Radar · Voices

14.10.26

Quarta-feira Edição nº 193

Símbolo sem substância

§ 01

A leitura do dia

Thompson escreveu sobre estrutura de mercado. Deming, no trecho que temos, descreve uma instituição. Yglesias é o único que defende um valor contra dois adversários ao mesmo tempo, e ele prende o argumento a uma cena. Faltam onze dias para o segundo turno, num país em que a camisa da seleção virou uniforme de facção. Por isso é o texto que mais serve hoje.

Num festival de música em Maryland, Tom Morello interrompeu "This Land Is Your Land" para dizer à plateia que Woody Guthrie sabia que toda polegada daquela terra fora roubada dos povos indígenas. Yglesias lê a canção ao contrário. Para ele, a força dela está em recusar a acusação de terra roubada e em afirmar que "você e eu" temos direito coletivo à prosperidade americana. Do outro lado está Marco Rubio, que posou diante da Acrópole para reivindicar um Ocidente transnacional enquanto defendia o nacionalismo. Trump e Rubio, escreveu Yglesias, entendem de símbolo e abandonam a substância: dinheiro público em anúncios pró-Trump, a Ucrânia largada, cubanos deportados para a República Centro-Africana. São, nas palavras dele, "a smash-and-grab operation on the country's wealth". O que sobra é uma tradição atacada pelos dois flancos: "a group of people who want to tear down the substance of all of our ideals and a group who want to tear down the notion that these ideals are worth having." No caminho, Yglesias acerta contas com Huntington, que classificou a Grécia como não ocidental e via ameaça na imigração hispânica. O Ocidente que Rubio reivindica diante da Acrópole nem cabe no mapa de Huntington.

Relevância para Pedro: A coluna do Globo antes do segundo turno de 25/10 ganha aqui o espelho americano da camisa amarela, apropriada desde 2018. A pergunta da coluna sai pronta: por que o liberal brasileiro parou de disputar os símbolos nacionais e entregou o patriotismo a quem não defende a substância?

🔗 Destroying the West in order to save it — Slow Boring


§ 02

Textos lidos na íntegra

Ben Thompson

SpaceX Buys More Spectrum, Musk and Market Structure, Distributed Cellular — Stratechery (Update de 13/10)

A SpaceX pagou US$ 8 bilhões à Grain Management pelo espectro de 800 MHz que um dia foi da Nextel. Thompson admite que tinha minimizado as compras anteriores. Agora ele lê ali o método de Musk: "his goal is to fundamentally reshape the market structure such that his companies' victory is inevitable, whether you like him or not." O plano ficou claro na teleconferência de agosto: femtocélulas nos telhados, ao lado das antenas Starlink. O satélite faz o backhaul e já cobre tudo. A operadora, enquanto isso, paga torre, fibra e equipamento, e o custo da concorrente vira a vantagem da SpaceX. As ações de AT&T, Verizon e T-Mobile caíram mais de 6%. Thompson guarda duas dúvidas: se o mercado é grande o bastante e se o consumidor escolhe operadora por esse critério. Também registra Ed Bastian, CEO da Delta: "We do not want to be with Elon Musk. Trust me." Thompson aposta que a Delta vai pagar mais caro no dia em que mudar de ideia.

Relevância para Pedro: Num PdP, a Starlink deixa de ser a internet do garimpo amazônico e passa a concorrer com operadora de celular. No Meio, isso relê o bloqueio das contas da Starlink no embate de Musk com o STF em 2024. O que era briga de bilionário com ministro vira questão de soberania de telecom, e a Anatel terá de dizer o que pensa dela.


Yascha Mounk, com David Deming

David Deming on the Future of Universities in the Age of AI — Persuasion / The Good Fight

A doação que fundou Harvard foram 400 livros. Deming, reitor de Harvard College, parte daí para contar três universidades. Primeiro, a guardiã de conhecimento escasso. Depois, a da expertise. Agora, com a IA transformando a expertise em commodity, a volta ao "collegium", uma comunidade. "Knowledge is just words written on a page. The expert curates knowledge and helps people understand how to interpret it." A curadoria o modelo também faz. O que ele não faz é formar caráter: "Learning virtues like justice, integrity, and fairness is best done in community with others." Deming quer pesquisa e ensino juntos, porque ensinar "mantém você fresco", e desconfia de pesquisa paga por laboratório de IA por causa da proveniência. Mounk pressiona sobre o retorno do diploma, os MBAs bancados por consultorias e o dinheiro federal. A resposta mais seca de Deming é que a demografia ameaça o modelo de negócio mais que a IA. Lemos só o trecho inicial da transcrição.

Relevância para Pedro: Em Ideologia no Vale, Deming é o contraponto institucional à Thiel Fellowship. O reitor de Harvard aceita a premissa do Vale de que a expertise acabou, mas põe o valor do diploma onde o Vale não sabe medir: na comunidade.

🔗 David Deming on the Future of Universities in the Age of AI — Persuasion


§ 03

Publicados mas sem acesso

1 item
  • Wilson Gomes — Como virar votos quando ninguém quer mudar de lado? (Folha de S.Paulo, Opinião)

§ 04

Conexões entre as vozes

Deming e Martin Gurri. Gurri não é voz monitorada. Seu texto, "The Search for a Post-Enlightenment Democracy", chegou pelo feed da Persuasion em 13/10 e foi lido fora da lista. Os dois decretam o fim da autoridade do especialista. Deming trata a perda como uma reforma: a universidade troca a expertise pela virtude formada em comunidade e sobrevive. Gurri trata a mesma perda como colapso da ordem iluminista inteira, que vivia de valores cristãos herdados e já não tem fundamento. Lidos juntos, mostram que a saída de Deming depende de uma resposta que Gurri diz que ninguém tem. Virtude em comunidade pressupõe acordo sobre o que é virtude, e esse acordo é justamente o que Gurri dá por perdido.

§ 05

Cruzamento — do radar ao vault

Matt Yglesias — Destroying the West in order to save it × [[Como Se Desmonta uma Polarização — A Porta de Saída, o Espelho Recusado e o Brasil de 2026]] Tipo (Boden): exploratória

No terreno do símbolo, as duas condições que o ensaio trata como separadas para desmontar uma polarização são um gesto só: quem disputa o patriotismo recusa o espelho e abre a porta ao mesmo tempo, e quem o renega, como Morello no palco, fecha as duas de uma vez.

O laço é de forma: a pinça de dois flancos. O ensaio pede uma porta para a direita moderada sair sem trocar de identidade, como Magyar, que "speaks the language of the right-wing political community" e retomou a bandeira em vez de deixá-la com Orbán. Pede também uma oposição que não devolva o espelho, isto é, que não se comporte como a "sabotadora antipatriótica" que o chavismo dizia que ela era. Yglesias encaixa nas duas condições. Trump e Rubio ficam com o símbolo e esvaziam a substância, e a acusação de Morello de que "toda polegada foi roubada" é o espelho em estado puro. A leitura de "This Land" como direito coletivo de "você e eu" mantém o símbolo do lado não radical, e só nesse lado o moderado consegue chegar sem mudar de pele. O ensaio cita a bandeira de Magyar como um detalhe do primeiro padrão. Ao lado de Yglesias, ela vira a dobradiça entre os dois. Para o Brasil isso muda o diagnóstico de 4 de outubro: a porta que faltou não depende só de a direita moderada ter escolhido se alinhar, depende também de quem largou a camisa amarela do outro lado.

§ 06

Ponte com o Brasil

Wilson Gomes pergunta na Folha como se vira voto quando ninguém quer mudar de lado. Só lemos o título, mas Yglesias oferece uma hipótese. Com o eleitor parado, a disputa até 25/10 é por símbolo de pertencimento, e o programa conta pouco. Quem cedeu a bandeira em 2018 chega ao segundo turno disputando eleitores com a mão vazia.

§ 07

Top of mind

2 itens
  • Reel Global Player (John Robins, 12/10). O tutor de Oxford diz a Robins "you are the elite". Sem tio e sem contatos, Robins vai parar numa livraria. É o limite do collegium de Deming: a comunidade forma virtude, mas não distribui capital social.
  • Martin Gurri, na Persuasion (13/10; fora da lista). Para Gurri, a democracia liberal é a forma procedimental de um Iluminismo esgotado: "Equality is a choice." E ainda: "Liberalism needs a new foundation." Ele chega a propor que "the way out of the post-truth condition may be to embrace it." O texto bate de frente com a tese do livro da Nova República. Pedro sustenta que a substância liberal se sustenta sozinha, e Gurri diz que não. 🔗 The Search for a Post-Enlightenment Democracy