A leitura do dia
Noah Smith é a única voz do dia lida na íntegra. Ele vence, porém, porque arrisca uma tese que nenhum dos outros toca: para ele, a brutalidade do governo Trump não é temperamento do chefe. É a doutrina da direita que vai herdar o partido. E Noah prende a tese a objetos concretos: uma execução que quase foi ao ar, uma luva de boxe, um lobo.
O ponto de partida é o plano do governo de transmitir ao vivo o fuzilamento de Nidal Hasan, cancelado só depois de pesquisas ruins. Noah lê no episódio homens no poder com valores "premodern and barbaric", distantes dos do americano médio. A Nova Direita que sucederá Trump define o Ocidente por descendência europeia e herança cristã e vê na imigração, sobretudo a muçulmana, uma invasão bárbara. Daí o culto da dureza, que vai de Jesse Kelly e Trump Jr. a Michael Anton e passa por apologias a Franco, Pinochet e Hitler. Daí também a afinidade com a Rússia de Putin, "savage, unrestrained". O mecanismo mais afiado do texto cabe numa imagem: para essa direita, cada derrota prova que ela foi mole demais, "an infinite regress of boxing gloves that they were too afraid to take off". A derrota não corrige o rumo. Ela autoriza tirar mais uma luva. Noah fecha com o problema que o movimento não enfrenta: quem quer governar precisa de apelo popular amplo, e disposição de ser mais bárbaro que o inimigo não substitui isso. O risco cabe numa frase dele: "You can end up doing some very stupid things if you think you're the only wolf in a world full of sheep."
No radar de ontem, Andrew Sullivan tratou o mesmo fuzilamento como questão de decência. Noah explica por que alguém o planejou.
Relevância para Pedro: O mecanismo das luvas dá ao PdP de segunda (19/10), ou à coluna do Globo, a pergunta da semana final do 2º turno: a direita brasileira também lê 2022 e o 8 de janeiro como prova de que foi branda demais? Se lê, a coluna sai com uma hipótese que dá para testar no dia seguinte a uma derrota apertada, e a hipótese é de radicalização, não de moderação. Para o capítulo da Nova Direita em Ideologia no Vale, Michael Anton e o Ocidente definido por herança, e não por instituições, confirmam a distinção que o capítulo precisa marcar.
🔗 Why are we ruled by barbarians? — Noahpinion
Publicados mas sem acesso
- Matt Yglesias — The voice of a generation (Slow Boring). Parte de Hannah Horvath, de Girls: "The generation's dissatisfaction is with its own reflection."
- Martin Wolf — Is American democracy safe? Martin Wolf on the US midterms (FT, podcast)
- Yascha Mounk com Eliot Cohen — Eliot Cohen on Why America Keeps Losing Wars It Should Win (Persuasion)
- Yascha Mounk e Richard Aldous — Episode 193: Peter Bergen on Twenty-Five Years of America's War on Terror (Bookstack)
Cruzamento — do radar ao vault
Noah Smith — Why are we ruled by barbarians? × [[Leo Strauss e Seus Discípulos — Do Diagnóstico da Modernidade ao Trumpismo e ao Vale do Silício]] Tipo (Boden): exploratória
Lida ao lado do ensaio sobre Strauss, a regressão das luvas de Noah deixa de parecer tique de influenciador e aparece como a forma degenerada do diagnóstico de Weimar, de que o liberalismo caiu porque não sabia por que se defender: quando a moleza explica toda derrota, a explicação não pode ser desmentida, e a linha que vai de Strauss a Anton e a Jesse Kelly é a mesma luva tirada três vezes, uma por geração.
O mapeamento é ponto a ponto. Em Strauss, Weimar caiu por falta de convicção. Em Anton, 2016 é o "Flight 93", em que é preciso invadir a cabine ou morrer. Em Noah, cada derrota da Nova Direita autoriza mais brutalidade. Nos três casos, o fracasso vira prova de que faltou firmeza, e nunca de que a direção estava errada. O ensaio do vault já anotava, nos limites 4 e 5, a projeção de Weimar sobre os Estados Unidos e o deslize da crítica para a substituição, mas não dava o mecanismo. Noah dá. A forma em comum também une o lobo entre ovelhas à elite straussiana que conhece a verdade diante de uma cidade que precisa de mitos: é a minoria lúcida que governa sem maioria. O ensaio diz que o Claremont avançou "não porque tenha conquistado uma maioria, mas porque preencheu um vácuo". Noah aponta exatamente aí o ponto fraco: preencher um vácuo não substitui o apelo popular. O cruzamento é exploratório porque estica a "primeira chave" do ensaio, a dificuldade do liberalismo, até a patologia dos seus herdeiros: o diagnóstico de fraqueza, uma vez instalado, gera o próprio acelerador.
Ponte com o Brasil
A lógica de que "perdemos porque fomos moles" não depende de fronteira para circular. Faltando uma semana para o 2º turno, fica a pergunta: ela já tem versão brasileira? E, se tiver, que luva a direita daqui ainda acha que não tirou?