Radar · Voices

10.10.26

Sábado Edição nº 189

Sullivan contra o thymos

📡 RADAR VOICES — 2026-10-10

§ 01

A leitura do dia

Noah Smith descreve um fenômeno, McFaul redesenha um mapa militar e Yglesias calibra uma régua. Andrew Sullivan é o único que pega uma doutrina e a desmonta pela raiz, e faz isso de dentro. Um conservador católico chama o secretário de Estado americano de pagão, e a acusação pesa mais do que pesaria vinda da esquerda.

Sullivan pôs lado a lado dois discursos da semana, o de Kemi Badenoch, líder dos tories, e o de Marco Rubio. Para ele, os dois fracassaram por razões opostas. Badenoch repetiu o conservadorismo cego à cor, que ele acha digno e vencido: "Stirring, admirable stuff. For 2010." No Reino Unido, um em cada cinco habitantes nasceu fora do país, e a fórmula de Badenoch não responde ao medo demográfico que hoje alimenta duas outras legendas à direita dos tories. Rubio foi pelo caminho contrário e quis dar à direita americana uma fundação filosófica, o thymos, o "fire of passion, strength, courage, pride", que ele apresenta como virtude central dos gregos e, portanto, do Ocidente. Sullivan responde com os próprios gregos, convocando Sócrates e Alcibíades. Para os antigos, o thymos sempre se curvou à razão e à moderação. O Ocidente, escreve Sullivan, é "reason allied with Christianity", e Rubio quer trocá-lo por "unconstrained passion allied with the will to power. God help us." O texto termina no fuzilamento de Nidal Hasan, transmitido ao vivo, que Sullivan chama de celebração da crueldade. É a doutrina de Rubio saindo do papel.

Relevância para Pedro: Na coluna do Globo, o discurso de Rubio é a primeira tentativa séria de dar à direita trumpista, e por tabela ao bolsonarismo, um verniz grego. Com o Fukuyama que já está no vault, Pedro pode virar o argumento contra o próprio Rubio: megalotimia sem razão é o problema que o liberalismo existe para domesticar, e não uma virtude perdida a recuperar.

🔗 The Floundering Anglo-American Right — The Weekly Dish


§ 02

Textos lidos na íntegra

Noah Smith

Maybe the Rapture is already here — Noahpinion

O último episódio de Seinfeld teve 76 milhões de espectadores. O último de Game of Thrones teve menos de 20 milhões. A cultura de massa deu lugar à cultura de memes dos anos 2010, e agora os memes também sumiram e o X virou "ghost town". Smith aposta que todo mundo foi para o vídeo vertical curto. A imagem que ele usa vem da biologia, em que linhagens diferentes evoluem até virar caranguejo: a internet inteira "carcinized", convergiu para o mesmo formato. O feed personalizado por IA lembra a ele o "heavenbanning", em que a plataforma neutraliza o usuário com conteúdo feito para agradá-lo e ele acha que está falando com gente. A hipótese final é mais sombria. O smartphone seria o "Great Filter" da espécie, porque derruba a fertilidade. Myers e Hooper (2026) medem queda de 4,5% a 8,0% nos nascimentos entre mulheres de 15 a 19 anos depois do iPhone. Breen et al. (2026) acham, na Nigéria, queda de 7% na probabilidade anual de parto com a chegada do 3G. Smith acha o formato "pretty boring" e se descreve como o único que ficou para trás: "Now I know what they're doing. They're swiping."

Relevância para Pedro: O texto dá a pergunta de um reel metalinguístico no @pedrodoria: o formato em que você está me vendo agora é anestesia? Para responder, Pedro tem de dizer no próprio reel o que separa um vídeo com tese do deslizar pelo deslizar, e os números de Myers e Hooper entram como o dado que segura o espectador.

🔗 Maybe the Rapture is already here — Noahpinion


Michael McFaul

How to Avoid War Over Taiwan — McFaul's World

O texto não é inédito. É um trecho abreviado de Autocrats vs. Democrats (2025), republicado depois de uma visita de Tsai Ing-wen a Stanford. O que há de novo é a conta da guerra com o Irã: ela esvaziou os estoques de THAAD e Patriot e tirou porta-aviões do Indo-Pacífico, desfazendo na prática o "pivot to Asia". A receita de McFaul é armar Taiwan antes da invasão, o contrário do que se fez com a Ucrânia. Ele propõe mais gasto e mais serviço militar na ilha, prioridade a "a large number of small things" e independência energética. Pede também bases permanentes nas Filipinas, a ambiguidade estratégica mantida e adotada pelo Japão, e sanções, congelamento de ativos e embargo de energia anunciados de antemão. O argumento central é a TSMC. Pequim precisa saber que não haverá espólio, porque, nas palavras de Marc Liu, citado por McFaul, uma invasão "will render TSMC's factory not operable". Taipé precisa ouvir que Washington não reconhecerá a independência, a menos que a China invada. Tsai, contou McFaul, resumiu o espírito: "boring is sometimes good in politics."

Relevância para Pedro: Num PdP de geopolítica, a guerra no Oriente Médio aparece paga em interceptadores que faltariam no Estreito de Taiwan. A TSMC entra como o objeto do episódio, uma fábrica que só vale enquanto ninguém a toma.

🔗 How to Avoid War Over Taiwan — McFaul's World


Matt Yglesias

An honest framework for assessing electoral performance — Slow Boring

Leitura do trecho aberto; o resto está atrás do paywall, mas a tese cabe no que está aberto. O ambiente nacional favorece os democratas. Por isso uma vitória apertada de Abdul El-Sayed para o Senado em Michigan seria, para Yglesias, desempenho abaixo do de um democrata genérico. Ele teme que, se El-Sayed vencer, a esquerda use o resultado para enterrar as preocupações com elegibilidade. Sua resposta é que o efeito do candidato existe e que o critério tem de ser fixado antes da eleição, com base nas pesquisas. Na frase dele: "A Democrat who's as effective at vote-getting as Slotkin should be crushing Rogers in this environment."

Relevância para Pedro: Para o Meio e para a coluna do Globo, a régua vale para a eleição brasileira de 2026: antes de dizer que alguém "surpreendeu", perguntar contra qual ambiente e contra qual candidato genérico.

🔗 An honest framework for assessing electoral performance — Slow Boring


§ 03

Publicados mas sem acesso

4 itens
  • Andrew Sullivan — Dishcast "Michael Lewis On The Civil Servants Who Defied Trump" (The Weekly Dish; só a introdução)
  • Matt Yglesias — "The dream of Blue Texas" (Slow Boring)
  • Ben Thompson — "An Interview with Katie Harbath About Disrupting Politics at Facebook" (Stratechery)
  • Niall Ferguson — "National Treasures, October Surprises, And Silly Walks" (The Ferg Report, podcast Good Fellows)

§ 04

Conexões entre as vozes

Sullivan + Noah Smith. No fim de O Fim da História, Fukuyama previu duas saídas para a democracia liberal: o thymos sem freio e o último homem satisfeito. Cada texto de hoje mostra só uma delas. Smith vê o último homem deslizando o dedo num feed que o anestesia. Sullivan vê Rubio oferecendo a paixão e a vontade de poder como remédio. Lidos juntos, os dois mostram a nova direita vendendo uma saída de Fukuyama como cura para a outra. A resposta liberal recusa as duas. O tédio de Smith e a razão de Sullivan são a mesma recusa.

§ 05

Cruzamento — do radar ao vault

Andrew Sullivan — The Floundering Anglo-American Right × [[Leo Strauss e Seus Discípulos — Do Diagnóstico da Modernidade ao Trumpismo e ao Vale do Silício]] Tipo (Boden): combinatória

Lido com o mapa de Strauss, o thymos "grego" de Rubio é a terceira onda nietzschiana vestida de Antiguidade, e a régua de Sullivan, razão aliada ao cristianismo, é a Atenas e Jerusalém do próprio Strauss: a briga se dá dentro da casa straussiana, e Rubio está no cômodo errado.

O par de discursos reproduz a primeira chave do ensaio. Badenoch é o liberalismo procedural, cego à cor, que não sabe dizer por que o regime merece defesa. Rubio ocupa o vácuo com fundamento substantivo, qualquer fundamento. A diferença está na origem que ele reivindica: diz voltar aos gregos, mas "passion allied with the will to power" é justamente o niilismo moderno que Strauss queria desfazer voltando a Platão. A acusação de paganismo muda de sentido. Rubio não é antigo demais, é moderno demais.


Noah Smith — Maybe the Rapture is already here × [[Máquinas de Megalothymia — Thymos, Redes Sociais e a Promessa Moderadora da IA]] Tipo (Boden): exploratória

O ensaio separava a máquina que inflama (rede social, paga por atenção) da que modera (LLM, paga por acurácia) e deixava a bajulação numa ressalva; Smith descreve a fusão das duas, uma IA que modera pelo agrado, e a métrica do ensaio, afastar o usuário dos extremos, não distingue esse efeito da isotimia.

O mapeamento é ponto a ponto. O X em "ghost town" é a máquina de megalotimia do ensaio se esvaziando. O feed personalizado por IA é a tecnologia que o ensaio chamava de isotímica, só que operada pelo modelo de negócio da atenção. O heavenbanning, que neutraliza o usuário cercando-o de agrado, é a sycophancy da seção 5 promovida de risco a produto. Lido junto com Smith, o ensaio fica devendo um critério que hoje não tem: o que separa moderar de sedar.


§ 06

Ponte com o Brasil

A régua de Yglesias, que mede o candidato contra o ambiente com critério fixado antes da votação, serve de antídoto às narrativas de vitória e derrota do ciclo eleitoral brasileiro de 2026. Quem não diz antes o que contaria como resultado forte só está escolhendo depois o placar que lhe convém.

§ 07

Top of mind

O carrossel do @chatgptips "7 prompts para o Reel viralizar em 7 dias", salvo no vault em 09/10, ensina a otimizar exatamente o que Noah Smith chama de anestesia. É o contraexemplo pronto para o reel metalinguístico da nota de Smith.