidos juntos, os dois sugerem que a camada de cima do agro, que o próprio ensaio aponta como a que mais pesa na coesão medida pelas pesquisas, é a versão brasileira de uma classe que o centro dos dois países não enxerga.


Noah Smith — Why Donald Trump won in 2024 × [[A Economia Não É Suficiente — Thymos, Incorporação e o Erro Materialista da Esquerda]] Tipo (Boden): exploratória

O ensaio usa 2024 como prova de que a economia não basta, porque Trump venceu "numa economia em crescimento". Smith mostra que a variável que pesou foi o preço, e não o PIB nem o desemprego. Lido junto, o caso deixa de provar a insuficiência da economia e passa a mostrar uma esquerda que mede a economia pelos indicadores errados. É o mesmo descolamento da elite que o ensaio atribui a ela no campo do reconhecimento.

As três lições de Smith correspondem às três peças do argumento do ensaio. Em duas, os dois concordam: a falha com os latinos (o identitarismo oferece o reconhecimento errado, o que bate com a crítica do ensaio ao eleitor tratado como "beneficiário") e a elite desconectada. Na terceira, a econômica, os dois divergem. O teste vai até a borda do conceito de [[thymos]]. Ele sobrevive, mas perde a prova empírica que o abria. Daqui em diante, o caso americano só serve ao ensaio se a inflação for lida como ferida de reconhecimento (o salário que já não compra a vida de antes) e não apenas como perda de renda.

§ 06

Ponte com o Brasil

Zidar e Zwick mostram que, nos Estados Unidos, o sonho que enriquece é ser dono de um negócio comum, e não ter carteira assinada numa grande empresa. A classe C brasileira que "não quer ter patrão" tem o mesmo sonho em escala menor. A esquerda brasileira ainda desenha o seu Estado para o empregado formal.

§ 07

Top of mind

2 itens
  • Fórum Independente (10/10). Na crítica ao "partido digital" de Nobre, Bosco notou que faltaram inflação, custo de vida e segurança pública, e Pedro levou a discussão para a classe C. A conversa encontra Noah Smith (inflação pesa mais que desemprego, elite desconectada) e Zidar e Zwick (ser o próprio patrão como projeto de vida).
  • Felipe Nunes, "Flávio se saiu melhor que Jair. É o agro, estúpido!" O texto está no vault, no material do ciclo eleitoral, e ainda não foi lido. Pode conversar com Zidar e Zwick sobre a riqueza do interior, mas precisa ser lido antes de qualquer afirmação.