A leitura do dia
Paul Krugman chamou a IA de "a technology of, by and for oligarchs". Noah Smith não discute o rótulo. Ele segue o dinheiro e encontra quatro canais por onde o boom já chega ao americano comum. O texto ganha o dia porque contraria o consenso com números que se podem conferir, e porque Smith admite o dado que mais pesa contra ele: a opinião pública sobre IA é "overwhelmingly negative". O outro texto de Smith hoje, sobre Trump, chegou só em resumo.
A tese de Smith cabe numa imagem de Conan Doyle: "This macroeconomic benefit is hidden; it's the proverbial dog that didn't bark." O ganho da IA para o trabalhador não aparece como coisa que aconteceu. Aparece como o desemprego que não aconteceu. Smith mostra isso em quatro canais. O primeiro é a construção: emprego e salário real do setor sobem desde 2022, apesar das deportações, e o Goldman estima 500 mil vagas novas em construção e ofícios até 2030. O segundo é o imposto: data centers pagam escola, biblioteca e estrada, como no condado de Loudoun, na Virgínia. O terceiro é a demanda: a obra dos data centers compensou tarifas, deportações e incerteza, e pela lei de Okun um ponto a menos de crescimento deixaria quase 1 milhão de pessoas sem emprego. O quarto é o consumidor: Brynjolfsson e coautores estimam um excedente de US$ 172 bilhões por ano, mais que a receita anualizada de Anthropic e OpenAI somadas e cerca de metade do lucro anual da Nvidia. Daí a frase mais dura do texto: "the AI boom is the only thing standing between countless regular Americans and Trump's self-destructive chaos".
O lance mais fino vem depois. Smith não nega o medo do público, mas diz onde ele está. O americano tem medo de perder o emprego e de morrer, não de "oligarcas". Assim Krugman erra duas vezes: não vê os canais do benefício e atribui ao público um medo que o público não sente. Há ainda uma farpa no texto, o Krugman de 1998 cético da internet: "most people have nothing to say to each other!" O problema que Smith deixa em aberto é político. Um cão que não late não ganha eleição.
Relevância para Pedro: Para o livro Ideologia no Vale, o texto separa duas críticas que costumam vir juntas: a do poder político dos donos da IA, que é o assunto do livro, e a de que a tecnologia não beneficia ninguém fora da oligarquia, que os números de Smith desmontam. O livro precisa dessa separação para não herdar o enquadramento de Krugman, e os quatro canais podem entrar como a concessão que torna mais forte a crítica ao poder.
🔗 What the AI boom is doing for Americans — Noahpinion
Publicados mas sem acesso
- Noah Smith — The second Trump presidency is a world-historic failure (Noahpinion)
Cruzamento — do radar ao vault
Noah Smith — What the AI boom is doing for Americans × [[Zona Franca de Manaus — Subsídio Sem Dono]] Tipo (Boden): exploratória
Lidos juntos, os dois mostram que a lógica de Olson não favorece a política boa nem a ruim: favorece o lado que é nítido. Por isso a mesma invisibilidade do lado difuso mantém vivo um subsídio que ninguém defenderia em público e condena na opinião pública uma tecnologia que já paga emprego, escola e excedente ao consumidor.
O ensaio da ZFM descreve o quadrante clássico de Olson: o benefício é concentrado (bancada do Amazonas, FIEAM, engarrafadoras) e o custo é difuso, pago por "consumidores que pagam sobrepreço sem saber". O regime se renova porque ninguém ganha voto ao mexer nele. Smith descreve o quadrante espelhado. O benefício é difuso e invisível (o excedente de US$ 172 bilhões, a vaga em construção, o desemprego que a lei de Okun diz que não veio), e o lado nítido é o medo concentrado de perder o emprego. Os dois casos são da mesma forma, e a forma é o argumento do emprego contrafactual. A ZFM se defende com o desemprego que viria se ela acabasse, que se vê porque tem fábrica e crachá. A IA não consegue se defender com o desemprego que não veio, porque ele não tem rosto. O "cão que não latiu" de Smith é o mesmo consumidor do ensaio da ZFM, agora do lado do ganho, e de novo sem saber.
Ponte com o Brasil
A Quaest/Globo de 03/10 perguntou ao eleitor: "O que te dá mais medo hoje: mais um governo Lula ou a família Bolsonaro voltar ao poder?" A pergunta organiza a disputa pela rejeição, não pela promessa. O texto de Smith mostra o mesmo mecanismo pelo avesso. O benefício da IA é difuso e não aparece, o medo de perder o emprego é nítido, e a opinião pública acompanha o medo. Lá e aqui, o eleitor pesa o que teme, e não o ganho que não enxerga.
Top of mind
- Quaest/Globo, 7ª rodada presidencial. São 3.702 entrevistas, feitas em 02 e 03/10, com margem de 2 pontos. Traz o cenário de segundo turno Lula × Flávio Bolsonaro, a pergunta do medo e a avaliação do governo Lula.