Radar · Voices

17.10.26

Sábado Edição nº 196

Fukuyama toma thymos de volta

📡 RADAR VOICES — 2026-10-17

§ 01

A leitura do dia

Marco Rubio citou Francis Fukuyama num discurso em Atenas, e hoje Fukuyama respondeu que Rubio não entendeu o que leu. Os outros textos do dia comentam a política de terceiros. Este é o autor da teoria reclamando o próprio conceito de volta. Sullivan descreve a indecência de Trump semana a semana. Fukuyama dá a essa indecência nome e genealogia, e ainda tem a notícia (o discurso) presa a uma tese que dura.

O conceito é thymos, o desejo de reconhecimento. Rubio o elogiou como o motor competitivo dos gregos, uma virtude sem mais. Fukuyama o divide em dois. A isothymia é a exigência de ser reconhecido como igual, e sustenta a democracia. A megalothymia é a exigência de ser reconhecido como superior, e produz tanto os grandes feitos quanto os grandes crimes. Para mostrar o custo, ele recorre a Tucídides: a Expedição à Sicília, a ambição ateniense que destruiu a própria Atenas. "Secretary Rubio praises thymos without regard to the ends to which it is directed." O golpe vem depois. Segundo Fukuyama, a retórica de Rubio foi moldada pela lealdade a Trump, que é megalothymia sem freio, e contradiz o que o governo de fato faz. Ele conclui que a política externa americana deveria se apoiar na igualdade entre as pessoas, não no culto ao grande indivíduo. O texto foi lido por um resumo, não na íntegra.

Relevância para Pedro: O livro da Nova República lê o bolsonarismo como a captura, por quem exige reconhecimento superior, de uma Constituição de 1988 erguida sobre o reconhecimento igual. Agora essa leitura tem a assinatura do próprio Fukuyama, e não mais só a inferência de um leitor dele. O texto também avança o cruzamento de ontem entre Douthat e "Máquinas de Megalothymia": o conceito saiu do ensaio e chegou ao Departamento de Estado.

🔗 Thymos and American Foreign Policy — Persuasion / American Purpose


§ 02

Textos lidos na íntegra

Andrew Sullivan

A Question Of Decency, Ctd. — The Weekly Dish

Sullivan abre com Orwell: "Either we all live in a decent world, or nobody does." Depois faz o inventário da semana. Houve especulação sobre transmitir ao vivo o fuzilamento de Nidal Hasan. O ICE prende imigrantes na última etapa legal da cidadania, inclusive a mulher de um militar inscrita no Parole in Place. O governo tentou desnaturalizar Ilhan Omar. E houve a virada contra a Ucrânia: um corte breve do Starlink e um "diesel deal" com Putin antes da eleição. Dez anos depois, Trump ainda choca porque a indecência é o método, e a crueldade anda junto com o grift. A frase decisiva vem de alguém que dá a Trump "real credit" pelo controle da fronteira: "This is less about reducing immigration than a performative, sick display of betrayal and cruelty." Para Sullivan, prender a mulher de um militar é "the kind of betrayal that mafia bosses, not presidents, delight in".

Relevância para Pedro: Para a coluna do Globo sobre decência como critério político, Sullivan dá a prova de que essa régua não é ideológica: um conservador aprova a política de fronteira e condena a crueldade encenada em cima dela. É a mesma linha que Pedro tenta traçar entre a direita brasileira que não é bolsonarista e o bolsonarismo.


Timothy Garton Ash

A very personal tribute to a great Polish dissident — History of the Present

Adam Michnik faz 80 anos hoje. Garton Ash o conheceu há 45 anos, numa greve do Solidariedade em Rzeszów, em 1981. O texto segue os encontros dos dois ao longo das décadas: as prisões dos anos 1980, a primeira Gazeta Wyborcza em 1989, o trem para Bytom na campanha de 4 de junho, a noite da unificação alemã em Frankfurt. Garton Ash vê em Michnik três qualidades: energia, brilho verbal e coragem. A coragem é a que pesa, e quem dá a razão é Samuel Johnson: sem ela, um homem "has no security for preserving any other" virtude. Sobre o amigo, o veredito é seco: "He certainly isn't always right, but he's always interesting." O texto foi escrito para um livro de homenagem e sai hoje em polonês na própria Wyborcza.

Relevância para Pedro: Para os capítulos da transição no livro da Nova República, Michnik é o intelectual-jornalista de uma transição negociada que fundou o jornal dela no ano da virada. Isso põe a pergunta sobre a imprensa da abertura brasileira: quem cumpriu esse papel aqui na mesma década, e por que nenhum jornal nasceu daquele momento.


Timothy Garton Ash

Aux armes citoyens! (yet again...) — History of the Present

Os estudantes franceses de hoje têm queixas reais, escreve Garton Ash, mas encenam um roteiro que aprenderam na escola. 1830, 1848, a Comuna de 1871, maio de 1968, os coletes amarelos de 2018: cada revolta carrega a violência da anterior em escala menor. A Revolução deu à França uma ideia nova de soberania popular e terminou em Napoleão. A moldura é de Tocqueville, sobre 1848, citada por Garton Ash: "had the feeling that we had staged a play about the French revolution, rather than that we were continuing it". O texto foi lido por um resumo, não na íntegra.

Relevância para Pedro: Num Ponto de Partida sobre política como encenação de memória, o 8 de janeiro é um caso nítido: acampamento à porta do quartel, roteiro de 1964, escala reduzida. A frase de Tocqueville abre o episódio sem mais nada.


Noah Smith

AI vs. the railroads — Noahpinion

Em 2025, Noah temia que o boom dos data centers de IA terminasse como as ferrovias americanas, "much like the railroad bust in 1873". A receita dos agentes de código cresceu o bastante para afastar esse risco por ora, embora os gastos também tenham crescido. A comparação de escala varia muito com as premissas de custo, mas a IA já está entre os maiores booms de infraestrutura da história americana. O que mudou foi o financiamento: os hyperscalers passaram a tomar muito dinheiro emprestado. Se o ciclo desacelerar agora, o estrago não fica nas ações. Vira calote. "All this debt creates a financial danger that didn't exist before now." O texto foi lido por um resumo, não na íntegra.

Relevância para Pedro: No Meio ou na coluna, a discussão sobre a bolha da IA muda de categoria: deixa de ser "as ações podem cair" e passa a ser risco de crédito, com 1873 como precedente. É o que impede Pedro de repetir o debate de 2025.


Matt Yglesias

The lost wisdom of the Old Moderates — Slow Boring

O e-mail chegou cortado. O argumento do título não aparece no trecho lido, que cobre só a abertura.

A Jacobin culpou a concentração das editoras pela queda da leitura. Yglesias responde com preços: Austen custa US$ 0,49 no Kindle, Shakespeare US$ 0,99, as bibliotecas públicas são de graça e a capa dura ficou mais barata em termos reais. Ler os clássicos nunca foi tão barato. O problema, para ele, está em outro lugar: "the exact same technology that has made it cheaper and easier than ever to access the classic works of literature has also made it easier to access a bottomless pit of content and there's only so much time in the day."

Relevância para Pedro: Para a tese de Pedro sobre a economia da atenção, na coluna ou num Ponto de Partida, o trecho troca o gargalo de lugar. O limite é o tempo, não o acesso, e quem disputa esse tempo é a mesma tecnologia que barateou o livro.


§ 03

Publicados mas sem acesso

4 itens
  • Andrew Sullivan — Evan Barker On Wokeness Hijacking The Dems (Dishcast)
  • Michael McFaul — Trump, Putin and the Diesel Deal with Michael McFaul (Substack Live)
  • Ben Thompson — Apple HomeView, The New Apple TV, The App Story (Stratechery)
  • Ben Thompson / Andrew Sharp — SpaceX Buys More Spectrum, Musk and Market Structure, Distributed Cellular (Stratechery)

§ 04

Conexões entre as vozes

Fukuyama + Sullivan. O Orwell da abertura de Sullivan ("either we all live in a decent world, or nobody does") é a isothymia em linguagem moral. Sozinho, Sullivan descreve um defeito de caráter que se repete toda semana. Ao lado de Fukuyama, o padrão vira programa: o lugar do reconhecimento igual é tomado pela exigência de reconhecimento superior. Rubio só põe nessa troca um verniz grego.

Fukuyama + Garton Ash (Michnik). Fukuyama acusa Rubio de louvar o thymos sem perguntar a que fim ele serve. Michnik responde a pergunta. Sua coragem é thymos em estado bruto, a mesma paixão por reconhecimento que move um autocrata, só que posta a serviço da dignidade igual. Lidos juntos, os dois textos mostram que a intensidade não separa o dissidente do tirano. Separa o fim.

§ 05

Cruzamento — do radar ao vault

Andrew Sullivan — A Question Of Decency, Ctd. × [[A Multidão Conservadora — José de Souza Martins e o Que Provoca um Linchamento]] Tipo (Boden): transformacional

Pela definição de Martins, que olha o procedimento, a crueldade que Sullivan cataloga não é defeito de caráter. É o procedimento do linchamento (prova dispensada, inocência irrelevante, corpo exposto, expulsão da comunidade) executado pelo mesmo Estado que, no cadastro de Martins, salvava a vítima.

O cruzamento é por forma. Ponto a ponto, o inventário de Sullivan repete as peças da definição de Martins. A mulher do militar, presa quando cumpria a lei, é o caso em que "a inocência é irrelevante para a dinâmica". A transmissão ao vivo do fuzilamento é o corpo exposto do rito sacrificial. A desnaturalização de Omar é o "matar para a sociedade", tirar de alguém a condição de membro. E o "performative display" que até o defensor da política de fronteira enxerga é a punição exemplar que importa mais que o resultado. Há ainda uma peça mais fina. O ICE prende na última etapa legal da cidadania, e isso reproduz o linchamento à porta do fórum ou dentro da cadeia, a "disputa em torno do corpo" contra o procedimento institucional. A ruptura está no sujeito: o ensaio deixava o procedimento portátil para universidades e caixas de comentários, mas tratava o Estado como o terceiro que interrompe. Lido com Sullivan, o terceiro vira o acusador. É o "contínuo punitivo" de Candotti e Silva visto de cima para baixo, e a régua da decência ganha uma definição operacional que não depende de gostar ou não de Trump.


Matt Yglesias — The lost wisdom of the Old Moderates × [[Compreensão e Sedução — Dois Problemas da Comunicação Pública em Rede]] Tipo (Boden): exploratória

Yglesias mostra que os eixos do ensaio não são independentes como ele supõe: a mesma tecnologia que derruba a barreira de entrada até o texto multiplica a barreira motivacional, e baixar uma levanta a outra.

O mapeamento é estrutural. A Jacobin culpa o preço pela queda da leitura e comete, na escala da política cultural, o erro que o ensaio atribui ao comunicador acadêmico: atacar o atrito errado, achando que tirar o obstáculo de acesso traz o leitor. Yglesias põe o gargalo onde o ensaio põe a sedução, no custo de oportunidade de um tempo finito diante de conteúdo infinito. O que ele acrescenta, e o ensaio não tem, é o acoplamento. O ensaio trata compreensão e sedução como eixos ortogonais e não nomeia um atrito anterior aos dois, o de acesso. Yglesias mostra que esse atrito caiu a zero pela mesma via que encareceu a atenção. O conceito do vault se estica: a matriz de dois eixos ganha uma dimensão de fundo, e nela as curas pela oferta se anulam. Uma ressalva: o e-mail chegou cortado, e o cruzamento usa apenas a abertura lida.

§ 06

Ponte com o Brasil

A Polônia de Michnik, de 1981 a 1989, e o Brasil da abertura negociaram a saída do autoritarismo na mesma década, com jornais e intelectuais no centro. Hoje as duas democracias enfrentam a mesma prova de megalothymia populista. Para o livro da Nova República, é um par de comparação que Pedro ainda não explorou.

§ 07

Top of mind

2 itens
  • Reel do The Observer (16/10), "Did video kill the podcaster?": cerca de 1 bilhão de pessoas por mês veem podcasts no YouTube, e a plataforma reduz o formato a duas pessoas numa sala. O jornal chama isso de "platformisation". Junto com o Yglesias, completa o quadro: o tempo é o gargalo, e quem decide o formato que ocupa esse tempo é a plataforma. Interessa ao Ponto de Partida, que é vídeo com rosto.
  • Fukuyama hoje, depois do cruzamento de ontem (Douthat × "Máquinas de Megalothymia"): o argumento é o mesmo. A novidade é a voz: Fukuyama fala em primeira pessoa contra um secretário de Estado.